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bibiana terra · Jun 14, 2026

não confunda rotina com autoexploração

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bibiana terra · bibiana terra

planejamento circular: https://bibilandia.co/planejamento-circular/

deck de tarô: https://bibilandia.co/decks-de-taro-da-bibilandia/

livro do murakami: https://amzn.to/4uxUUMV

Eu genuinamente acho que ter uma rotina é essencial para sentir segurança existencial. Acredito na rotina como uma forma de nos proporcionar um senso de pertencimento e acolhimento que nem sempre a gente encontra no mundo — especialmente do jeito que ele está configurado hoje, onde temos acesso a qualquer informação a qualquer momento.

Ao mesmo tempo, não sou nada fã do conceito de disciplina. E acho que existe uma linha muito tênue entre ter uma rotina e se autoexplorar.

Porque hoje, da forma como estamos vivendo, nós somos os nossos próprios capatazes. Precisamos performar produtividade para nos sentir aceitos e pertencentes ao modelo social e econômico em que estamos inseridos. O capitalismo, no estágio em que está, faz com que a gente mal precise de uma figura de autoridade para nos mandar. Nós estamos tão profundamente doutrinados — e tão envergonhados pelas nossas características mais humanas, como a necessidade de descanso — que acabamos nos autoinfligindo culpa, vergonha e uma disciplina surreal.

Hoje quero falar um pouco sobre como ter consistência de uma maneira anticapitalista.

A carta de hoje é o Oito de Terra (em outros baralhos, Oito de Ouros ou Oito de Pentáculos). Para mim, a palavra-chave dessa carta é consistência.

Ela é muito especial para mim, especialmente por causa deste projeto: ilustrar um tarot inteiro sozinha, sem experiência como ilustradora, sem saber usar o Procreate, começando tudo do zero. O projeto levou um ano inteiro para ser finalizado, mas ainda há um longo caminho pela frente — são 78 episódios, estou no 43, e ainda quero lançar um livro.

Manter consistência num projeto dessa magnitude, fazendo tudo sozinha — e com uma doença crônica — me exige dar-me constantemente a graça de entender que estou fazendo o meu melhor.

O Oito de Terra fala exatamente sobre isso: para você se tornar mestre em algo, para ser proficiente em uma habilidade ou reconhecido no seu ramo, você precisa de consistência mais do que de outros atributos.

Só que a consistência é muito mal interpretada por causa do viés neoliberal através do qual interpretamos o mundo. Fomos doutrinados dentro dele desde crianças.

Por mais que eu já tenha uma visão consolidada de como estabelecer uma rotina que gere segurança existencial sem me autoexplorar diariamente, confesso que é um trabalho ativo me tirar desse lugar de culpa e vergonha por não estar fazendo as coisas com o máximo de excelência que eu gostaria.

Existem pressões invisíveis — como a pressão social das redes sociais, que é difícil de explicar para nossos pais, por exemplo. Eles não acessam essa complexidade, assim como nós não acessamos algumas complexidades que eles enfrentaram. Essas diferenças geracionais criam ruído, mas também servem para validar você: você é um produto de muitas circunstâncias. Nem tudo que é difícil na sua vida é de sua exclusiva responsabilidade. Poucas coisas são, na verdade.

Eu falei antes que não gosto do conceito de disciplina. Pelo menos da forma como é interpretada no Ocidente, ela me parece muito artificial — algo militar: aparecer todos os dias, fazer a mesma coisa, não reclamar, não deixar os sentimentos interferirem.

Para mim, a disciplina está associada ao comportamento de uma máquina ou de um soldado. Por isso, desprezo um pouco esse conceito.

Uma das formas de criar uma rotina sustentável é conseguir encontrar prazer **no processo** de concluir nossas tarefas ou atingir nossas metas, em vez de contar apenas com o resultado.

Um livro que me ajudou muito a elaborar a ideia de consistência foi *Do que eu falo quando eu falo sobre corrida*, do Haruki Murakami. Tem uma frase simples que me gerou uma reflexão de anos:

O ritmo é muito mais importante do que a velocidade.

A palavra *ritmo* me pega num lugar muito positivo. Não é sobre ter uma cadência certa, mas sobre flexibilidade. Tem dias que meu ritmo está mais acelerado; outros, mais lento. Saber se flexibilizar aos acontecimentos da vida e à energia do nosso corpo é talvez o fator primordial para estabelecermos uma rotina anticapitalista, sem autoexploração.

Desde 2023, venho desenvolvendo o **planejamento circular**: um planejamento de execução intuitiva que nos permite respeitar esse ritmo e selecionar metas e ações sustentáveis ao longo do tempo.

Pessoalmente, gosto de trabalhar com uma meta por vez. Uma meta sustentável precisa ser possível dentro do tempo que estabelecemos para atingi-la. Depois de definida, selecionamos todas as ações que tenham o mínimo de coerência com ela.

É um exercício de focar no essencial. Você precisa mesmo de uma skincare de nove passos se seu objetivo é ter uma pele boa? Ou focar na alimentação e hidratação já resolve, ocupando menos tempo e sendo mais eficiente?

Executar um planejamento de forma intuitiva é saber ter presença suficiente para entender que sinais o corpo e a mente estão dando sobre o que conseguimos fazer hoje com o máximo de eficiência possível para nós.

Nos dias da fase lútea, meu corpo pede desaceleração. Num dia com visita em casa, sei que serei atravessada por estímulos fora da rotina. A intuição é um recurso mal utilizado — ela não é plenamente compreendida pela ciência, mas está aí. Quanto mais a usamos, mais refinada ela fica.

E o ponto que faz todo sentido com o Oito de Terra é este: precisamos encontrar prazer no processo.

Dentro do meu planejamento circular, preciso dedicar tempo às coisas que me fazem bem, ao que meu corpo e mente precisam. Tempo de qualidade com quem amo, priorizar o descanso. Quando permito que minhas emoções interfiram na rotina, estou resistindo a esse sistema que me quer anestesiado da minha humanidade.

Posso tirar um tempo para chorar, para conversar sobre frustrações. Não preciso engolir tudo em prol de performar produtividade surreal.

Os feedbacks mais positivos que recebo sobre o planejamento circular vêm de pessoas neurodivergentes. Muitas delas me dizem que é por causa dele que conseguem ter qualidade de vida e atingir objetivos. Uma pessoa passou na USP usando o método circular para estudar, e psicólogas já estão aplicando o método com seus pacientes.

Desenvolvi alguns materiais para ajudar as pessoas a implementar o planejamento circular — inclusive uma agenda física (até abril deste ano, só existia a versão digital). Também há um curso, um template do Notion e, claro, o meu baralho de tarô.

Para finalizar

Se você ouviu até aqui, agradeço demais pela presença, paciência e apoio ao meu trabalho.

Lembre-se: você é um ser complexo. Nem tudo que é difícil na sua vida é culpa sua. Mas construir uma rotina que faça sentido — com ritmo, direcionamento e prazer no processo — é um dos caminhos possíveis para uma vida mais satisfatória.

E, se mais ninguém te disser isso hoje: você já está fazendo o seu melhor. Pode confiar: a consistência vai te levar longe.

Até a próxima.

Com carinho,

Bibiana.

Read the original on bibianaterra.substack.com

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