RSS Amplifier

Here’s a Thought | Pensando Alto · Aug 11, 2026

Transcrição da Live de Segunda: O Mercosul sob Pressão

0
Sign in to vote or save

This site does not allow itself to be embedded. You can still read it on the original site — the toolbar below keeps your place in the directory.

Eis a transcrição da Live de 10 de agosto de 2026. Informo que utilizei o Claude Fable 5 para extrair da transcrição automática do Substack os principais pontos discutidos.

Nota: Não temos falado sobre IA nas últimas semanas por conta dos muitos bombardeios que o Brasil tem recebido dos EUA. Entretanto, publicarei em breve artigo sobre as minhas últimas experiências com as máquinas falantes infernais. Para quem é novo por aqui, informo que o único uso que faço das gerigonças que nos enfiaram goela abaixo é extrair pontos da transcrição automática das lives que o Substack gera.

1. O visto da Embaixadora Maria Luiza Viotti

Here’s a Thought | Pensando Alto é uma publicação apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.

A revogação do visto da Embaixadora Maria Luiza Viotti foi uma atitude sem precedentes dos Estados Unidos em relação a uma chefe de missão diplomática brasileira, mas convém ser mais preciso quanto ao que isso significa. O visto revogado impede uma nova entrada nos Estados Unidos, de modo que a Embaixadora não pode deixar o país nem retornar. Permanecendo em Washington, porém, ela não está de forma alguma incapacitada e continua exercendo plenamente suas funções como chefe da missão diplomática do Brasil. Trata-se de uma crise diplomática real, que ainda pode escalar caso os Estados Unidos decidam dar novos passos nessa direção. Há possibilidade disso acontecer, sobretudo considerando que o governo brasileiro não deverá aprovar, antes das eleições de outubro, a nomeação de Daniel Perez, indicado pelo governo Trump para assumir a embaixada em Brasília.

2. As consultas na OMC sobre as tarifas

A Regina trouxe a notícia de que os Estados Unidos aceitaram o pedido brasileiro de realização de consultas na OMC (Organização Mundial do Comércio) sobre as tarifas e perguntou o que poderá acontecer. As consultas fazem parte do protocolo da organização. Quando são solicitadas, há um período de 60 dias durante o qual as partes poderiam chegar a um acordo, mas, nas circunstâncias atuais, as chances disso acontecer são bastante baixas. Das consultas entre o Brasil e os Estados Unidos, provavelmente sairá uma divergência previsível. Os Estados Unidos vão alegar que as tarifas estão amparadas por suas leis comerciais e que, portanto, o país tem o direito de impô-las. O Brasil vai contrapor que, ainda que amparadas pela legislação norte-americana, elas ferem os acordos firmados no âmbito da OMC. Não havendo entendimento nessa fase — e não há razão para esperar que haja —, o passo seguinte seria o julgamento pelo Órgão de Apelação da OMC. Contudo, o Órgão de Apelação está paralisado, sem juízes para julgar o caso ou para mediar a disputa. O rito, portanto, não deve ir muito além das consultas, pois a instância julgadora simplesmente não existe neste momento. O episódio ilustra, mais uma vez, o drama das instituições que os próprios Estados Unidos ajudaram a construir, mas que agora resolveram desestabilizar. Nesse novo mundo de globalização coercitiva, o Mercosul ganha uma importância estratégica que precisa ser bem compreendida.

3. O que é o Mercosul

O Mercosul foi criado em 1991, quando Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai assinaram, em Assunção, o tratado que deu origem ao bloco, inspirado na experiência europeia. O Mercosul é uma união aduaneira, não apenas uma zona de livre comércio. A distinção é importante. Uma zona de livre comércio, como a existente entre os Estados Unidos, o México e o Canadá no âmbito do USMCA (Acordo entre Estados Unidos, México e Canadá), elimina tarifas e outras barreiras ao comércio entre os participantes. Uma união aduaneira vai além do que é permitido por um acordo de livre comércio. Em uma união aduaneira, os membros se comprometem a praticar uma tarifa externa comum em relação a terceiros e a manter regras comuns para a circulação de pessoas e mercadorias, liberdades que uma zona de livre comércio pura e simples não contempla.

