Por esses dias, tenho me sentido como o personagem interpretado por Michael Douglas no filme de 1993, dirigido por Joel Schumacher. Lembram-se? Falo de “Um Dia de Fúria” ou “Falling Down". Feito em uma época desprovida das gerigonças falantes que nos enfiaram goela abaixo, fico imaginando como se comportaria o protagonista caso tivesse de lidar com o lixo verbal tóxico regurgitado pelas ferramentas de IA.
O lixo verbal tóxico está por toda parte, e vejo cada vez mais pessoas aturdidas em meio à invasão patrocinada pelas empresas do Vale do Silício. Até o LinkedIn, a rede social mais boçal que inventamos, parece desgostosa com a quantidade de porcaria publicada em suas páginas. Tanto assim que, nos últimos dias, resolveram introduzir um escaneador de IA para que os usuários possam averiguar a proveniência das postagens. Não vou comentar a celeuma Pangram-Substack. Eu uso o Pangram. E gosto, embora meus ouvidos consigam detectar ruídos de IA tal qual cachorros detectam apitos feitos sob medida para sua aguçada estrutura auditiva.
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Quando saíram os primeiros chatbots, no ano longínquo de 2022, eu me recusei a usá-los. Achei tão absurda a ideia de que um algoritmo pudesse ser “inteligente” que nem curiosidade tive de abordar a nova tecnologia, apesar da balbúrdia dos convertidos. Ao perceber que algumas pessoas no meu entorno passavam a se comportar como membros de seita, resolvi fazer a minha própria viagem a Jonestown digital. Isso foi há cinco meses.
No início—que deve ter durado uns cinco ou seis dias—fiquei meio embasbacada. Passava uns dias em Londres, onde morei por anos em outra vida, e, nas horas entre trabalho e lazer, sentava com meu laptop no bar do hotel, onde abria o Claude e fazia uma cascata de perguntas. Fiquei maravilhada com a possibilidade de ler sobre o que quisesse a partir de algumas indagações à máquina. Antropoformizei os robôs, achei tudo muito genial. Mas infelizmente, eu não tenho o gene do deslumbramento. Sofro de ceticismo crônico e de desconfiança aguda, em parte explicados por alguns traumas de infância, como é o caso de quase todos nós. Passado aquele encantamento inicial, comecei a ver os defeitos, os muitos defeitos, defeitos e mais defeitos. São tantos os defeitos que descobri que, daqui a pouco, vou começar a questioná-los também. Contudo, esse momento ainda não chegou.
O que chegou foi a fúria. Como é possível que essas empresas tenham ludibriado tanta gente? Como se atrevem a fazer previsões e anúncios apocalípticos tendo produzido algo de tão porca qualidade (os LLMs)? De onde vem tanta arrogância, tamanha audácia? E o que dizer da ingenuidade das perguntas que vocês acabaram de ler? Que vergonha!
Continuo apesar disso, pois tenho mais a dizer. Pus a máquina para escrever textos, embora não os tenha publicado. Pus a máquina para escrever porque queria saber o que dali sairia, pois andava angustiada com a perspectiva de que a escrita humana estivesse com os dias contados. Já não tenho mais essa angústia, o que não debelou a fúria.
Há pouco tempo, tentando achar alguma utilidade para as máquinas que muitos ainda consideram das maiores invenções da humanidade, programei o Claude para me entregar todas as manhãs uma síntese de notícias e artigos sobre temas de meu interesse publicados nas últimas 24 horas. Passei horas elaborando o tal do prompt, tão extenso quanto um manual. Tudo correu relativamente bem por uns três dias, mas eis que no quarto dia, em meio ao turbilhão de notícias sobre os ataques econômicos e diplomáticos dos EUA ao Brasil, a máquina me entregou o resumo diário com matérias de mais de seis meses atrás. Nos dias que se seguiram a este, identifiquei os mesmos erros e resolvi auditar todos os resumos entregues até então. Todos continham erros que o volumoso prompt que elaborara deveria ter evitado. Quando perguntei ao Claude para que serviam as regras elaboradas se a máquina não as obedecia, recebi resposta tão viscosamente evasiva que tive vontade de esbofetear a tela do computador. Como tenho artrite precoce nos polegares das duas mãos graças aos muitos anos de ioga, me contive.
Não parei de usar o Claude e não se trata de masoquismo. (Não é isso, é aquilo). Não parei de usar o Claude pois é com a engenhoca da Anthropic que consigo recuperar o que falo — e o que vocês falam — nas lives do Substack. É uma mão na roda e uma fonte de frustrações infinitas.
