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Café com Alecrim · Mar 10, 2026

Que messias é esse?

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Giovanni Alecrim · Café com Alecrim

1Quando Jesus terminou de dar essas instruções a seus doze discípulos, saiu para ensinar e anunciar sua mensagem nas cidades da região.

2João Batista, que estava na prisão, soube de todas as coisas que o Cristo estava fazendo. Por isso, enviou seus discípulos para perguntarem a Jesus: 3“O senhor é aquele que haveria de vir, ou devemos esperar algum outro?”.

4Jesus respondeu: “Voltem a João e contem a ele o que vocês veem e ouvem: 5os cegos veem, os aleijados andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e as boas-novas são anunciadas aos pobres”. 6E disse ainda: “Felizes são aqueles que não se sentem ofendidos por minha causa”.

7Enquanto os discípulos de João saíam, Jesus começou a falar a respeito dele para as multidões: “Que tipo de homem vocês foram ver no deserto? Um caniço que qualquer brisa agita? 8Afinal, o que esperavam ver? Um homem vestido com roupas caras? Não, quem veste roupas caras mora em palácios. 9Acaso procuravam um profeta? Sim, ele é mais que profeta. 10João é o homem ao qual as Escrituras se referem quando dizem:

‘Envio meu mensageiro adiante de ti,

e ele preparará teu caminho à tua frente!’.

11“Eu lhes digo a verdade: de todos os que nasceram de mulher, nenhum é maior que João Batista. E, no entanto, até o menor no reino dos céus é maior que ele.

Salvador da Pátria. Messias. Redentor. Tais conceitos revelam uma tendência humana de projetar em uma figura única a esperança de solução instantânea para todos os problemas coletivos ou pessoais.

Muitas vezes, as pessoas depositam expectativas exageradas em líderes, governantes ou até figuras religiosas, acreditando que sua chegada ou intervenção trará respostas imediatas e mudanças radicais.

Essa busca por alguém que resolva tudo pode ser compreendida como uma expressão de desejo por segurança e direção, mas também pode levar à decepção quando a realidade mostra que nenhuma pessoa, por mais capaz que seja, consegue sanar todas as questões de uma sociedade ou de uma vida individual.

Quantos de nós, em momentos de escuridão, seja na enfermidade, na perda, no silêncio de Deus, já não nos perguntamos, em segredo, se estamos no caminho certo? Se Deus continua conosco? Se o Messias que pregamos é, de fato, aquele que age nos rumos da história ou é só “mais um salvador da pátria”?

É nesse espaço sagrado da dúvida honesta que encontramos João Batista, preso nas masmorras de Herodes, enviando seus discípulos a Jesus com uma pergunta que ecoa até hoje: “O senhor é aquele que haveria de vir, ou devemos esperar algum outro?”

Não se engane: esta não é a pergunta de um cético, mas de um santo perplexo. E é justamente por isso que este texto nos fala com tanta urgência.

Para compreendermos a importância desta passagem para nossos dias, quero, primeiro, começar explicando a você o contexto de Mateus 11

Este trecho marca uma transição narrativa no Evangelho de Mateus. Após o chamado e o envio dos Doze (capítulo 10), Jesus retoma seu ministério público (v. 1). Mateus então introduz uma crise de identidade messiânica: João Batista, agora preso por Herodes Antipas (conforme Mateus 14:3-4), envia mensageiros a Jesus com a pergunta angustiante: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?

Essa pergunta não expressa incredulidade, mas expectativa frustrada. João pregara um Messias que viria com julgamento escatológico imediato (Mateus 3:10-12). Ao invés disso, Jesus cura, acolhe pecadores e adia o juízo final, o que gera perplexidade até no maior dos profetas.

Jesus responde não com uma afirmação direta, mas com uma citação implícita de Isaías 35:5-6 e 61:1, textos messiânicos que descrevem as marcas do Reino de Deus: restauração física e espiritual, inclusão dos marginalizados e proclamação da Boa Nova. Ele redireciona a visão de João: o Messias já está agindo, mas segundo os caminhos da graça antes do juízo.

