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Café com Alecrim · May 5, 2026

Os livros Proféticos

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Giovanni Alecrim · Café com Alecrim

Hoje entramos no bloco dos 16 livros chamados de proféticos. Embora possamos aqui questionar de Daniel é de fato do gênero profético, ou se deveríamos separá-lo como apocalíptico. Polêmicas literárias à parte, o bloco é composto pelos chamados profetas literários. Eles são assim designados para diferenciar dos profetas pré-literários Elias e Eliseu, que não nos deixaram escritos, mas têm suas histórias registras nos livros de Reis.

Embora se tenha este entendimento, advindo do senso comum, de que o livro leva o nome do seu autor, é consenso que a redação dos livros proféticos é de autoria dos discípulos deles. Isaías registra em 8.16: Preserve os ensinamentos de Deus; confie a lei àqueles que me seguem. Este grupo de discípulos, somados aos escribas posteriormente, é que vão dar forma aos livros que temos.

O termo “profeta” deriva do grego προφήτης que, literalmente, significa “prenunciador”. A literalidade do termo, no entanto, não revela toda a dimensão de suas profecias.

A fase da profecia clássica inicia com os profetas mais antigos — Amós, Oseias, Miqueias e Isaías — em torno de 750 a.C. e se estende até o século V a.C, época dos profetas Malaquias, Ageu e Zacarias.

O discurso profético não é uma adivinhação do futuro, mas sim, fruto da reflexão do próprio profeta, enquanto o anúncio surge como revelação de Deus. Os ditos proféticos recebem, frequentemente, uma moldura introdutória: “assim fala/falou Javé” e/ou uma moldura final: “dito/oráculo de Javé”.

Os textos proféticos são lidos fora de contexto por muitos ramos ultraconservadores do cristianismo. Ao desassociar a palavra profética do contexto a que se refere, corre-se o risco de deturpar a Palavra de Deus. Por isso, recomendo sempre cautela ao se ler os textos e interpretá-los literalmente como se escrito para os nossos dias. Nossa jornada pelos textos proféticos se inicia hoje e no próximo encontro falaremos sobre o livro do profeta Isaías.

Imagem gerada eletronicamente segundo comandos do autor utilizando o site Canva

O livro do profeta Isaías é uma grande colcha de retalhos de profecias escritas ao longo do tempo, entre 740a.C. e 530a.C. Durante anos, o estudo de Isaías se deparou com diferenças de linguagem, temáticas e contexto histórico. Como definir que o livro seja de autoria de um único profeta que tenha vivido mais de 200 anos? Só podemos compreender por meio de uma abordagem que divide o livro em três partes, conforme semelhança textual, e aceitarmos o fato de que Isaías tenha deixado como legado uma escola profética. Assim, temos três livros num só: Isaías (1–39), Dêutero-Isaías (40–55) e Trito-Isaías (56–66). Vamos compreender melhor cada parte do livro.

Isaías, o profeta filho de um desconhecido Amoz, é natural de Jerusalém e, como mostram alguns textos, tinha acesso à corte do rei. Isaías deve ser lido na perspectiva de um profeta ligado à classe alta da sociedade. A primeira parte do livro pode ser compreendida à partir das quatro fases de sua atuação profética:

  1. Crítica social, capítulos 2, 3 e 5 (antes de 734a.C.).

  2. Guerra siro-efraimita, capítulos 7 e 8 (734a.C.).

  3. Rebeliões antiassírias, capítulos 18 e 20 (721-711a.C.).

  4. Rebeliões sob Ezequias até o cerco de Jerusalém, capítulos 28–31 (705-701a.C.).

E os demais capítulos entre o 1º e o 39º? Conectam as fases históricas. O cerne da primeira parte do livro são os 11 primeiros capítulos. Três temas emergem da primeira parte do texto de Isaías.

  1. A noção do resto, ou seja, a ideia de que uma pequena parte do povo sobreviverá ao juízo e que Javé deixará sobrar. Não devemos tomar este texto numa perspectiva negativa, mas de compreensão de que, após grande tragédia, restará um grupo fiel.

  2. Teologia da presença. Sião é o lugar da presença de Deus, não de sua morada. Esta perspectiva muda a compreensão de que há a obrigatoriedade da presença de Javé, porém, havendo fidelidade, é ali que se manifesta sua presença.