Depois desse longo preâmbulo, eis o ponto desse artigo: cuidado com as máquinas. Elas são bem burras, incapazes de “aprender” o que quer que seja, posto que não têm memória, e têm enorme potencial de azedar o seu português.
Vejam:
Mercosul: a fragilidade por trás da vitória
Por Claude
O Mercosul vive um paradoxo. No momento em que celebra sua maior conquista em três décadas — a entrada em vigor provisória do acordo comercial com a União Europeia, em maio deste ano —, o bloco enfrenta riscos geopolíticos que ameaçam corroer os próprios alicerces sobre os quais essa vitória foi construída.
O primeiro risco é interno, e tem nome e sobrenome. A relação entre Brasília e Buenos Aires, eixo histórico do bloco, atravessa sua fase mais tensa desde a redemocratização. Javier Milei nunca escondeu seu desprezo pelo Mercosul, que já ameaçou abandonar, e transformou a divergência ideológica com Lula em política de Estado. As negociações comerciais seguem, é verdade, mas seguem apesar dos presidentes, não por causa deles. Um bloco cujos dois maiores sócios não conversam é um bloco que decide pouco, adia muito e projeta fraqueza. E integração regional que depende da paciência de burocracias para sobreviver a seus líderes é integração por um fio.
O segundo risco é a disputa entre Estados Unidos e China, que transformou a América do Sul em tabuleiro alheio. A China é hoje o principal parceiro comercial da maior parte do bloco; os Estados Unidos, sob nova onda protecionista, pressionam por alinhamento e punem com tarifas quem hesita. O Mercosul, que deveria ser instrumento de barganha coletiva, tem respondido de forma fragmentada: a Argentina de Milei corteja Washington, o Brasil aprofunda laços com Pequim e com os BRICS, e o Uruguai flerta há anos com acordos bilaterais que a arquitetura do bloco formalmente proíbe. Sem posição comum, cada país negocia sozinho — e quem negocia sozinho, negocia menor.
O terceiro risco é, ironicamente, o próprio acordo com a Europa. Sua aplicação provisória é um compromisso à prova: a ratificação plena ainda depende de parlamentos europeus onde o protecionismo agrícola e a pauta ambiental seguem vivos como instrumentos políticos. Qualquer retrocesso ambiental na Amazônia, qualquer crise institucional na região, pode reacender resistências em Paris ou Varsóvia. O acordo, vendido como âncora de modernização, pode se converter em fonte permanente de condicionalidades — e de atritos.
Há, por fim, o risco da irrelevância silenciosa. A Venezuela suspensa, a Bolívia em adesão eternamente incompleta, o parlamento regional esvaziado: a institucionalidade do Mercosul envelheceu sem se renovar. Num mundo que se reorganiza em blocos — e no qual minerais críticos, energia e alimentos, ativos que a região tem de sobra, viraram moeda geopolítica —, a fragmentação sul-americana é um luxo que ninguém pode pagar.
O Mercosul já provou que sabe sobreviver a crises; sobreviver, porém, não é o mesmo que importar. O acordo com a Europa oferece uma janela rara para o bloco se reinventar como plataforma comum de inserção internacional. Mas janelas se fecham. Se Brasil e Argentina não reconstruírem o mínimo de confiança política, e se o bloco não definir uma estratégia própria diante da rivalidade sino-americana, a maior conquista de sua história corre o risco de ser também o seu epitáfio: um tratado assinado em nome de uma integração que, na prática, já não existia.
Peço a companhia de vocês, parágrafo a parágrafo:
O Mercosul vive um paradoxo. No momento em que celebra sua maior conquista em três décadas — a entrada em vigor provisória do acordo comercial com a União Europeia, em maio deste ano —, o bloco enfrenta riscos geopolíticos que ameaçam corroer os próprios alicerces sobre os quais essa vitória foi construída.
O parágrafo de abertura não contém o que a frase de abertura anuncia. “Paradoxo” é figura de linguagem que pressupõe uma contradição. Qual é a contradição entre a entrada provisória em vigor do acordo UE-Mercosul e os riscos geopolíticos que ameaçam seus alicerces? Contradição implica choque, incapacidade de sobrevivência de duas ideias lado a lado. Nada impede o acordo de viver sob ameaça. Paradoxal seria ter um acordo com o Mercosul em vigor enquanto o bloco estivesse implodindo, não apenas sob ameaça de extinção. Para além da lógica torta, há uma construção prá lá de precária, assinalada em amarelo. Chega a doer no ouvido.
