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Café com Alecrim · May 12, 2026

Apócrifos

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Giovanni Alecrim · Café com Alecrim

Desde a época da Reforma, no século XVI, se convencionou chamar de apócrifos os livros que constam na Bíblia grega e latina, mas não possuem um original hebraico. Há muita desinformação sobre eles no meio evangélico. Quem melhor definiu suas funções para nós, que não os temos em nosso cânon é o reformador Martinho Lutero, que sobre os livros apócrifos afirmou que eles “não são equiparáveis à Escritura Sagrada, mas úteis e bom de ler”

No Concílio de Trento, ocorrido entre 1546 e 1563, a maioria dos escritos que a Septuaginta tinha a mais que a Bíblia Hebraica foi oficialmente declarada pertencente ao cânon católico-romano, recebendo o nome de deuterocanônicos. Esses livros são: Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque e os acréscimos em Ester e Daniel. Ainda na Septuaginta temos outros livros que não foram considerados canônicos pelos cristãos, a saber 3 Edras, 3 e 4 Macabeus, Odes e Salmos de Salomão.

Imagem gerada eletronicamente segundo comandos do autor utilizando o site Canva

É importante pontuarmos que os autores do novo testamento desconheciam os limites do cânon, e por isso, encontramos citações a 2 Macabeus 7.19 em Atos 5.39. Isso nos mostra que o fato de um livro não ser canônico para nós, no século XXI, não signifique que ele não tenha sua importância histórica. A discussão sobre ser ou não canônico já está superada na academia bíblica e, para nós, Cristãos Reformados, saber o conteúdo destes livros é importante para não nos deixarmos levar por preconceitos que só dividem e não acrescentam nada ao diálogo em prol do Reino de Deus. Assim, vamos apresentar uma breve introdução destes livros ao longo dos próximos encontros. Começando por Tobias, seguindo para Judite, os acréscimos em Ester, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, O livro de Baruque, A carta de Jeremias e encerrando com os acréscimos em Daniel. Espero que você se interesse em ter uma bíblia católica-romana e em ler estes textos, que, nas palavras de Lutero, são úteis e bons de ler.

Uma narrativa que visa edificar o povo no exílio e alimentar a esperança de Israel. Talvez seja esta uma das possíveis sínteses para o livro de Tobias, que narra, no estilo da história dos patriarcas em Gênesis, a história de Tobit, cuja existência estava ameaçada, mas fora preservada. Tobit, cujo nome significa JAVÉ é bondoso, tem sua história contada a partir dos arredores da cidade de Nínive, para onde ele fora deportado em 722 a.C.

Pertencente à tribo de Naftali, Tobit, segundo o texto, teria presenciado a divisão dos reinos do Norte e do Sul em sua juventude. No entanto, se nos detivermos nas datações do livro em contraste às datações históricas, ele teria vivido mais de 200 anos, contradizendo o próprio livro, que afirma que ele viveu 112 anos. Como se vê, não é buscando uma precisão histórica, mas sim com intuito de alimentar a esperança do povo de Israel é que o livro foi escrito.

Esta narrativa sapiencial de cunho didático deve ter surgido na diáspora judaica da Mesopotâmia. À semelhança do livro de Daniel, Tobias quer mostrar como o judeu deve viver em um mundo estranho ao seu, na Judeia. Para atingir este objetivo, ele procura, de um lado, ensinar o povo com provérbios e palavras de sabedoria, e do outro, estimular o culto e louvor a Deus, que não abandona jamais seu povo. A data de sua composição é de 200a.C., antes dos distúrbios promovidos pelos Macabeus. É digno de nota um desenvolvimento acerca dos anjos em Tobias, embora apenas brevemente citado.

Durante a ocupação grega na Judeia circulavam romances históricos entre as comunidades com intuito de fortalecer a fé e manter viva a chama da esperança em Javé. Judite é um desses romances históricos que apresentam respostas a problemas urgentes daquele período. Menos preocupado com detalhes históricos e geográficos, mais preocupado com o conflito entre um império e o povo de Israel.

A narrativa do livro resgata arquétipos conhecidos do povo de Israel. Judite, a personagem central do livro, tem traços de Miriã, irmã de Moisés, Débora, juíza em Israel, e da mulher de Abel-Bete-Maacá, história registrada em 2 Samuel 20.14ss. Além disso, tal qual Davi decepou a cabeça de Golias com a arma do gigante, Judite também decepa a cabeça de um inimigo usando a arma dele.