A nossa união aduaneira sempre foi meio capenga. Como o bloco nasceu em uma época economicamente muito difícil para todos os seus membros, criaram-se, ao longo dos anos, listas de exceções e regimes especiais que não costumam existir em uniões aduaneiras mais tradicionais, como a europeia. A cadeia automobilística, por exemplo, opera fora das regras do bloco. Ainda assim, o Mercosul fez o comércio intrarregional crescer muito e trouxe benefícios reais a brasileiros, argentinos, paraguaios e uruguaios, aos quais devem se somar os bolivianos quando a adesão plena da Bolívia se concretizar.

4. O valor estratégico de negociar em bloco

Em 2000, pela Decisão 32/00 do Conselho do Mercado Comum, os países-membros comprometeram-se a negociar em bloco com outras regiões e outros países. Um mercado composto por quatro países oferece mais aos seus potenciais parceiros do que qualquer mercado nacional isolado; por isso, a negociação em bloco confere aos integrantes um poder de barganha que nenhum deles teria isoladamente. A regra sempre gerou controvérsias, e houve episódios em que membros quiseram negociar bilateralmente. Mas a vantagem de negociar em bloco nunca esteve tão evidente quanto agora. É dela que resultaram o acordo com a União Europeia, que levou 25 anos para sair e está em vigor provisório; o acordo com a EFTA, a Associação Europeia de Livre Comércio, prestes a ser ratificado; o acordo recém-firmado com Singapura; e as negociações em curso com o Canadá e o Japão.

Num mundo em que os Estados Unidos enfraquecem instituições que ajudaram a construir, como a OMC, e usam tarifas, sanções financeiras e restrições de acesso ao seu mercado como instrumentos de coerção, a diversificação de mercados tornou-se uma necessidade para todos os membros do bloco. Não interessa a nenhum de nós ficar no fogo cruzado entre os Estados Unidos e a China. Por isso, o Mercosul é hoje mais importante do ponto de vista estratégico do que em qualquer momento desde a sua criação. Esta não é a hora de enfraquecê-lo, mas, infelizmente, é isso que está acontecendo.

5. As pressões que se acumulam sobre o bloco

O momento é particularmente delicado. Às investidas dos Estados Unidos na região somou-se uma tensão diplomática com a Argentina. Em fevereiro deste ano, a Argentina assinou um acordo de concessões tarifárias bilaterais com os Estados Unidos. Como o Mercosul pratica a tarifa externa comum, em tese os quatro membros deveriam aplicar as mesmas tarifas aos produtos norte-americanos. Depois do acordo, entretanto, há produtos dos Estados Unidos que pagam menor tarifa ao entrar na Argentina do que ao entrar no restante do bloco. Portanto, o acordo bilateral entre EUA e Argentina introduziu uma linha divisória no Mercosul e o enfraquece exatamente no momento em que dele mais precisamos, inclusive porque os acordos com terceiros envolvem o bloco inteiro e teriam de ser renegociados se o bloco se desfizer pelo caminho.

É importante ter em conta que a coerção norte-americana não poupa nem os governos que o governo Trump diz respeitar. No ensaio que estou terminando de escrever com Philip Yang, tratamos de um caso recente na Argentina. Uma empresa provincial de redes de fibra ótica havia fechado, no fim do ano passado, um acordo de fornecimento com a chinesa Huawei. Poucas semanas depois, os dirigentes da empresa receberam da embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires uma mensagem de WhatsApp, nem sequer uma comunicação formal, informando que o governo norte-americano queria entender melhor o acordo e considerava revogar os vistos dos dirigentes. O episódio ilustra como até mesmo países aliados (ou alinhados) estão sujeitos a medidas coercitivas dos Estados Unidos que ferem a soberania nacional. Se os países do Mercosul não souberem se coordenar e se posicionar, ficaremos subservientes aos EUA, sem capacidade de negociar acordos que nos permitam a diversificação de que precisamos.

6. As eleições brasileiras não resolvem o problema

As eleições no Brasil não ajudam o Mercosul. Se Lula se reeleger, o ambiente hostil que aí está simplesmente continuará. Se Flávio Bolsonaro vencer, o risco será maior. Na carta de 86 páginas enviada ao Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que vazou na imprensa, ele condena o Mercosul como uma espécie de “amarra” que fere as liberdades do Brasil, um argumento que não se sustenta, já que é justamente o bloco que nos dá poder de barganha para negociar as alternativas de que o próprio empresariado brasileiro vem falando. O Mercosul está em risco, independentemente do resultado eleitoral, e é por isso que o tema, dada a sua urgência e relevância, deveria ser pauta de campanha. O ensaio que escrevo com Philip Yang sobre o assunto deve ser publicado na Folha de S.Paulo e avisarei assim que sair.

