RSS Amplifier

Biblioteca de Zines · Oct 27, 2025

Dando oficinas de zine globalmente: lições

0
Sign in to vote or save

Biblioteca de Zines, Tosin Jerugba · Biblioteca de Zines

Arte de divulgação para a Newsletter da Biblioteca de Zines nas redes sociais

Como ex-prefeite de biblioteca e refugiade nigeriana, a bibliodiversidade sempre foi muito importante para mim. Desde a hora das histórias com meus irmãos até o respeito pelos muitos colegas que pirateavam cópias em PDF de ficção juvenil porque livros são inacessíveis no meu país. Sempre vivi essa palavra antes mesmo de saber como soletrar ela.

Foto por Tosin Jerugba

Dependendo do contexto, a palavra bibliodiversidade tem vários significados:

  • Bibliodiversidade, adj. A diversidade do conteúdo acadêmico

Em nível nacional tanto quanto internacional, é essencial para a preservação de pesquisas em uma ampla gama de tópicos globais e locais, estudados a partir de diferentes abordagens epistêmicas e metodológicas e inspirados por várias escolas de pensamento e expressados em uma variedade de idiomas.

  • Bibliodiversidade, s.f. Quantidade e variedade de materiais publicados

Editoras pequenas, independentes e acadêmicas reconhecem a necessidade de ir além dos best-sellers na luta pela diversidade no corpus de livros produzidos e disponibilizados aos leitores.

Como pessoa multilíngue e nerd de carteirinha, a primeira definição me atrai, mas como criadora de zines, a segunda é mais atrativa.

No entanto, minha definição favorita continua sendo:

  • Bibliodiversidade, adj. A diversidade cultural e material aplicada ao mundo dos livros.

De capa dura a artesanato em papel. Zines, Literatura de Cordel, e-books e histórias orais. TUDO VÁLIDO! Se a Bibliodiversidade fosse uma estética, seria Brown Academia, e se fosse um personagem de programa de TV, seria alguém entre Frida e Kaisa em Hilda, da Netflix.

Cresci querendo me tornar escritore e ilustradore de livros de histórias. Hoje, faço zines e estou constantemente vasculhando a internet em busca de uma residência que me pague para criar os storyboards dos meus curtas de animação roteirizados. O pipeline (fluxo de pensamentos em sequência) é real.

Meu primeiro zine foi uma série de perzine (zines pessoais) em três partes que chamei de Wage Theft ou “Roubo de Salário” e um minizine chamado Read this last ou “Leia isto por último”.

A série aborda minha experiência navegando pela estratificação racial no mercado de trabalho irlandês. De trabalhar como estagiárie não remunerade a trabalhar simultaneamente como executive e faxineire em duas empresas diferentes, enquanto sobrevivia à falta de moradia. O minizine, no entanto, é um resumo divertido das descobertas de Dr. Ebun Joseph como pesquisadora do trabalho irlandês, com relação às relações raciais, interseccionando nacionalidade europeia e status de imigração.

Em novembro de 2024, Trump tomou posse como presidente dos EUA, e eu, juntamente com muitas mulheres negras, tanto locais quanto internacionais, sofremos perdas de empregos. No meu caso dois empregos, um ano depois de escrever Roubo de Salário ou “Wage Theft”, que foi inspirado por outra perda de emprego.

Foi então que mergulhei de cabeça nos zines como uma forma de auto expressão.

Meu primeiro zine foi escrito isoladamente, e se algo que esta Newsletter me mostrou é que a narrativa prospera em comunidade. Passei todo esse tempo livre me aprofundando no mundo da autopublicação e decidi compartilhar meu conhecimento. Então, sem mais delongas, veja como, em menos de um ano, ministrei workshops de zines pagos em 4 continentes e contando.

Tive o privilégio de concluir meu mestrado na Universidade de Galway, Irlanda. Foi lá onde tive meu primeiro contato com a população brasileira. Como ex-alune, decidi começar minha jornada entrando em contato com a Writer’s Society (sociedade de escritores). Um clube lotado de gays brancos, pessoas alternativas e inteligentes. Em abril de 2025, realizei meu primeiro workshop virtual de zines. Nele, abordei a história e as origens mal-entendidas dos zines. Do Renascimento do Harlem em Nova York à Literatura de Cordéis no Brasil. Usando um exemplo relevante de um dos meus artistas favoritos: “O Salmão do Conhecimento”, de Aoife Cawley. Concluí com a linha do tempo dos zines na história LGBTQIA+ internacional e como dobrar um minizine com algum tempo para os escritores fazerem o que fazem de melhor: escrever!

Foto por Tosin Jerugba

Não fui pago por este workshop, mas não planejava pedir. Era a minha primeira vez e eu estava ministrando este workshop para um grupo de estudantes de graduação, então não estava esperando ansiosamente por um cheque, rs.

Lição: Entrem em contato com suas universidades. As bibliotecas de zines existem por um motivo e pertencem à academia.

Ironicamente, esta foi pura sorte. Um antigo amigo, museólogo, aromaterapeuta em formação e uma voz importante na cena da capoeira angolana em Salvador, entrou em contato comigo sobre uma oportunidade remunerada no Museu do Mar Alex Belov. Um museu privado, e isso é evidente. Em maio de 2025, ministrei meu primeiro workshop presencial e em um segundo idioma. Um desafio bem-vindo. Como sempre, a melhor parte foi aprender a dobrar um minizine e ouvir as pessoas que tive a honra de inspirar compartilharem suas escritas comigo. Grande parte do conteúdo tinha como tema o Oceano e a Bahia, então fiquei muito comovide.