A bênção do versículo 6, felizes são aqueles que não se sentem ofendidos por minha causa, usa a palavra grega σκανδαλίζω (skandalizō) “tropeçar”, “escandalizar-se”. Jesus reconhece que sua identidade não se encaixa nas expectativas humanas. A fé verdadeira é aquela que não se ofende com a maneira de Deus agir.

Nos versículos 7-11, Jesus volta-se à multidão e exalta João Batista. Ele contrasta a imagem frágil (caniço que qualquer brisa agita) com a firmeza de João; rejeita a ideia de luxo mundano (roupas caras) para destacar sua vocação disciplinada; e, então, faz uma afirmação teológica profunda: João é mais do que profeta, pois é o mensageiro de Malaquias 3:1, cuja missão é preparar o caminho do Senhor.

A declaração final é paradoxal: de todos os que nasceram de mulher, nenhum é maior que João Batista. E, no entanto, até o menor no reino dos céus é maior que ele. Isso não diminui João, mas exalta a nova era inaugurada por Cristo. João pertence à antiga aliança; os que entram no Reino pela fé em Jesus participam de uma realidade superior, não por mérito, mas por graça e revelação plena.

Elementos Teológicos-Chave

  1. Identidade messiânica de Jesus: ele é o cumprimento das profecias, mas age com misericórdia antes do juízo.

  2. Crise da expectativa: até os santos mais fiéis podem questionar quando a realidade não corresponde às suas expectativas.

  3. Revelação progressiva: João é grande, mas a plenitude do Reino supera a preparação.

  4. Fé sem escândalo: a fé é para quem não se ofende com os caminhos misteriosos de Deus.

  5. Transição entre as alianças: o ministério de João fecha a era profética; o de Jesus inaugura o Reino dos céus.

Uma vez compreendido o contexto de Mateus 11, quero focar, agora, no diálogo de Jesus e João Batista.

Mateus nos relata que, após Jesus enviar os Doze em missão, Ele continuou ensinando e pregando nas cidades. O Reino avança. Mas, ao mesmo tempo, João Batista está preso. Aquele que preparou o caminho do Senhor, que clamou no deserto, que apontou o Cordeiro de Deus, agora está acorrentado, talvez esquecido, certamente inativo.

Na prisão, João ouve falar dos feitos de Cristo. Mas esses feitos não são os que ele anunciara. Lembrem-se: João pregara que o machado do julgamento está pronto para cortar as raízes das árvores. Toda árvore que não produz bons frutos será cortada e lançada ao fogo. (Mateus 3:10). Ele esperava um Messias consumidor, julgador, que separaria o trigo do joio com uma pá em sua mão.

Mas o que João ouve? Que Jesus cura leprosos, acolhe publicanos, come com pecadores, perdoa pecados e ainda não derrubou os tronos dos ímpios. Onde está o fogo? Onde está o julgamento?

E então, com coragem e humildade, João envia seus discípulos a perguntarem: O senhor é aquele que haveria de vir, ou devemos esperar algum outro?

Não subestimem este gesto. João não espalha rumores. Não se fecha no silêncio amargo. Ele leva sua dúvida diretamente a Jesus. Há uma lição profunda aqui: a fé não teme perguntar. Muitos de nós carregamos perguntas sem resposta. Por que a doença persiste? Por que o filho se afastou da fé? Por que a justiça tarda? Não escondam, nem silenciem essas perguntas. Levem-nas a Cristo. Assim fez João e Jesus não o repreendeu. Pelo contrário: respondeu com ternura e verdade.

Jesus não diz “sim” ou “não”. Ele não entra no jogo das expectativas humanas. Em vez disso, manda os mensageiros voltarem e testemunharem o que veem e ouvem.