O primeiro risco é interno, e tem nome e sobrenome. A relação entre Brasília e Buenos Aires, eixo histórico do bloco, atravessa sua fase mais tensa desde a redemocratização. Javier Milei nunca escondeu seu desprezo pelo Mercosul, que já ameaçou abandonar, e transformou a divergência ideológica com Lula em política de Estado. As negociações comerciais seguem, é verdade, mas seguem apesar dos presidentes, não por causa deles. Um bloco cujos dois maiores sócios não conversam é um bloco que decide pouco, adia muito e projeta fraqueza. E integração regional que depende da paciência de burocracias para sobreviver a seus líderes é integração por um fio.
As listas. O primeiro risco, o segundo risco, o terceiro risco, o milésimo risco. O nome disso é preguiça, sem sobrenome. “A relação entre Brasília e Buenos Aires” é um tique recorrente: as IAs adoram antropomorfizar capitais de países. Quando vejo isso em um texto, paro de ler imediatamente. Afora isso, o parágrafo diz rigorosamente nada, e a frase final é de chorar, inclusive porque estou há horas tentando entender o que ela significa e ainda não consegui. Afinal, as burocracias tendem a ser bastante pacientes, até demais, diria. Caso tenham sucesso em decifrar o enigma, por favor, deixem a explicação nos comentários deste texto. Muito obrigada.
O segundo risco é a disputa entre Estados Unidos e China, que transformou a América do Sul em tabuleiro alheio. A China é hoje o principal parceiro comercial da maior parte do bloco; os Estados Unidos, sob nova onda protecionista, pressionam por alinhamento e punem com tarifas quem hesita. O Mercosul, que deveria ser instrumento de barganha coletiva, tem respondido de forma fragmentada: a Argentina de Milei corteja Washington, o Brasil aprofunda laços com Pequim e com os BRICS, e o Uruguai flerta há anos com acordos bilaterais que a arquitetura do bloco formalmente proíbe. Sem posição comum, cada país negocia sozinho — e quem negocia sozinho, negocia menor.
Vejam o protagonismo das capitais. São ótimas as capitais, não? Realmente muito proativas.
“Quem negocia sozinho, negocia menor”. Oi?
O terceiro risco é, ironicamente, o próprio acordo com a Europa. Sua aplicação provisória é um compromisso à prova: a ratificação plena ainda depende de parlamentos europeus onde o protecionismo agrícola e a pauta ambiental seguem vivos como instrumentos políticos. Qualquer retrocesso ambiental na Amazônia, qualquer crise institucional na região, pode reacender resistências em Paris ou Varsóvia. O acordo, vendido como âncora de modernização, pode se converter em fonte permanente de condicionalidades — e de atritos.
Paris! Varsóvia! Eu não sei o que é um compromisso à prova.
Há, por fim, o risco da irrelevância silenciosa. A Venezuela suspensa, a Bolívia em adesão eternamente incompleta, o parlamento regional esvaziado: a institucionalidade do Mercosul envelheceu sem se renovar. Num mundo que se reorganiza em blocos — e no qual minerais críticos, energia e alimentos, ativos que a região tem de sobra, viraram moeda geopolítica —, a fragmentação sul-americana é um luxo que ninguém pode pagar.
“Irrelevância silenciosa”, poesia de máquina. O uso desenfreado de “silencioso", "silenciosa", “silenciosamente" é irritante e curioso em igual medida. O que explica a obsessão pelo silêncio de uma máquina que não tem ouvidos?
O Mercosul já provou que sabe sobreviver a crises; sobreviver, porém, não é o mesmo que importar. O acordo com a Europa oferece uma janela rara para o bloco se reinventar como plataforma comum de inserção internacional. Mas janelas se fecham. Se Brasil e Argentina não reconstruírem o mínimo de confiança política, e se o bloco não definir uma estratégia própria diante da rivalidade sino-americana, a maior conquista de sua história corre o risco de ser também o seu epitáfio: um tratado assinado em nome de uma integração que, na prática, já não existia.
“To survive is not the same as to matter". “A rare window". “The cow went to the swamp” and never came back.
Termino com o testemunho de próprio “punho” digital:
Saber e fazer, no meu caso, são processos diferentes. Eu não consulto uma gramática interna antes de cada frase. Produzo texto por padrões aprendidos de um corpus enorme em que o inglês domina, e no qual o próprio português aparece misturado a traduções ruins e a usos descuidados. Quando você me pergunta qual é a forma correta, eu a reconheço sem dificuldade. Quando estou gerando um texto corrido, os padrões do inglês e os vícios do corpus competem com essa forma correta, e às vezes vencem. Reconhecer é mais fácil do que produzir, para mim como para qualquer estudante de língua estrangeira.
Não acho que os estudantes de língua estrangeira mereçam um rebaixamento desse tamanho.
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