7. Perguntas e observações do chat

O Bruno perguntou se o BRICS não seria uma alternativa em caso de enfraquecimento do Mercosul e qual a diferença entre os blocos. A diferença fundamental é o grau de integração. O Mercosul, ainda que capenga, já é, ao mesmo tempo, um bloco econômico e, apesar das desavenças, um bloco geopolítico, com todo o trabalho institucional já realizado. O BRICS é, por ora, um bloco geopolítico com a pretensão de vir a ser econômico, formado por economias muito diferentes entre si e sem um caminho claro para alcançar esse objetivo. E, em caso de enfraquecimento do Mercosul, todos perdemos, inclusive a Argentina.

O Sérgio, que mora em Berlim, perguntou se vejo o acordo entre o Mercosul e a União Europeia engrenando, já que percebe pouca empolgação por lá. Tenho o mesmo ceticismo. A demora de 25 anos se explica pela economia política dos grupos de interesse contrários, sobretudo os agrícolas na França, e o vigor provisório significa que ainda há etapas a cumprir, inclusive nas cortes europeias. O acordo pode ser suspenso por razões inteiramente europeias, e as desavenças permanecem, como mostra a proibição de entrada da carne bovina brasileira na Europa.

O Roberto, escrevendo de Lyon, observou que os sindicatos agrícolas mandam na França, e essa é a espada de Dâmocles sobre o acordo — um problema que, em mais de 25 anos, não se resolveu.

A Florice mencionou a interferência do Macron, que, de fato, responde a esses grupos, mas que, no início deste ano, passou por cima das reclamações e permitiu a entrada em vigor provisório do acordo. Há apoio político de lideranças europeias, sem grande entusiasmo, e o pouco consenso existente é fácil de desmantelar.

O Zilton perguntou sobre o peso específico do Brasil em relação à Argentina e se os argentinos não continuarão a precisar de nós. Precisam e precisarão, porque as economias são bastante integradas e a dependência da Argentina em relação ao Brasil é maior do que a do Brasil em relação à Argentina. Contudo, a dependência econômica entre os dois países tem sido ignorada no discurso político. A sobrevivência política de Javier Milei, que enfrenta eleições em 2027, está hoje atrelada à proximidade com o governo Trump, e é bem imaginável que ele descarte o Mercosul, inclusive por pressão dos Estados Unidos. O horizonte político de Milei é um. O horizonte da Argentina é outro, e, para o país, a sobrevivência do Mercosul é fundamental, ainda que não o seja para Javier Milei.

O Celso perguntou se uma economia quase totalmente dolarizada, como a Argentina, não constitui, em si, um impedimento ao pleno funcionamento do Mercosul. Não necessariamente, tanto que o bloco tem funcionado apesar disso. O problema é outro. A dependência de dólares torna muito fácil para os Estados Unidos forçarem a mão da Argentina, como se viu em outubro de 2025, quando o Tesouro norte-americano concedeu uma linha de swap de US$ 20 bilhões, explicitamente para ajudar Milei nas eleições de meio de mandato. Mas a Argentina também tem linhas de swap cambial com a China em montantes muito parecidos, de modo que a dependência corre para os dois lados. É bom Milei ter cuidado com as fichas em que aposta.

O Pedro observou que a fragmentação do Mercosul, viesse ela de Milei ou de Flávio Bolsonaro, seria um imbróglio empresarial, com cerca de US$ 34 bilhões em jogo nos negócios do bloco, e disse acreditar mais na fragmentação do que na extinção. Concordo, embora o risco de extinção também exista, e é exatamente por isso que os empresários brasileiros precisam abrir os olhos para o quadro que se apresenta.

O Moisés observou que os Estados Unidos não têm amigos. É mais grave do que isso. Que países têm interesses, não amigos, é a velha máxima das relações internacionais, e o mundo sempre funcionou assim. A novidade é que os Estados Unidos deixaram de fazer valer seus interesses por meio da diplomacia e das instituições que ajudaram a construir e passaram a fazê-los valer por meio da coerção. Para usar uma palavra gasta, este governo age de forma muito mais imperialista. O que temos hoje é a diplomacia coercitiva, um oxímoro.

O Romeu escreveu que a diplomacia coercitiva só tem um antídoto: uma aliança ampla com a China. Uma aliança eu já não sei, mas algum entrelaçamento maior, sim.