  3. Creia! É a chave da relação do povo com Javé. Não estamos falando da relação de fé, que se desenvolve com Javé, mas sim de uma confiança incondicional no poder salvífico de Deus, sempre apontada em contraposição à atitude do Rei Acaz, que preferia confiar em alianças políticas.

Dêutero-Isaías. A segunda parte do livro está situada na expectativa do retorno dos exilados. A invasão e destruição já aconteceram, o povo está no exílio e aguarda o retorno da Babilônia. Diferente do primeiro Isaías, no Dêutero-Isaías é um pouco mais difícil fazer qualquer tipo de recorte temático. A polêmica contra ídolos e as menções a Ciro permeiam boa parte do bloco. Ciro é visto como um rei libertador e ungido por Javé para restaurar Israel. Merece destaque no Dêutero-Isaías os chamados “cantos do servo de Deus”, ou “cantos do servo sofredor” localizados nos capítulos 42, 49, 50 e 52. Eles podem ser destacados dos demais por conta de seu estilo e semelhança temática e redacional. Eles tratam de um servo de Javé que tem uma tarefa bem definida no plano salvífico de Javé. A pergunta que sempre ecoa, na leitura destes textos é: quem é este servo? Os cristãos leem como Jesus de Nazaré, o Cristo. Dentro do contexto do livro não temos como afirmar, é possível apontar o próprio profeta, a nação de Israel ou um grupo específico da nação.

Trito-Isaías. Assim como o Dêutero-Isaías, no Trito-Isaías é difícil estabelecer um recorte temático. O cerne do livro está nas promessas acerca de Jerusalém, no anúncio da salvação e restauração da glória de Jerusalém. No entorne destas promessas emergem temas como as profecias contra os que só pensam em si mesmos, sem o senso de comunidade. Outro tema que cerca o central é a tentativa de sempre inserir as nações da terra como participantes da restauração. Não à toa o templo é chamado de “casa de oração para todas as nações” em Isaías 56.7. No Trito-Isaías já encontramos os primeiros vestígios da universalização da mensagem. Se o templo é casa de oração para todas as nações, elas também estarão sujeitas ao juízo de Javé, que as pisará e esmagará, conforme Isaías 63.1-6. Por fim, Trito-Isaías parece ser mais progressista em relação a Ageu e Zacarias, ao defender a não reconstrução do templo e defender também o fim do culto sacrificial.

O profeta Jeremias provém de uma família de sacerdotes oriundos de Anatote, perto de Jerusalém, ao norte da cidade. Seu nome pode ser traduzido por “Javé estabelece”. Sua atuação durou cerca de 40 anos, indo de 627 a 587 a.C. e pode ser dividida em quatro fases

  • Proclamação inicial sob Josias, antes de 609 a.C.: capítulos 1—6

  • Durante o reinado de Joaquim, até 598 a.C.: capítulos 7—20

  • De 597 a.C. até a queda: 21—39

  • Após o início do exílio, 587 e 586 a.C.: 40—44

Se Isaías é um autor que se desdobra numa escola profética com autores de fases diferentes, Jeremias é de um autor único. Isso não isenta o livro de um processo complexo de desenvolvimento até o final.

É digno de nota a diferença entre a tradução grega, Septuaginta, e a versão hebraica, que possuí mais capítulos e uma ordem diferente dos capítulos. Ao que parece, a Septuaginta reordenou os capítulos para deixar o texto no estilo clássico dos livros proféticos: palavras contra Israel, palavras contra as nações estrangeiras e anúncios de salvação.

A composição do livro acontece em três estágios: os ditos de Jeremias, os relatos sobre o profeta e a redação posterior deuteronomista.

Dentro do contexto da parte final do livro, surge Lamentações. Segundo a Septuaginta, de autoria do profeta, não podemos firmar que sejam de fato dele. São datadas dos primeiros anos do exílio e são a junção de cinco lamentações sobre uma Jerusalém destroçada pela invasão babilônica. As lamentações 1, 2 e 4 começam com o “ai” típico das lamentações fúnebres. Como todo lamento, o objetivo não é exaltar a destruição, mas chamar Israel para o arrependimento e mostrar que Javé não está alheio ao sofrimento de seu povo. Destaca-se, em meio aos lamentos do povo, o capítulo 3, um lamento pessoal. Todos eles são acrósticos do alfabeto hebraico, sendo que o capítulo 3 o faz a cada três versos e, por essa razão, é o maior dos capítulos do livro. Uma pena que este recurso se perca nas traduções para outros idiomas, seria um trabalho gigante seguir tal padrão e talvez não fosse capaz de manter o sentido original do hebraico.