Foto da oficina realizada por Tosin Jerugba em Salvador

Recebi R$ 300 por este workshop e, embora minha experiência tenha sido minha, infelizmente não recomendo trabalhar para um museu privado, pois, após o término do evento, fiquei praticamente abandonade tendo que navegar sozinhe pelo burocrático sistema de Nota Fiscal sem um MEI, o que foi particularmente doloroso, pois sou estrangeire e esses lugares podem ser muito hostis e opressivos para pessoas como eu. Talvez um dia eu conte tudo no meu Substack.

Lição: Conte suas bênçãos.

Este continua sendo o melhor workshop que já ministrei e minha experiência favorita. Após a conclusão complicada do meu segundo workshop híbrido, decidi entrar em contato com uma das muitas organizações de base que lutam pela igualdade de direitos no meu país natal, a Nigéria, e comecei com a Obodo, uma organização sem fins lucrativos liderada por jovens que empodera líderes queer na Nigéria. E em junho de 2025 (mês do orgulho), ministrei meu terceiro workshop: Pequenas páginas, histórias impactantes: Arquivo Queer em Zines. Com foco em onde ler zines gratuitamente e onde encontrar recursos com uma perspectiva interseccional.

Foto por Tosin Jerugba

Recebi R$ 500 por este workshop, mesmo sem pedir, o que foi uma surpresa agradável, visto que se trata de uma organização sem fins lucrativos sediada em um país em crise econômica perpétua. Fiquei incrivelmente emocionade!

Lição: Entre em contato com suas comunidades locais. Encontre uma causa pela qual você seja apaixonado e ajude-os a descobrir que os zines podem levar à libertação.

Ok, menti. Tecnicamente, dei apenas 3 workshops e contando, mas prometo que uma quarta está a caminho. Há algumas semanas, a biblioteca Dick’s, em Ontário, Canadá, abriu um edital e meu workshop sobre zines foi selecionado. Este workshop acontecerá virtualmente entre janeiro e fevereiro de 2026. Será um workshop colaborativo, pois, por meio da primeira definição de Bibliodiversidade, pretendo destacar a história negligenciada dos zines na literatura de cordel com a ajuda de um cordelista de Salvador.

Receberei R$ 1.000 por este workshop, com R$ 300 indo para o meu colaborador. Posso estar literalmente morando em um abrigo enquanto escrevo isto, mas sempre que me lembro de como meu 2026 começará, sinto, no fundo, que consegui. Meu Eré pula de alegria e pequene Tosin está feliz. Talvez eu finalmente consiga pagar minhas dívidas haha.

Lição: À medida que o mundo se cansa do espaço digital e a frente ocidental mergulha no fascismo, as pessoas anseiam pelo conforto da mídia física. Os zines sempre estiveram aqui e nunca foram embora. Linguagem e cultura que transcendem chamadas abertas para propostas, submissões e até residências existem no espaço dos zines. A autopublicação é uma língua que todos os cantos do planeta falam e escrevem, e o mundo precisa ouvir suas histórias.

Tosin Jerugba é refugiade lésbica nigeriane radicade em Salvador, e isso transparece (em seu trabalho) desde seu amor pela linguagem até seu chamado para romper com a hierarquia de línguas e culturas. Seu trabalho inala experiências africanas vividas e exala multiculturalismo, artivismo e seu esgotamento com o cis-tema. Basta conferir o canal etéreo de compreensão em “Teoria dos Cores em Ioruba” ou sua carta de despedida à tradição em “Taiwo sem Kehinde” e você entenderá o que queremos dizer. De bolso, hilário, honesto e disponível em inglês e português.

Todos os seus zines estão disponíveis para compra ou troca em sua loja Ko-fi, incluindo seus e-zines longos, com entrega em todo o país. WageTheft Parte 1 está disponível para leitura gratuita em inglês na Biblioteca Virtual de Zines de Sherwood Forest, e em português; Lesbian Lovebomber, Farda, Em Defesa da Mãe & Nós Eram Roubado na Biblioteca de Zines, sob o pseudônimo: Ufah.

Instagram

LinkedIn

Substack

Discord - tosin0587

Nota da Idealizadora:

A newsletter da Biblioteca de Zines tem sido um espaço bem legal pra compartilhar textos de diversas pessoas, em diferentes lugares, sobre processos, oficinas, zines e afins. Convido pessoas para compartilharem suas coisas, afinal, toda perspectiva merece ter seu espaço por aqui. Tem sido muito gratificante poder panfletar esses textos e ter essas trocas. Acho importante apreciar as pequenas e grandes conquistas e, assim como zines tem diversos formatos, tem muitas pessoas por aí com coisas diferentes pra se dizer. Se alguém lendo isso tiver interesse em publicar algo com a gente, manda um e-mail em bibliotecadezines@gmail.com!

Essa é a newsletter da Biblioteca de Zines! Acesse nosso site, explore a biblioteca, e mais importante, FAÇA ZINES!

Traduzido e postado por Luana Góes

Artista multimídia, designer e idealizadora da Biblioteca de Zines

Compartilhar

Deixe um comentário

Nenhuma publicação

Read the original on bibliotecadezines.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.