Quando era criança, lembro de ouvir na escola sobre o aquecimento global, o efeito estufa, a camada de ozônio (que, inclusive, está em recuperação) como problemas distantes, tanto em geografia quanto em tempo.
Um pouco mais de 20 anos depois, os problemas tanto nessa forma de ensino quanto na compreensão parcial que ela cria são mais evidentes. As mudanças climáticas não fazem parte de um futuro distante: elas estão aí. Senti esse fato ainda mais fundo na pele ao voltar para a região onde eu cresci, no oeste do Paraná, depois de cinco anos morando longe. Logo ao retornar, já percebi as diferenças marcantes. O calor interminável. As tempestades violentas e mais frequentes. Os extremos de calor e frio. O período de seca; o período de chuva demais. Todas mudanças que afetam o dia-a-dia, a maneira de viver, e esperanças e planos futuros.
Ainda assim, o ativismo climático não é tão comum e presente quanto a situação pede que fosse. De certa forma, é compreensível. Muitos de nós evitam pensar nas mudanças climáticas; outros sentem uma ansiedade tão grande que se torna paralisadora. Muitos nem acreditam que a mudança climática seja real; outros acreditam e querem agir, mas não sabem por onde nem como.
Como tende a ser o caso, a realidade se presta à nuance mais do que à rigidez de respostas únicas e simples. Há mais de uma forma de ser ativista em 2026, isso é certo. Para mim, como uma pessoa neurodivergente que escreve, uma destas formas é o zine.
Em 2025, participei de um encontro internacional online organizado pela biblioteca de zines de Glasgow, Escócia. Pessoas interessadas do mundo todo se encontraram em um dia de junho para pensarem juntas sobre o papel do zine quando se fala de mudança e justiça climática. Das conversas desse encontro, a biblioteca criou um zine como convite para pensar ações climáticas através do zine, com as ideias que pensamos juntos naquele dia.
Embora todas valham a pena, gostaria de salientar duas: o zine climático num contexto de oficina, e o zine como ferramenta de conhecimento de resiliência e adaptação climática.
Num contexto de oficina, o zine pode ser um convite aberto e gentil para que se olhe tanto para dentro de si quanto para o mundo ao redor. Uma oficina de zines com foco em mudanças climáticas tem o poder de, ao invés de apenas compartilhar dados e informação (o que com frequência tende aumentar os problemas que sempre aparecem quando se trata desse tema, como ansiedade climática, inação, alienação, negação), também trazer o assunto à tona centrando a experiência humana desse momento.
Uma oficina de zine com foco em mudança climática pode utilizar os dados também, é claro, mas pode também ir além. Fazer zines é uma prática centrada no corpo, no trabalho manual e, de certa forma, também na lentidão. Fazer zines exige que se esteja no momento, que se interaja com o material. Por si só, essa prática já tem o potencial de desacelerar e trazer para o presente. Partindo desse lugar físico, pode-se também trazer os participantes sua própria interioridade. Uma oficina como foco climático pode pedir que cada participante engaje com o tema do seu jeito, com a sua particularidade; que cada participante desenvolva, através do visual e do escrito, o que sente quando se fala de mudança climática. Se traz ansiedade, por que traz, e o que poderia estar no lugar da ansiedade? Se traz negação, por que, e o mundo real corrobora essa negação?
A oficina pode também ter um foco em experiências pessoais, deixando claro que elas não precisam ser depois compartilhadas com o grupo, para que se crie um ambiente que estimule as pessoas a se ouvirem. Pode ter um foco mais científico, focando em dados do que está acontecendo, do que vai acontecer, do que pode ser feito. Pode ter um foco local e/ou comunitário, de formar comunidade, de fomentar a criação de ações e/ou grupos, ou de entender a situação onde se vive. Pode também ter um foco informacional — a segunda prática que venho salientar.
