Eu anteciparia a volta ao Brasil (voando na primeira classe, claro) mas a mega sena da virada não veio e to aqui escrevendo essa carta para você.
A verdade é que, se eu tivesse ganho, a newsletter chegaria no teu email do mesmo jeito. Talvez com um atraso provocado por motivos etílicos, mas você receberia, pois isso é o que mais curto fazer nos meus dias.
Um dos meus objetivos para 2024 é de ganhar dinheiro fazendo o que eu amo, escrevendo. Mas isso é assunto para outro dia.
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No geral, meus dias têm sido lindos, nos lugares, na comida, no amor e no privilégio de viver o Sudeste Asiático. Mas, como já falei aqui, também tem os dias ruins. Tem a dificuldade de adaptação, principalmente com tantas mudanças.
Para hoje te deixo com uma crônica com cara de conto em primeira pessoa, escrita na época em que estava no processo de investigação para o diagnóstico do TDAH. Fui diagnosticado tardiamente em 2022, aos 39 anos.
Eu vejo muita beleza nele, por ser muito visceral. Saiu de uma só vez. Saiu de dentro da minha alma, e carrega a complexidade daquele momento.
Muito do que vivi nas últimas semanas me fez revisitá-lo. E, agora, entrego aqui para você.
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“Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Vou lhes fazer um pedido: Vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas ajuizadas.” NISE DA SILVEIRA
Recife, 25 de maio de 2022
Um questionário de 20 páginas pra saber se o problema é dopamina.
Já passa da meia noite e eu balanço as pernas enquanto olho a chuva cair, na certeza de que as ruas estarão alagadas na manhã desta quarta.
Deveria estar dormindo.
Pessoas como eu, quando não dormem, se equivalem ao trânsito de Recife numa manhã de alagamentos.
Certamente amanhã estaremos iguais, eu e a cidade.
Não me adaptar a esse mundo, principalmente no que diz respeito a trabalho, pode parecer sorte.
Por exemplo, amanhã não vou precisar me molhar logo cedo para ir até uma empresa, trabalhar.
É a liberdade e a autonomia descansando na mesma caixa.
Mas por outro lado, carrego a dor de não caber. Sou fruto das muitas entrevistas de estágio onde a resposta era para esperar ligações que nunca chegaram.
Que sorte.
Que dor.
Eu demiti o meu patrão depois do meu primeiro e único emprego num call center da Telemar.
Eu me adapto, sobrevivo, monto negócios e crio coisas para aliviar dores.
E dessas coisas nascem flores.
É tudo tão bonito.
Eu tenho orgulho.
Mas no fundo, o mundo tem orgulho mesmo, é da repetição, e eu sou uma quebra nessa esteira.
E esse “não caber” está aqui, de terno e gravata, com o microfone na mão, apresentando o primeiro evento dessa madrugada.
De um lado, a minha alma absurdamente livre fala que é sorte.
Do outro, a minha vaidade absurdamente vaidosa joga luz sobre a dor.
As duas estão disputando espaço nessa cabeça que não para, está a mil por hora e não tem previsão de dormir.
Quando eu durmo bem, a mente vira parque de diversões.
Mas hoje temos um ringue.
Cada vez que isso acontece, aparecem atores diferentes.
Hoje, por exemplo, se preparando para a segunda da noite, estão:
A sorte
A dor
A dopamina
E certamente a falta dela.
Se não estivesse chovendo, eu ia pedalar para transformar o ringue numa sala de teatro, ou numa cachoeira sem turistas.
Mas com toda essa chuva, é esperar e torcer por um nocaute logo no começo, para eu conseguir dormir.
Simbóra, que já já é de manhã
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Um lindo início de ano pra tu.
E mais uma vez, obrigado por ter lido até aqui.
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