A história gira em torno do cerco à cidade fictícia de Betúlia e como, liderados por Judite, eles resistiram ao exército do general de Nabucodonosor, Holofernes. Diversos temas da história se aproximam de temas do livro de Daniel, como a personagem Aquior, estrangeiro, que confessa Javé como Deus, assim como Dario o fez em Daniel. O tema central de Judite é muito próximo do de Daniel, ao discutir quem é que tem poder: Javé ou os reis estrangeiros?

O livro de Judite é de datação incerta, alguns biblistas o situam em 150 a.C., logo após a conclusão do livro de Daniel. Porém, não é possível determinar tal datação. Outra dúvida é se ele foi composto na Palestina ou no Egito. Seja onde for, não há manuscritos em hebraico ou aramaico, tendo sido preservado apenas textos em grego.

O livro de Ester existe em duas versões distintas: uma hebraica, mais breve, e outra grega, mais ampla. O texto grego contém mais de 100 versículos espalhados por todo o livro. Quando São Jerônimo, no fim do século IV e início do século V, a pedido do Papa Dâmaso I traduz a Bíblia para o Latim, ele se baseia predominantemente na versão hebraica e desloca os versos da versão grega para o fim do livro, criando capítulos a mais. Na Septuaginta e na maioria das versões católicas em língua portuguesa, os acréscimos são inseridos no meio do texto, conforme o sentido. Nestes casos, o texto recebe uma letra do alfabeto ao lado do número para identificar como acréscimo.

Mas o que dizem estes acréscimos? Quando estudamos o livro de Ester, vimos que durante séculos se debateu a presença ou não de Ester na Bíblia. O principal argumento contrário diz que ele não cita o nome de Javé nem de El. O que estes acréscimos fazem é tentar suprir essa ausência, acrescentando referências a Deus se poder em orações e sonhos.

Os acréscimos a Ester surgiram, certamente, das mãos dos escribas em um período em que o livro já gozava de certo prestígio na comunidade judaica. Tentando adequar o livro a certos padrões de seu tempo, estes escribas, ao promover acréscimos à história, tentavam encaixá-la no mesmo patamar de outros relatos explícitos de temor e fidelidade à lei de Deus, ressaltando o poder de Javé na história.

Os vários acréscimos não possuem uma linguagem uniforme, o que indica que foram feitos ao longo do tempo, em vários estágios de crescimento do texto. Com este crescente de acréscimos, fica difícil definir uma data de escrita deles. Parte deles conseguimos datar no século II a.C. Uma informação que temos é que Flávio Josefo, historiador romano, tinha conhecimento deles no século I d.C.

Dos quatro livros dos Macabeus transmitidos pela Septuaginta a Igreja Católica Romana considerou apenas dois como canônicos. O nome dos livros é uma designação posterior advinda do apelido Macabeu dado a Judas. Alguns tradutores indicam que Macabeu signifique “cara de marreta”. Esse é o nome indicado para designar toda a revolta deste período. Segundo Orígenes, pai da Igreja entre os séculos II e III d.C., o livro provavelmente se chamava “O livro do príncipe dos filhos dos corajosos”.

O tema dos livros é os acontecimentos da época dos Macabeus e do início da dinastia hasmoneia. O desencadeamento da revolta foi a profanação do Templo de Jerusalém em 167 d.C por Antíoco IV Epífanes. O êxito da revolta levou à reconsagração do Templo e a independência da Judeia sob o reinado dos hasmoneus.

O primeiro livro dos Macabeus descreve em estilo historiográfico os acontecimentos desde o início do reinado de Antíoco IV até a morte do sumo sacerdote Simão, entre 175 a.C. e 134 a.C. O livro apresenta os três líderes do movimento como salvadores e governantes. Judas, Jônatas e Simão são apresentados em relatos que os colocam no mesmo patamar dos antigos e grandes heróis de Israel. O objetivo claro do livro é legitimar toda a dinastia hasmoneia como uma dinastia com mandato divino.

O segundo livro dos Macabeus trata dos acontecimentos desde o reinado de Seleuco IV em 187 a.C. até a vitória dos judeus sobre o selêucida Nicanor em 161 a.C, um pouco antes da morte de Judas Macabeu. Diferentemente do primeiro livro, o segundo é menos preocupado em exaltar a dinastia hasmoneia e mais em mostrar como os conflitos em torno da helenização do culto judaico era algo também interno no judaísmo e não apenas uma consequência de influências exteriores. O tema da misericórdia de Deus e o martírio em nome da fé, presentes no livro, influenciaram claramente os autores do Novo Testamento e as primeiras comunidades cristãs.