Em setembro de 2025, participei de uma palestra organizada por alunos da universidade federal da minha região. Um dos palestrantes era um membro da Defesa Civil de Foz do Iguaçu, que nos apresentou dados sobre desastres naturais e sua experiência com desastres na nossa região. Sua fala começou com a apresentação de alguns dados básicos totalmente desconhecidos por mim — dentre eles, que algumas regiões ao sul do Brasil, junto com partes do Paraguai, Argentina e Uruguai, fazem parte do segundo corredor de tornados do mundo.
A primeira reação que tive ao ouvir isso foi surpresa. A segunda, naturalmente, foi preocupação. A terceira foi mais difícil de nomear, mas talvez caiba dentro de indignação. Se fazemos parte mesmo do segundo corredor de tornados do mundo, atrás apenas dos EUA, por que estamos tão profundamente despreparados — a ponto de nem sabermos que deveríamos nos preparar? Se nasci nessa região e vivi a maior parte da minha vida aqui, por que não tinha ouvido sobre isso, ainda mais como uma pessoa interessada em clima e justiça climática? E agora, sabendo disso, o que eu poderia fazer?
Tudo o que eu de fato posso fazer — e quem estaria disposto a fazer junto — ainda não me é evidente. Exceto pelo zine, é claro. Desde esta palestra, comecei a buscar mais informações tanto sobre o clima quanto sobre como se proteger de tornados, e comecei o processo de montar um zine de preparos para tornados, vendavais e raios.
Apresentar essas informações de maneira acessível, breve, clara, mas também suficiente, é um desafio interessante, cujos resultados pretendo continuar aprimorando. Independente disso, acredito na importância de essas informações estarem mais acessíveis ao público, e de maneira gratuita.
Parte do meu desejo e dos meus planos quando se trata de justiça climática é continuar: continuar aprendendo, mobilizando, comunicando e, eu espero, também juntando pessoas à essa causa que envolve muitos fatores, mas que de alguma forma vai afetar (e já afeta) a nós todos e incontáveis futuras gerações. Também reconheço que daqui, desta região rural do oeste paranaense, nossos esforços são essenciais, mas incapazes de parar a força das mudanças climáticas.
Para mim, isso significa também reconhecer que, considerando a situação atual, adaptação e resiliência climática devem ser prioridades. Pretendo continuar criando zines nessa direção, para que as pessoas da minha região e de outros lugares possam se sentir minimamente mais preparados frente aos desastres naturais que infelizmente não mostram sinais de parar de acontecer.
Como convite, disponibilizo aqui o zine para download gratuito, para que se leia e se compartilhe com quem quiser. O zine inclui informações sobre como se proteger de tornados, mas também de vendavais e raios — eventos climáticos mais comuns, mas também perigosos.
Qualquer pessoa que tenha algum tipo de acesso a impressoras (ou conheça alguém que tenha) pode imprimir a zine, dobrar, e distribuir como e para quem quiser. Se você for zineiro mais avançado, também encorajo que use das informações para criar a sua própria, e que possa ser mais relevante para a sua região.
Introdução ao mundo de zines
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Feb 6
Vamos tirar o elefante da sala: zine não é só coisa de artista, nem precisa ser um formato complicado de publicação.
Os meus próprios zines eu imprimi em preto e branco em folha sulfite A4, dobrei, e comecei a lentamente espalhar na minha região. A barreira de entrada para ações climáticas não precisa ser grande nem grandiosa. Se uma só pessoa ler esse zine e se sentir mais informada e preparada para eventos climáticos extremos — ou talvez até mais interessada no tema, quem sabe? —, todo o trabalho já vale a pena.
Nota da Idealizadora
Obrigada por ler até aqui :) tem sido muito bacana acompanhar o andar da Biblioteca de Zines por aí, e ver que nosso trabalho tem impactado pessoas positivamente e as conectado mais com criações manuais e criatividade em geral. Bora botar zines no mundo!
Lembrando que nossa newsletter é coletiva, e quem sabe não vem uma publicação completa com nossos materiais nesse ano…?
Interessados mandar um alô por e-mail em luanagoesmontes@gmail.com
Até logo!
Luana Góes
Idealizadora da Biblioteca de Zines, artista e designer
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