Em 597 a.C., no quando da primeira deportação para o exílio, dentre os membros da elite econômica, política e religiosa, estava o sacerdote Ezequiel. Sua atuação foi de 593 até aproximadamente 571 a.C. A linguagem utilizada pelo profeta se enquadra nos chamados textos de teologia da glória: o profeta escreve para proclamar a glória de Deus. Característica esta que marca a atuação de seus discípulos, que são responsáveis pela escrita e redação final de seu livro.

Há certa controvérsia no título profético do livro, que é escrito em estilo sacerdotal e tem profundas afinidades com o estilo sacerdotal do Pentateuco. Sua mensagem encontra consonância com a dos profetas Isaías e Jeremias, defendendo uma relação de não confrontação com os babilônios e/ou assírios, mas de acomodação pacífica à realidade. Á semelhança do que vimos no bloco da História Deuteronomista, Ezequiel entende o exílio como um castigo merecido pela renúncia de Israel a Javé e sua prostituição com deuses de outras nações.

A estrutura do livro é simples:

  • 1—24: palavras de desgraça contra Israel e Judá

  • 25—32: palavras de desgraça contra as nações estrangeiras

  • 33—39: palavras de salvação após a destruição de Jerusalém

  • 40—48: a nova Jerusalém

Dois aspectos chamam atenção no livro. O primeiro é o tratamento usado por Deus para designar o profeta: “filho do homem”. Não podemos confundir este uso em Ezequiel com o uso que o Novo Testamento faz do termo. O segundo é o frequente uso da chamada fórmula do reconhecimento: “Reconhecereis que sou Javé”. Usada mais de 80 vezes em todo o livro, a fórmula aponta para o reconhecimento de Deus através de acontecimentos históricos que acontecerão no futuro sobre Israel e as nações do mundo. Tudo para enfatizar que a história é efeito da ação de Javé — e somente de Javé! Ambos os aspectos mostram, à sua maneira, a tendência teocêntrica da profecia do sacerdote Ezequiel

Daniel foi deportado em 597 a.C. juntamente com três amigos pelas tropas de Nabucodonosor para a Babilônia. Ele é o personagem central do livro que leva seu nome. O livro do profeta Ezequiel parece ter um carinho por sua história. Ele é citado ao lado de Jó e Noé como uma pessoa justa da antiguidade em 14.14,20 e apontado como uma pessoa de sabedoria especial em 28.3. Esta última característica é enfatizada no livro de Daniel, principalmente por conta das revelações dos sonhos, o que, acontecendo em uma corte, torna inevitável não nos lembrarmos de José na corte egípcia do faraó.

Talvez você não saiba, mas Daniel é o livro mais recente do cânon hebraico. Sua inclusão aconteceu entre os livros chamados Escritos, e não entre os profetas. Mais tarde, a Septuaginta irá colocá-lo entre os chamados Profetas Maiores. Acredita-se que havia certa resistência rabínica quanto a inclusão do livro no cânon, principalmente por conta das rebeliões dos judeus contra os romanos, que eram articuladas a partir das visões apocalípticas de Daniel.

Seja o que for, o livro entrou no cânon e é reconhecido como profético pelos autores do Novo Testamento.

O livro pode claramente ser dividido para leitura em dois grandes eixos: histórias e visões. Na primeira parte, os relatos sobre Daniel e seus amigos, na segunda, as visões propriamente ditas. Além disso, o livro é bilíngue. Daniel 1.1—2.4a e 8—12 é escrito em hebraico, todo o restante é em aramaico. Há ainda questionamentos se o capítulo 1 não teria sido escrito em aramaico e traduzido posteriormente.

