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Cartas do Bota na Rua · Apr 11, 2025

o lado feio

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Lucas do Bota na Rua · Cartas do Bota na Rua

Na economia da atenção, boa parte do trabalho do marketing nasce da arte de (identificar, escutar e) contar histórias que se espalham.

Hollywood sempre soube disso muito bem: Marilyn Monroe sorrindo impecavelmente, James Dean transmitindo rebeldia calculada, Judy Garland fascinando com sua voz.

Tudo projetado para ser irresistível, tudo cuidadosamente pensado para ser o espelho do perfeito dentro da cena e na vida real.

Essa perfeição tinha um custo silencioso, humano e profundo. Judy Garland é um exemplo forte disso.

Por trás das cortinas, ela vivia sob pressão constante—remédios para dormir, para acordar, para emagrecer. Sua vida, controlada por grandes estúdios, era um ciclo contínuo de ansiedade e tristeza. Ela não podia simplesmente ser Judy: tinha que se encaixar ou então, invisível.

A semelhança com a atualidade não é mera coincidência.

Estamos passando por uma era de sustos.

Todo dia uma profissão é substituída.
Toda notícia simples se torna histórica.
A cada segundo, uma nova urgência.
A cada minuto, anúncios reforçando essa imagem de excelência e perfeição.

Perfeito pra quem?

Comparado com as máquinas nós somos humilhados superados em diversas competências.

Era pra eficiência nos ajudar ou assustar?

No livro O Belo e o Grotesco, Vitor Hugo faz uma crítica da limitação do belo, do perfeito, quando comparado com o feio.

“O belo tem somente um tipo; o feio tem mil”

Ele via no grotesco — esse lado imperfeito, frágil e excessivamente humano — o ingrediente que completa o sublime. Porque a arte não é feita só de idealizações.

A beleza sem contraste se torna estéreo.

Talvez o futuro do marketing não esteja em parecer impecável, mas em tocar o outro com algo que ele reconheça como real - talvez essa seja a essência do marketing.

Assuma a dúvida, o excesso, a confusão, o ponto fraco, o dito feio.

Use isso.

Não é a perfeição que faz as coisas acontecerem.

É o conflito entre o que queremos e o que resistimos.

É o limite que vira impulso.

A grandeza mora no entre — entre a intenção e a falha, entre o ideal e o real.

Talvez o que a gente precise pra mudar não seja um plano infalível, e sim mas uma forma mais honesta de lidar com o que somos, fazemos e mostramos.

Porque, no fim, o sublime não nasce da ausência de falhas — mas da coragem de continuar mesmo com elas.

O que emociona não é o controle absoluto, é o momento em que algo escapa.

A pausa. A falha. A fissura.

É ali que a gente se reconhece.

E, talvez, ali também comece o que pode ser belo.

Com carinho,

Lucas Morello
do Bota na Rua

Read the original on botanarua.substack.com

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