O Júlio perguntou se o Brasil não deveria entrar na nova Rota da Seda. Na minha opinião — e é opinião —, o Brasil precisa, acima de tudo, preservar a liberdade de cuidar dos seus interesses, negociando com todo mundo, e qualquer alinhamento, seja com os chineses, seja com os norte-americanos, nos prejudica.

O Erivaldo perguntou por que se fala tanto sobre as relações futuras entre o Brasil e a China. Porque a China passou a ser o nosso principal parceiro comercial e uma das nossas principais fontes de investimento. Dito isso, não faz sentido alinhar com ninguém. A política externa brasileira sempre foi orientada por um multilateralismo pragmático que nos serviu muito bem, e é melhor mantermos essa postura.

O Antônio observou que o maior investimento chinês está no Brasil e que a China lutará pelos seus interesses com afinco, o que também me parece provável, embora ainda estejamos a ver como a situação evolui.

A Vânia perguntou por que a reeleição de Lula seria um risco para o Mercosul. Não é que a reeleição em si seja um risco. O que eu quis dizer é que ela mantém o estado atual das coisas, em que o Mercosul sofre investidas e está vulnerável, em boa medida porque Lula não é uma figura com quem Trump e Milei se identifiquem. A alternativa, porém, tampouco resolve, já que Flávio Bolsonaro deixou claro que não quer o Mercosul. O ponto é que o Mercosul está sob risco independentemente do que aconteça nas eleições.

O André perguntou se, junto com os membros menos expostos, conseguiríamos negociar com diferentes parceiros e nos proteger melhor caso algum membro deixasse o bloco. Se a Argentina decidisse sair, por exemplo, o Mercosul poderia continuar a existir, e os acordos já firmados, como o da União Europeia, poderiam ser renegociados para o bloco menor, com vulnerabilidade e enfraquecimento óbvios, mas sem que a saída de um membro necessariamente levasse à morte do bloco. O melhor dos mundos é o Mercosul preservado. Caso isso não seja possível, é melhor ter um Mercosul enfraquecido do que um desmantelado, porque o bloco, mesmo imperfeito, protege, de alguma maneira, todos os seus membros.

O Gabriel perguntou se as importações do Paraguai na modalidade muamba seriam afetadas por uma eventual saída do Brasil do Mercosul. Gostei da pergunta. Como as nossas fronteiras estão cheias de buracos, acho que a modalidade não chegaria a sofrer nada, mas sabe-se lá.

A Andrea perguntou se uma alternativa seria um acordo com o Canadá no contexto da indústria automobilística. Sim, e por muito mais do que a indústria automobilística. O Mercosul e o Canadá teriam muito a ganhar com o acordo de livre-comércio em andamento, desde que ele não seja impedido ou enterrado pelos problemas discutidos aqui. Andrea observou ainda que o próximo presidente precisa, ao menos, almejar ser um estadista, e concordo que é essa a preocupação que nos falta.

A Élida, cuja presença sempre enriquece a conversa, observou que o momento geopolítico pede maturação de ideias e esforços em várias camadas para evitar o puro império da força, que a finalidade dos blocos é fazer contrapeso geopolítico em face da polarização entre os Estados Unidos e a China, e que, para além dos blocos diplomáticos e econômicos, seria necessário poder militar de dissuasão, algo difícil de conceber diante das pretensões autoritárias de alguns grupos militares brasileiros. Concordo com cada um desses pontos. Foi exatamente a necessidade de contrapeso que levou a União Europeia a fechar, depois de um quarto de século, o acordo com o Mercosul. A Andréia e a Helena aproveitaram para homenageá-la, e sigo devendo a conversa que prometi organizar com ela aqui, por culpa exclusivamente minha.

A Helena notou também que há, da parte de Flávio Bolsonaro, uma entrega da nossa soberania, e que a questão da subserviência deveria igualmente ser pauta eleitoral.

Por fim, as saudações e os avisos práticos. O Antônio saiu do hospital, e seguimos aguardando a água de coco prometida. A Raquel perguntou se as lives ficam gravadas. Ficam disponíveis aqui no Substack, fora do paywall, por duas semanas, sempre acompanhadas de uma transcrição organizada como esta. Também passaram pelo chat, entre saudações e comentários, a Cristina, o Nicolas, a Mônica, minha xará com acento, a Vera, a Maria Isabel e a Clarissa. Agradeço a presença de todos apesar dos muitos problemas técnicos da noite.

Here’s a Thought | Pensando Alto é uma publicação apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar meu trabalho, considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.

Read on bolle.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.