O gênero literário do livro é apocalipse. As tradições e gêneros menores são organizados na estrutura do livro com o fim de revelar conhecimento sobre o final do tempo. Não se trata, portanto, de um evento único no futuro, mas de uma visão global de todos os acontecimentos até o princípio do novo tempo. Essa visão tem como propósito mais compreender o tempo presente que revelar mistérios futuros.

Foi Agostinho de Hipona, pai da Igreja, que nominou em sua De civitate Dei os doze livros de Oseias a Malaquias como Profetas Menores devido ao tamanho dos livros. Há grande diferenças quanto a ordem em que são apresentados dentro do bloco, e em relação ao todo, entre a Bíblia Hebraica e a Septuaginta. Independente das diferenças, quero incentivar você a chamar este bloco de Os Livros dos Doze Profetas. Bonito assim, né? Parece nome de série. Pois bem, é menos pejorativo e mais gracioso com os autores. Vamos, então, ao primeiro livro dos Doze Profetas.

Oseias foi o único profeta literário do Reino do Norte. Sua atuação foi na época do Rei Jeroboão II até bem próximo da queda de Samaria (750-725a.C.). É difícil precisar se o que temos hoje é, de fato, tudo de autoria de Oseias ou é compilação posterior, quando o texto chegou a Judá e foi ordenado e ampliado. É por isso, inclusive, que apesar de ser um profeta do Reino do Norte, temos palavras sobre Israel e Judá. Por conta desta viagem do Norte ao Sul, e das ordenações e ampliações, fica difícil de criar um método de leitura de Oseias que fuja da ordem do próprio texto. A estrutura considerada originária do Norte é um aglomerado de ditos sem uma estruturação temática própria.

Dentro deste emaranhado de profecias e ditos proféticos, ganha importância a interpretação posterior o drama matrimonial do profeta. Tanto o matrimônio de Oseias como os nomes dos seus filhos pretendem ser sinais de um momento presente ao profeta. A prostituição de Gômer corresponde a apostasia de Israel. É em torno desta apostasia que o livro se forma. As condenações de Oseias fogem da esfera política e social e apontam para a adoração a Baal a origem dos males políticos e sociais que a Israel enfrenta. Ao lado das palavras de condenação, Oseias oferece nos ditos de Deus a possibilidade de conversão do povo. Para todo pecado, em Deus há salvação.

Pouco sabemos sobre Joel, profeta que dá seu nome ao segundo livro dos Doze Profetas e cujo nome significa Javé é Deus. É comum situar sua atuação antes do exílio, no templo, portanto, um profeta cultual. A linguagem de seu texto, no entanto, é do século IV a.C., o que pode nos fazer situar a conclusão, com revisões, do livro nesta data. Há quem sugira dois momentos de redação do livro, mas é apenas uma tese que não se sustenta principalmente por conta do aspecto linguístico.

Caso você se abra Bíblia Hebraica e compará-la com a sua Bíblia que tem em casa, vai notar que na Bíblia Hebraica Joel tem um capítulo a mais. Isso se deve à divisão diferente de capítulos entre a Septuaginta e o Texto Massorético.

O conteúdo do livro é fácil de estruturar. Por ocasião de uma estiagem e uma praga de gafanhotos, o povo é convocado a um lamento coletivo. A praga de gafanhoto é tomada como um sinal do futuro dia de Javé. Javé promete acabar com a aflição do povo, derramando seu Espírito sobre toda criação. O dia de Javé então virá e, com ele, o juízo do mundo. Este juízo significará salvação para os que se convertem e condenação para as nações. Os inimigos derrotados eternamente e Jerusalém a morada eterna das nações. A linguagem e contexto linguístico do livro se assemelham em muito com Isaías 25—27, sendo enquadrado como um texto apocalíptico.

Amós é o mais antigo dos profetas dos quais se tem preservado um livro. Atuou no Reino do Norte antes de Oseias, por volta de 750 a.C. Embora sua atuação seja no Norte, ele é natural de Tecoa, que fina no Reino do Sul, Judá. Amós não era profeta, mas sim pastor de ovelhas. Ele é vocacionado por Javé a sair do Sul e ir ao norte profetizar.

É no livro de Amós que temos um primeiro esboço do que viria a ser entendido como a eleição exclusiva de Israel, mas que, se lido atentamente, parece mais ser a responsabilização de Israel em face ao seu pecado. Diz Amós 3.2: “De todas as famílias da terra, só escolhi vocês. Por isso devo castigá-los por todos os seus pecados”. Este entendimento coloca em perspectiva o texto do pastor de ovelhas, que está preocupado em apontar a necessidade do arrependimento do povo.