Embora o próprio não mencione, a autoria do Livro da Sabedoria é atribuída a Salomão. Há apenas duas alusões sobre o rei em Sabedoria 7.7 e 9.8 que nos permitem inferir de que é dele a autoria. Inferência nem sempre é conclusão. Na Septuaginta ele recebe o título de Sabedoria de Salomão e na Vulgata de Livro da Sabedoria.

O livro se encaixa na tradição de literatura sapiencial israelita ao lado de Provérbios, Jó, Eclesiastes e o Eclesiástico, este último também apócrifo. O livro apresenta orientação para viver uma vida de sabedoria e temor a Deus, único caminho contemplado pelo autor para uma vida satisfeita e realizada. Em sua jornada, o autor procura apresentar respostas ao sofrimento injusto.

O livro possuí claras evidências da influência helenística em alguns trechos. Os capítulos seis a nove possuem estrutura e linguagem similares aos tratados gregos sobre as tarefas de um rei. Claramente percebe-se a influência do estoicismo e do platonismo em muitas das sentenças do livro. Isto não quer dizer que a sabedoria hebraica é deixada de lado, pelo contrário, o autor desenvolve conceitos como a sabedoria personificada como pessoa em Provérbios 8, por exemplo.

A obra é datada em I a.C., escrita em Alexandria, no Egito, em grego. O livro influenciou Filo de Alexandria e o evangelista João no desenvolvimento da Teologia do Logos, lançando bases para o entendimento do verbo encarnado como a sabedoria de Deus personificada e visível diante de todos. Fica o convite para você ler Sabedoria 7.22—8.1 em paralelo com João 1 para perceber como o evangelista evolui um conceito já existente no meio judeu da época, aplicando-o a Jesus.

O livro do Eclesiástico é uma tentativa de estimular um judaísmo moderno que respeita a tradição dos antepassados, visto que somente as tradições conseguem esclarecer o cosmo e sua ordem. Uma tarefa complexa no século II a.C., com a influência helênica na Judeia, e não apenas influência, mas imposição do estilo grego de sociedade.

A autoria do livro é controversa. É atribuída a Jesus, filho de Siraque. Segundo a tradição, coube a seu neto a tradução para o grego, preservada ao longo dos séculos. Até a Idade Média ainda se tinha alguns fragmentos em hebraico. No Século XX foram encontrados cerca de 60% do livro em hebraico no Cairo, Qumran e Massada. No texto hebraico a autoria é dada a Simão, filho de Jesus, Filho de Eleasar, Filho de Siraque. Uma curiosidade é que ele é o único a possuir um prólogo antes da contagem dos capítulos, escrito pelo tradutor para o grego.

O texto é literatura sapiencial, com provérbios e pensamentos sobre os mais variados temas. Merece destaque o verso 23 do capítulo 24 que afirma que “Tudo isso é válido para o livro da aliança de Deus, a Lei que Moisés nos ordenou”.

Até o capítulo 24 o elogio à sabedoria é muito semelhante aos hinos egípcios de honra a deusa Ísis, aqui, no entanto, há uma alteração de estilo e tom. A sabedoria é identificada com a Torá, pela primeira vez no judaísmo. Ao estabelecer tal relação, o Eclesiástico afirma que a Lei recebida no Sinai é considerada ordem criacional para todo mundo.

Se de um lado o Eclesiástico está profundamente arraigado à tradição judaica, com ênfase sacerdotal, por outro ele reflete muito do pensamento helenístico ao abordar temas como vergonha, médicos e doenças. É possível que o autor tenha sido um escriba erudito, em Jerusalém, no início do Século II a.C, antes da revolta dos Macabeus.

Lido e difundido, é de se estranhar que Eclesiástico não tenha entrado no cânon judaico. Talvez tenha pesado o fato de Eclesiastes ser um livro sapiencial atribuído a Salomão, e por isso, ganhado força no quando do fechamento do cânon. Deve ter pesado, também, o fato de ser um livro profundamente sacerdotal e, no fechamento do cânon, já não havia o Templo.

Segundo Baruque 1.e, o livro foi escrito em 582 a.C., na queda do Templo de Jerusalém, o livro tem como destinatário os deportados para a Babilônia, que também é seu local de escrita. Jeremias 36.32 nos revela que “Então Jeremias pegou outro rolo e ditou novamente a seu secretário, Baruque, filho de Nerias. Escreveu tudo que estava no rolo que o rei Jeoaquim havia queimado. Dessa vez, porém, acrescentou muitas outras coisas”. Dentre estas muitas outras coisas acrescentadas, se atribui o livro de Baruque, que parece ser um compilado de escritos.