E aqui está o coração do Evangelho: Voltem a João e contem a ele o que vocês veem e ouvem: os cegos veem, os aleijados andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e as boas-novas são anunciadas aos pobres (v. 4–5)

Essas palavras não são improvisadas. São uma citação direta de Isaías 35:5-6 e 61:1, textos que descrevem o tempo da salvação, quando Deus virá e restaurará toda a criação. Jesus está dizendo: João, o Reino já começou. Olhe para as evidências.

Entre todas as maravilhas, Jesus dá destaque especial a uma: as boas-novas são anunciadas aos pobres. Na cultura judaica, pobres não são apenas economicamente necessitados, mas os humildes de espírito, os que reconhecem sua dependência total de Deus. É a estes que Jesus anuncia a Boa Nova, não aos poderosos, não aos religiosos, mas aos quebrantados de coração.

E então, quase como um sussurro, Jesus acrescenta: felizes são aqueles que não se sentem ofendidos por minha causa (v. 6). Jesus sabe: seu Reino ofende as expectativas humanas. Ele não vem com exércitos, mas com cruz. Não com glórias espetaculares, mas com humilhação.

Quantos hoje se escandalizam com Deus, que permite o sofrimento? Que não intervém como queremos? Que salva pelo caminho da fraqueza? Mas é justamente nesse caminho que encontramos a sabedoria de Deus, que é loucura para o mundo.

Bem-aventurado é você quando, diante do mistério, não te voltas para a incredulidade, mas dizes, como Jó: Ainda que Deus me mate, ele é minha única esperança; apresentarei a ele minha causa. Jó 13:15.

Após os discípulos partirem, Jesus volta-se à multidão e faz uma série de perguntas retóricas que revelam a grandeza singular de João Batista.

  • Que tipo de homem vocês foram ver no deserto? Um caniço que qualquer brisa agita? Não! João não era um homem volúvel, moldado pelas opiniões alheias. Ele foi firme como rocha diante de Herodes.

  • Um homem vestido com roupas caras? Certamente não. João vestia pelo de camelo, comia gafanhotos e mel silvestre. Ele rejeitou o luxo do mundo para se consagrar ao chamado.

  • Um profeta? Sim, mas muito mais do que profeta. Por quê? Porque ele não apenas falou da vinda do Senhor, ele O viu. Ele apontou e disse: Vejam! É o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! (João 1:29).

Jesus então cita Malaquias 3:1: Envio meu mensageiro adiante de ti, e ele preparará teu caminho à tua frente! João é o cumprimento profético, o último da antiga aliança, o porta-voz do próprio Deus.

E então vem a declaração mais surpreendente: Eu lhes digo a verdade: de todos os que nasceram de mulher, nenhum é maior que João Batista. E, no entanto, até o menor no reino dos céus é maior que ele (v. 11). Isto não é contradição. É revelação progressiva.

João é o maior antes de Cristo. Mas os que entram no Reino pela fé em Jesus participam de uma realidade que João apenas pressentiu. Nós conhecemos a cruz. Nós recebemos o Espírito Santo. Nós somos filhos adotivos, não apenas servos.

Você, que serve a Deus por anos; que luta com dúvidas; que busca integridade, todos vocês, por menor que se sintam, são maiores do que João na economia do Reino, não por mérito, mas por graça.

Por quê? Porque vocês veem o que os profetas desejaram ver e não viram. Vocês vivem na era da plenitude.

Concluo convidando você a três atitudes:

  1. Traga suas dúvidas a Jesus: ele não rejeita o coração sincero.

  2. Olhe para as obras de graça ao seu redor: o Reino já está entre nós, ainda que de forma parcial.

  3. Viva com humildade e gratidão: sendo o menor no Reino, você é mais abençoado do que os maiores da antiga aliança.

Neste mundo de incertezas, onde até os santos vacilam, Cristo permanece o mesmo ontem, hoje e eternamente. E talvez, no silêncio da sua cela, João ouviu os passos dos discípulos voltando e, ao ouvir a resposta de Jesus, seu coração descansou pacífica e seguramente em Deus.

Read the original on cafecomalecrim.substack.com

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