Tal qual o livro do profeta Oseias, Amós também sofreu atualizações com o tempo e foi sendo ampliado e explicado até termos a redação final que chegou até nós. De maneira geral, o texto é estruturado da seguinte forma: nos dois primeiros capítulos temos os ditos contra as nações. Nos capítulos três a seis os ditos contra Israel. Nos capítulo sete até o verso seis do capítulo nove as cinco visões e do verso sete do nono capítulo até o final as perspectivas de salvação do povo.

Merece destaque as cinco visões de Amós, das quais quatro se iniciam com a sentença “Foi isto que o SENHOR Soberano me mostrou”. Em resumo, falam da ação de Javé para sacudir o seu povo e exercer seu juízo.

O menor dos livros proféticos, de capítulo único e 21 versículos, está situado entre os anos 597a.C. e 587a.C. Obadias, na tradição católica Abdias, descreve os fenômenos ocorridos neste período com pré-cisão quase que jornalística. O profeta presenciou a derrubada do Templo em Jerusalém, quando os babilônios entraram em Judá arrasando tudo o que havia pela frente. Não bastasse os babilônios terem devastado tudo, agora Edom, nação que antes havia participado com Judá de uma coalizão antibabilônica, se volta contra Judá. O país que vinha sendo pilhado pelos babilônios, agora era alvo de seus antigos aliados. Os edomitas aproveitaram a destruição de Jerusalém para perseguir, saquear e entregar os judeus que estavam escondidos pelos desertos.

Não sabemos nada sobre Obadias, apenas o significado do seu nome, a saber, “servo do Senhor”. Era um nome comum nos tempos do Antigo Testamento. 1Reis, 2 Crônicas, Esdras e Neemias citam pessoas com o nome de Obadias em diversas partes de seu texto.

O texto do profeta Obadias é um apanhado de pequenos oráculos do período, compilados pelos profetas ligados ao Templo, daí o nome escolhido e a simbologia. No entanto, é mais provável que se trate da mensagem de um profeta que, numa época difícil, anunciava como revelação divina o juízo sobre Edom e os povos. O texto é composto no estilo do arrazoado de uma ação jurídica, recurso literário bastante comum entre os profetas do período do exílio.

Falando da estrutura do livro, o eixo central do livro encontra-se no versículo 15: “Está próximo o dia em que eu, o SENHOR, julgarei todas as nações! Como você fez a Israel, assim lhe será feito. Toda a sua maldade cairá sobre sua cabeça.”. O verso faz a transposição das condenações para a redenção, é o cerne para entendermos as sentenças de julgamento e as promessas de restauração. Tudo gira em torno do Dia do Senhor, onde o profeta localiza a redenção de Judá e a consumação da justiça sobre Edom.

Se você tem acompanhado atentamente as aulas do bloco profético, já me ouviu dizer inúmeras vezes que o livro do profeto tal é “um apanhado de ditos proféticos”. Isto não cabe aqui, no livro de Jonas. Por que? Porque Jonas foi escrito no mesmo gênero literário de Rute e José: novela. O enredo todo se desenvolve em torno de uma só profecia: “Daqui a quarenta dias Nínive será destruída!”. Jonas 3.4b

O livro é de redação tardia, com claras influências do aramaico na escrita hebraica, podendo ser datada entre o IV e III séculos a.C. Jonas é lido na sinagoga, como leitura profética, por ocasião do dia do perdão.

A narrativa nos oferece marcos estruturadores que permitem dividir o livro em duas partes principais. Em ambas, a confissão de um não judeu ao Deus de Jonas ocupa o lugar central. Na primeira parte é o capitão do navio, em 1.6. na segunda parte, o rei de Nínive em 3.7-9. Em ambos os casos eles esperam a salvação do Deus de Jonas.

No caso do Rei de Nínive, ele espera que “quem sabe Deus voltará atrás, conterá sua ira ardente e não nos destruirá”.