Podemos claramente dividir o livro em três partes: 1. Confissão de pecados dos deportados; 2. Elogio da sabedoria e 3. Lamentos. Pelo estilo redacional, vocabulário e tema podemos perceber que foram três textos juntados posteriormente em uma obra única. Por conta do contexto histórico, temos semelhança da Confissão de pecados dos deportados com Daniel 14. Semelhança que se percebe na formulação das súplicas e nos temas delas.

Já os elogios da sabedoria lembram o Eclesiástico e Jó 28. Os lamentos se aproximam muito dos textos do segundo Isaías.

Não se tem uma clareza da origem os textos. Definitivamente não foram escritos na Palestina, mas também não se pode afirmar que todos foram escritos na Babilônia. O que se pode afirmar é que são textos da diáspora e carregam consigo a expectativa de um messias enviado por Deus. Com tantas incertezas, também não se sabe a data de escrita, mas a dependência de outros textos para interpretar o livro, indicam ser posterior a 100 a.C.

Dependendo da tradução que você tiver em mãos, não encontrará a Carta de Jeremias nela. Isto acontece, pois, as traduções que se baseiam na Vulgata - Bíblia em Latim - inserem este escrito como o sexto capítulo do Livro de Baruque. A carta tem o estilo redacional que Jeremias escreveu em seu livro no capítulo 29, mas o conteúdo é o mesmo de Jeremias 10 e 44.

Essencialmente, você encontra na Carta de Jeremias uma das mais contundentes críticas à idolatria, muito semelhante à crítica encontrada em Daniel 14. De maneira direta, a carta é um alerta aos exilados para não adotarem os deuses babilônios. Em dez passos, Jeremias mostra como essas divindades são obra humana é inútil. São comparados a espantalhos num campo de pepino, espinheiros num jardim e cadáver em lugar tenebroso. De nada valem e só atraem coisas ruins. Cada um dos argumentos é encerrado com a ênfase: nisso reconheceis que não são deuses, portanto, não os temais!

O texto é grego, mas escrito originalmente em hebraico. O autor está na diáspora e conhece bem a cultura da Babilônia. Foi mesmo Jeremias? Não temos como saber. A data de composição é incerta. Se aceitarmos a tese de que 2 Macabeus já tem conhecimento da carta e que em Qumrã foi encontrado um fragmento grego datado do Século I a.C., podemos propor que a carta foi escrita no início do século III a.C.

A tradução grega da Bíblia, a Septuaginta, transmitem um texto maior do livro de Daniel, assim como o de Ester, que já vimos anteriormente. No caso do profeta Daniel, este acréscimo aumenta em 50% o tamanho da obra. Os dois cânticos dos jovens na fornalha, capítulo 3, e os textos que compões os capítulos 13 e 14 são estes acréscimos.

Daniel 3 relata como Sadraque, Mesaque e Abede-Nego são lançados na fornalha por se recusarem a adorar a imagem de Nabucodonosor. Antes de Nabucodonosor constatar a presença de um quarto homem, a Septuaginta insere o cântico dos amigos de Daniel. O primeiro cântico de Abede-Nego é uma confissão de pecados antes da morte e expressa a esperança de que o martírio dos três apague os pecados de Israel. O segundo cântico, chamado de hino dos três jovens, expressa o poder criador de Deus e sua justiça se manifestando, enfatizando o poder de Deus em tudo.

O capítulo 13 apresenta a narrativa de Daniel e a bela Suzana. A história narra como Daniel salva Suzana, bela e casta, das mãos de dois anciãos que tentam reverter o ataque sofrido acusando Suzana de seduzir um jovem. Daniel vai em defesa de Susana no julgamento como uma testemunha dos fatos. O objetivo do texto é validar a Torá no exílio. Não é porque se está fora da Judeia que não se observará as leis de Deus.

O capítulo 14 apresenta narrativa de Bel e o dragão. Na primeira parte, Daniel desmascara o culto à divindade Bel da Babilônia. Na segunda parte, Daniel mata um dragão em forma de serpente adorado como divindade. Este episódio é apontado como a causa de Daniel ter ido para a cova dos leões.

Encerramos aqui nosso Panorama do Antigo Testamento. Espero que tenha sido proveitosa leitura e tenha acrescentado à sua vida com Cristo. Seguimos juntos, aprendendo com Jesus a leveza de viver.

Read the original on cafecomalecrim.substack.com

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