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Cartas do Bota na Rua · Mar 19, 2025

antes de criar ligue a criatividade

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Lucas do Bota na Rua · Cartas do Bota na Rua

eu estava sentado, bambaleando o lápis entre os dedos.

lá em 2011, na cadeira da aula de escrita criativa, o professor nos avisou que criaríamos 1 texto por semana.

se não me engano, no semestre redigi uns 15 textos, dois foram publicados como crônicas em jornais locais.

desses dois, só me lembro claramente do conteúdo de 1 texto.

mas lembro muito bem dos 3 textos que entreguei atrasado.

foram neles que depositei:

  • a ansiedade dos dias que antecederam a entrega;

  • os pequenos delírios matinais de quem virou a noite para escrever;

  • a decepção com o resultado, acumulada na decepção com o processo.

o coração batia em um ritmo e a pálpebra pulsava no dobro.

os dias que antecederam a entrega desses 3 textos foram terríveis.

sinta-se livre para me chamar de sensível, mas senti como término de um relacionamento que prometia muito e entregou pouco.

foi uma carga emocional desmedida. naquela época não sabia pedir ajuda, muito menos o que significava uma terapia.

só lembro de ficar muito irritado comigo por falhar com a data, por ter perdido tempo tentando e não ver o resultado.

eu não queria criar se eu fosse sofrer esse tanto.

com toda vergonha do mundo, falei para o professor:

não vou conseguir fazer todos os textos.

ele me recomendou ter um “diário do escritor”.

o escritor era eu. a regra, simples:

anotar o que me chama atenção no dia e observar com calma esses eventos:

  • podia ser uma fofoca ouvida em um ônibus no trânsito para a casa;

  • a luz do sol poente que registra a passagem do dia;

  • como o choro se tornava calma para a criança no colo da vó.

os textos estavam espalhados pelo mundo.

cada observação anotada era uma possível boa ideia.

nem o papel e nem eu estávamos em branco, porque havia interesse em conhecer e se aprofundar no que eu ia escrever.

parecia uma forma melhor de lidar com a criação.

eu não precisava mais escrever um texto do nada.

eu precisava escrever um texto com tudo que coletei. e isso me direcionava.

é permitir que minhas certezas pesem menos do que minhas observações e emoções sobre o mundo.

se eu quero me comunicar e mobilizar o outro com o que eu crio, no mínimo, preciso me interessar pelo mundo do outro.

o outro escolhe diferentes palavras para comunicar o que sente, tem outras urgências.

em época de inteligência artificial o interesse genuíno e a curiosidade são diferenciais.

é claro que existem vários tipos de estímulos para a criatividade.

mas sem dúvida, se botar no mundo é uma delas.

com carinho,

lucas morello
do bota na rua

Read the original on botanarua.substack.com

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