O livro quer, portanto, mostrar que o juízo incondicional anunciado ainda pode ser evitado. Deus é soberano em seu agir, maior do que Jonas possa imaginar. A atitude do profeta é tema de debate entre os judeus, por conta da presunção de alguns profetas e a relação com as falsas e verdadeiras profecias. Muito se fala da desobediência de Jonas, do chamado irrevogável de Javé, mas, dentre as conclusões que o texto nos apresenta, a de que há fé autêntica fora de Israel é a que deve sobressaltar aos nossos olhos. Acima de tudo está a afirmação da imensa misericórdia divina para com todos, sem ninguém ficar de fora, nem mesmo os ninivitas: Sabia que és Deus misericordioso e compassivo, lento para se irar e cheio de amor. Jonas 4.2

Quem é como Deus? Este é o significado do nome Miqueias, profeta oriundo de Moresete-Gate e contemporâneo de Isaías em Jerusalém. Fora isto, o que se sabe do profeta é que ele é citado em Jeremias 26.18 numa alusão à sua profecia.

Em sua estrutura o livro alterna por três vezes palavras de juízo e salvação, estilo comum nos ditos proféticos. Miqueias é marcado por uma intensa denúncia contra as injustiças sociais, com ênfase na questão ao direito do cultivo da terra.

Em linhas gerais, Miqueias denúncia os recursos jurídicos com os quais a classe alta desapropria os pequenos agricultores, tomando-lhes a herança que lhes cabe da parte de Deus. Miqueias anuncia juízo para Samaria, Judá e Jerusalém.

De forma particular, Miqueias responsabiliza os chefes, líderes e profetas pela situação existente. Diz Miqueias em 3.1-2: “Ouçam, líderes de Israel! Vocês deveriam saber o que é certo, mas odeiam o bem e amam o mal. Esfolam meu povo e arrancam a carne de seus ossos”.

Para Miqueias é importante o significado especial das concepções acerca de Sião. Os adversários do profeta são os que se apoiam na concepção de que Sião é morada de Javé e, portanto, mal algum aconteceria a eles. Miqueias, assim como Isaías, compreende que Sião não é a morada de Javé, mas ele está lá e pode se ausentar de lá, conforme a fidelidade de seu povo.

É neste panorama de luta pela terra e compreensão da ação divina que Miqueias encerra seu livro com uma fórmula litúrgica no capítulo 7, possivelmente um indício de que o livro era utilizado em celebrações no exílio.

O tema central do livro de Naum é a queda de Nínive em 612 a.C. Não temos como afirmar se ele a pressupõe ou se ela já aconteceu, e por isso nasce o texto. Também não temos como precisar a época de composição do livro, se durante ou após o exílio. O que temos são elementos textuais claramente utilizados em ambiente de culto.

Ao anunciar a queda da capital da Assíria, indiretamente, Naum quer levantar uma promessa de salvação para Judá. O livro inicia com um salmo em forma de acróstico, seguindo o alfabeto hebraico, que descreve o poder de Javé e, após, apresenta uma palavra de salvação para Israel. Os capítulos 2 e 3 apresentam o fim de Nínive, que terá a mesma sorte de Tebas, capital do Egito. Curiosamente Naum não apresenta nenhuma palavra de juízo contra Israel.

Nos três capítulos do livro encontramos de forma fragmentada diversos gêneros e motivos, como o acróstico já mencionado e uma teofania – manifestação de Deus – em 1.2-6. Temos ainda um lamento fúnebre no capítulo 3. O livro de Naum é pouco observado pelos cristãos e judeus de forma geral, parece não ter um papel especial em nosso meio. Já para a comunidade de Qumrã ele era importantíssimo, dado o número de comentários encontrados em um rolo dos pergaminhos do Mar Morto.

O livro do profeta Habacuque pode ser dividido em três partes, cada capítulo uma parte. A primeira registra uma queixa do profeta referente a situação interna de Judá e a resposta de Javé a essa queixa. A segunda registra a violência e a falta de fidelidade do povo, que o levou a sofrer nas mãos dos Caldeus. Estas duas primeiras partes podemos datá-las em torno de 600-597 a.C. A terceira parte é tardia e a autoria de Habacuque é posta e cheque por conta disso.

