Por: Aline Gomes
No fim de março, o IBGE divulgou a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, e os dados chamam atenção, principalmente quando o assunto é a saúde mental das meninas.
Elas representam metade da população escolar, cerca de 6,2 milhões de jovens, e apresentam índices mais críticos do que os meninos quando falamos de tristeza, imagem corporal e exposição à violência. Mas o que explica esse cenário?
Os dados a seguir foram divulgados pela PeNSE uma pesquisa escolar realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com os Ministérios da Saúde e da Educação, e traça um diagnóstico de mais de 12,3 milhões de jovens entre 13 e 17 anos, das redes pública e privada do Brasil.
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar é realizada a cada quatro anos, diferente do Censo Demográfico, que acontece a cada dez anos.
1 em cada 4 meninas adolescentes considera que a vida não vale a pena ser vivida, mais que o dobro dos meninos (12%).
Elas se sentem tristes, irritadas, nervosas ou mal-humoradas. Também são as alunas que mais se machucaram intencionalmente.
Insatisfação com o próprio corpo
58% dos adolescentes se declararam “muito satisfeitos” ou “satisfeitos” com a própria imagem corporal. Ainda assim, 27,2% disseram estar “muito insatisfeitos” ou “insatisfeitos”, enquanto 14,0% relataram indiferença.
Esse dado sobre satisfação sobre o corpo vem caindo a cada edição da pesquisa. Em 2019, era de 66,5%, e em 2015, era 70,2%.
E, assim como muitas de nós, mulheres adultas, fomos condicionadas a não nos sentirmos satisfeitas com o que vemos no espelho, focadas em emagrecimento, redução de medidas e atravessadas pela pressão estética, as adolescentes também são.
O total de meninas que disseram estar insatisfeitas com a própria imagem corporal chega a 36,1%, quase o dobro dos 18,2% entre os meninos.
O estudo também aponta que meninas são mais vítimas de bullying: 30,1% disseram ter sido humilhadas ou intimidadas recentemente, enquanto os meninos aparecem mais como agressores.
Além disso, 61% das meninas relatam preocupação excessiva com o cotidiano, e 33% afirmam sentir que ninguém se preocupa com elas.
A pesquisa do IBGE não detalha o que está por trás desses dados, mas sabemos que adolescência é um período de grandes transformações, de formação de identidade e descobertas. E claro, entram aí as redes sociais e os conteúdos que ampliam a pressão estética e a busca por validação, agravando quadros de ansiedade e depressão.
Toda essa análise, além de ser difícil de encarar ao ver meninas tão jovens emocionalmente sobrecarregadas, também mostra que pouca coisa mudou da nossa adolescência, lá no começo dos anos 2000, pra cá.
A misoginia segue ditando o que é considerado desejável, a cultura cada vez mais centrada no corpo perfeito, e as meninas ainda sendo ensinadas que seu valor está no desejo que conseguem gerar.
Se nos anos 2000 a pressão estética era impulsionada por revistas, TV e pela estética Y2K, hoje ela está nas redes sociais 24/7.
O que mostra uma mudança no modo como esses padrões se espalham, tornando a busca pela “perfeição” constante e praticamente ininterrupta. Só que agora a autoconfiança fica refém de métricas, tipo curtidas, views e comentários, mas o padrão da perfeição continua sendo eurocêntrico, gordofóbico e capacitista.
Por exemplo, não é novidade pra ninguém que os filtros de beleza, que criam traços “perfeitos” e impecáveis, intensificou questões de autoimagem, especialmente entre meninas mais jovens.
Essa preocupação faz parte de uma obsessão cultural mais ampla com a aparência, que impulsiona a popularidade de produtos antissinais e leva adolescentes a recorrerem, cada vez mais cedo, a procedimentos estéticos, como o “baby botox”.
Se nós sofremos com as comparações constantes, imagina as adolescentes? Os algoritmos reforçam esse jogo o tempo todo, transformando tudo em uma espécie de competição silenciosa. Seguidores, curtidas e comentários viram indicadores públicos de valor, como se fossem um ranking emocional atualizado em tempo real.
Quando a gente olha para esses dados, fica ainda mais claro que fatores sociais, culturais e estruturais pesam muito na saúde mental das meninas. Violência de gênero, assédio online, pobreza menstrual e padrões estéticos inalcançáveis ajudam a explicar o cenário de sofrimento emocional, maior insatisfação corporal e mais comportamentos de autoagressão entre elas.
Toda essa pressão e sofrimento entre adolescentes não surge do nada. Desde sempre somos ensinadas a serem vistas, avaliadas e controladas.
O corpo feminino vira território de vigilância, expectativa e julgamento constante, enquanto autonomia e autoestima ficam condicionadas ao olhar do outro. O que essa pesquisa revela é reflexo direto de um contexto histórico e estrutural marcado por desigualdade de gênero e diferentes formas de violência.
Enquanto isso, os meninos são socializados em uma lógica de masculinidade que valoriza o controle emocional, a dureza e a repressão dos sentimentos, o que também impacta a saúde mental deles. Esse modelo limita a forma como eles lidam com as frustrações, vulnerabilidade e afeto, muitas vezes deslocando essas emoções para comportamentos de controle e agressividade.
A pesquisa deixa claro a urgência em investir na saúde mental dos adolescentes, especialmente das meninas, e criar políticas públicas que considerem essas diferenças. Enquanto elas estão ocupadas tentando se encaixar em padrões estéticos, perdem tempo, energia, dinheiro e foco que poderiam estar sendo direcionados para estudar, se desenvolver e construir autonomia.
Lembre-se: a pressão estética funciona como uma ferramenta de controle social e distração que adoece mulheres e meninas.

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