A data provável de compilação do texto, preferimos acreditar, seja a primeira metade do século VI a.C. Para tal, tomamos como base o próprio texto, que a princípio exulta pela libertação proveniente dos Caldeus (1.6ss) e em seguida questiona a Javé a sua libertação por um povo mais violento (1.12ss) sinalizando já a força do domínio Caldeu sobre Judá. Não poderíamos transpassar a metade do século VI a.C. visto que a queda do templo ocorreu por volta de 570d.C. e assim não se encaixaria a questão cultual presente no texto.

Quanto a Habacuque quase nada se sabe. Os principiais autores o colocam como um profeta que fala de acontecimentos muito concretos. Alguns comentaristas sugerem que o vocábulo Habacuque tem origem mesopotâmica e o situa como já no exílio na Babilônia, localização da qual discordamos visto o que se segue. A principal questão para a definição da autoria é onde está localizado Habacuque. Embora comentaristas afirmem que Habacuque era profeta profissional, portanto, do Templo, e por mais que os aspectos litúrgicos do capítulo três e as evidências do 2.20 apontem para tal, há que se colocar uma interrogação e questionar que ter familiaridade com os elementos do templo e ser funcionário do Templo são coisas distintas. Talvez com um pouco de precipitação, porém, não deixando de lado a datação da profecia, posso propor aqui que o texto é de um único autor, porém escrito em épocas diferentes e finalizado antes da queda do templo.

Javé abrigou, ou Javé acolheu. Este é o significado do nome do profeta Sofonias, que atuou por volta de 630 a.C. em Judá e Jerusalém. Podemos datar mais exatamente a atuação do profeta visto que o texto não faz menção acerca das reformas de Josias e indica a queda do Império Assírio.

Sofonias expressa claramente sua crítica quanto a influência estrangeira no culto a Javé: Diz Sofonias 1.4 “Esmagarei Judá e Jerusalém com meu punho e eliminarei até o último vestígio de seu culto a Baal. Acabarei com os sacerdotes idólatras, de modo que todos se esquecerão deles”. E critica a apatia do povo em relação a Javé. Diz Sofonias 1.12: “Vasculharei com lamparinas os cantos mais escuros de Jerusalém, para castigar os que vivem acomodados em seus pecados. Pensam que o SENHOR não lhes fará coisa alguma, nem boa nem má”. Toda a arrogância e presunção, oriundas da apatia em relação a Javé é contraposta à uma exigência constante por humildade por parte do profeta.

Sofonias é um livro composto ao longo do tempo e seu capítulo final está claramente sob a direção dos judeus que, estando na diáspora, se veem diante de uma perspectiva escatológica um pouco diferente com a que os demais profetas contemporâneos de Sofonias estavam habituados. A promessa de salvação, em Sofonias, é claramente uma redação posterior às palavras iniciais do profeta.

O profeta Ageu, cujo nome significa “nascido em dia de festa”, pertence ao grupo de profetas pós-exílio da Babilônias formado por Zacarias, Malaquias, Joel e o Trito-Isaías. Dentre eles, Ageu é provavelmente o mais antigo. As datas que temos no livro nos remetem a 520 a.C. Esdras nomeia Ageu e Zacarias como “profetas em nome do Deus de Israel”, já reconhecendo suas atividades.

O livro foi escrito posteriormente à época do profeta, em estilo historiográfico, intercalando o relato em terceira pessoa com trechos do próprio profeta em primeira pessoa. A técnica possivelmente visava conferir certa autoridade ao texto.

O tema condutor do livro é a reconstrução do templo. A reconstrução, para o profeta, é necessária para que aconteça a mudança que trará a salvação. A argumentação é de que os israelitas não se reestabeleceram com prosperidade pois ainda não tinha reconstruído a morada de Javé. Uma vez o templo reconstruído, as nações peregrinariam até Sião para adorar a Javé.

Apenas para pontuar, o Trito-Isaías vai na direção contrária. Para ele, a reconstrução do Templo tiraria o foco do povo na verdadeira humildade, estimulando uma piedade meramente exterior.

Em torno da reconstrução do templo aparece uma questão que é fruto do tempo do profeta: pessoas não judias, e/ou impuras poderiam participar da reconstrução do templo? A questão reflete o conflito com os samaritanos e o emprego de mão de obra estrangeira na reconstrução do templo.

Por fim, a menção a Zorobabel é importante, pois é a recondução de um descendente da casa de Davi ao Governo, ainda que feito sob mãos babilônicas.

O livro de Zacarias possuí uma semelhança estrutural com Isaías: ele foi composto em duas partes, sendo a segunda parte com duas seções, totalizando três blocos. Assim como em Isaías, convencionou-se chamar os blocos de Zacarias, Dêutero-Zacarias e Trito-Zacarias. O profeta Zacarias, mencionado nos textos bíblicos, atuou em torno de 518 a.C, um pouco depois de Ageu.

Zacarias aguarda para muito breve a realização da salvação, a ponto de entender não ser mais necessário o jejum e o luto: Diz Zacarias 8.19 “Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Os jejuns habituais que vocês têm observado no quarto mês, bem como no quinto, no sétimo e no décimo mês, chegaram ao fim. Eles se tornarão festas de alegria e celebração para o povo de Judá. Portanto, amem a verdade e a paz”. Chama atenção na leitura do livro a necessidade de um anjo intérprete para que a visão seja compreendida. O profeta vê, mas não consegue codificar o que vê, por isso o anjo explica.

Os textos do Dêutero-Zacarias e Trito-Zacarias são do século IV e III a.C., sendo uma coletânea de vários trechos isolados. Conectam-se à primeira parte do livro pela temática da salvação para Sião e retomam os ditos de juízo contra as nações. Destaque aqui para menção a desgraça de Jerusalém, possivelmente uma alusão à conquista por Alexandre, o Grande, uma vez que os gregos são citados em 9.13. É interessante que é justamente dos textos mais recentes que os cristãos do século I se apropriaram para relacionar a profecia de Zacarias com Cristo. A entrada de Jesus em Jerusalém foi ligada a Zacarias 9.9, a purificação do templo a Zacarias 14.21 e ainda podemos citar Zacarias 11.13 que dá o pano de fundo para as trinta moedas pagas a Judas Iscariotes. Por fim, a afirmativa de Zacarias 13 sobre o fim do espírito profético em Israel levou o judaísmo a acreditar que Malaquias teria sido o último profeta.

O livro do profeta Malaquias é uma incógnita no que diz respeito à sua autoria. O termo hebraico מַלְאָכִי – mal’aky significa “meu mensageiro”. O Targum – comentários, traduções e paráfrases da Bíblia Hebraica em Aramaico – aponta para Esdras co-mo autor. Mais tarde, São Jeronimo também vai repetir tal apontamento. Séculos mais tarde, o teólogo russo Alexander von Bulmerincq vai apontar que o mensageiro é Esdras, mas a redação foi de um de seus ajudantes. Podemos, então, propor que a autoria seja mesmo de Esdras? Não dá, pois temos alguns conflitos no estilo redacional e em questões como na atitude diante dos levitas.

O estilo redacional e a forma que a profecia é apresentada colocam dúvidas quanto a um livro de fato de Malaquias, isto porque ele foi considerado como parte integrante do livro de Zacarias, como um terceiro escrito profético acrescentado e que, posteriormente, por conta da redação final dos livros proféticos, foi separado novamente como unidade à parte.

Esta separação se deu por identificar na leitura um único estilo autoral, diferentemente de Zacarias, que apresenta estilos variados de escrita.

Se pouco sabemos do autor, podemos dizer que sabemos o suficiente do tempo em que foi escrito o texto. Malaquias se encontra no século V a.C., portanto, pós-exílio. O cenário que envolve o texto é desolador. A indiferença do povo chegou ao extremo. As antigas profecias não se cumpriam, a apatia religiosa era grande e a confiança em Deus cada vez menor, a ponto de duvidarem do amor, justiça e até mesmo de seu interesse por Judá. Tal situação leva o culto a Javé e a ética do povo para níveis baixíssimos. A datação em V a.C. nos ajuda a compreender também a influência de Deuteronômio na profecia de Malaquias. Outro aspecto importante é a menção ao “governador” em 1.8, fazendo referência aos persas, mostrando já a diminuição do assédio de Edom a Judá, o que leva à necessidade de se regulamentar questões de casamento e a oferta do dízimo.

No próximo e último texto estudaremos os livros Apócrifos. Seguimos juntos, aprendendo com Jesus a leveza de viver.

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