tarô, planejamento circular e mais em bibilandia.co
Talvez você esteja doente porque você não é um filho da puta.
E tá tudo bem, que bom que você não é um filho da puta, sabe? Legal.
Mas hoje a gente precisa conversar sobre a correlação que existe entre aceitar desrespeito e ficar doente.
E aí eu vou avisar mais uma vez que isso aqui não é um artigo científico. Então, se você quer referências, se você quer aprofundar seu entendimento sobre o assunto, fica à vontade pra pesquisar. O Google tá aí. Pesquisa no Google ou no TikTok, talvez.
Mas esse vídeo é um compilado de muitas coisas que eu li — e eu não fico anotando tudo que eu leio. Eu leio bastante no Substack, leio bastantes artigos científicos, mas não fico anotando porque a minha intenção com esse canal não é promover conteúdo científico. É simplesmente falar sobre coisas em que eu tenho interesse e, claro, tentar ser responsável quando eu faço isso.
Eu tenho pensado bastante sobre esse assunto porque, desde criança, eu escuto muito a frase: *vaso ruim não quebra*. Aquela ideia de que as pessoas mais ruins, mais chatas ou mais maldosas vivem por muito tempo, e a gente precisa aturar elas, enquanto as pessoas boazinhas morrem cedo, né?
Ultimamente, eu tenho observado que eu — e quase todas as minhas amigas mulheres, especialmente aquelas que são boazinhas — temos doenças crônicas ou doenças autoimunes ou algo nesse sentido.
Aí, pensando nessa frase e nas doenças crônicas que nos acometem, resolvi criar esse episódio pra gente conversar sobre um assunto que me interessa muito: a psicologia da correlação ou linguagem do corpo. Não tenho certeza do quanto esse ramo da psicologia é validado cientificamente. Eu sei que muito desse entendimento está relacionado com a medicina egípcia — que naturalmente nós vamos descredibilizar um pouco aqui no Ocidente porque somos hipercolonizados e tudo mais.
Mas eu gosto desse assunto porque, na minha vida, ele sempre se prova verdadeiro.
Não só nossos corpos estão doentes, mas também nossas relações, nosso cotidiano. A gente tá adoecendo porque a gente tá aceitando desaforo de todos os lugares: desaforo do sistema, do chefe, dos homens. Nós naturalizamos tanto a filha da putagem que a gente não consegue mais nem reagir.
E aí parece que cada ano nossa saúde mental declina um pouco. Cada ano que passa a gente tem que rever nossas relações pra saber se tá valendo a pena o nosso esforço. Geralmente não — a depender, claro, da situação e relação — mas a gente continua ali mesmo assim porque a gente foi condicionado a aturar filha da putagem.
Voltando pra psicologia da correlação, eu quero contar rapidinho o que me levou a estudar esse tema.
Desde a minha adolescência, lá pelos 14 anos, até os meus 22, eu tive infecção na minha garganta, nas amígdalas, todos os anos da minha vida. Às vezes mais de uma vez por ano. E é um saco. Eu não entendia por que eu tinha isso todo ano.
Pesquisando algum livro sobre o assunto, encontrei *Linguagem do Corpo*. A autora falava sobre a correlação entre inflamação na garganta e não se sentir ouvida, não se sentir validada. Sentir que a sua voz não tem espaço, não tem poder.
Paralelamente a isso, dos 14 em diante eu estudei no colégio militar — onde a voz de um soldado não tem importância alguma — e depois voltei a morar com meus pais por um período. Na casa dos meus pais, eu realmente não sentia receber nenhum tipo de validação.
Foi só me mudar, sair da casa dos meus pais, que eu nunca mais tive dor de garganta. Nunca mais tive inflamação na garganta.
Aí a vida vai, a vida acontece. Voltei pra minha cidade natal pra morar com meu avô, com convívio muito próximo com ele e meus pais. E adivinha? Nos primeiros seis meses, tive uma inflamação na garganta. E de fato, tava encarando as mesmas dinâmicas de não me sentir ouvida, não me sentir importante, não me sentir vista.
Outra questão muito forte pra mim é a endometriose.
Para quem não sabe, a endometriose é uma doença que se assemelha muito ao câncer — as células se comportam de um jeito muito parecido. O entendimento até então é de que ela acontece quando o tecido do endométrio vai parar em outros lugares do corpo, tipo intestino, às vezes até pulmão. Mas descobertas recentes estão mudando bastante o que se sabe sobre endometriose.
Existem muitos estudos que correlacionam endometriose com traumas da infância. Segundo a psicologia da correlação, a endometriose acontece numa pessoa que não se sente acolhida pelo masculino, pelo pai, por uma figura paterna.
E eu achava isso muito estranho, porque eu sempre olhei para o meu pai como meu herói, como a pessoa que eu mais admiro no mundo. Só que, depois que você cresce, você começa a olhar para suas relações de novos ângulos. E eu comecei a perceber que talvez a admiração que meu pai tinha por mim era recíproca até o ponto em que eu era exatamente como ele. A partir do momento em que eu exercia minha autonomia, ela já não existia mais.
É normal. Não é um *shade* pro meu pai. É só que as relações são assim dentro do patriarcado, entre pais e filhas. É complicado.
Como eu falei, minhas amigas também quase todas têm uma série de questões: fibromialgia, ovários policísticos, endometriose também.
E eu acho — na verdade, eu não acho, isso é dado estatístico — que as mulheres compõem o grupo de 80 e tantos por cento (acho que 88%) das pessoas que têm doenças crônicas. E não dá pra olhar pra esse dado sem pensar na socialização feminina.
Nós somos ensinadas a aturar desconfortos, aturar desaforo, a ficarmos quietas em situações desagradáveis, a não expressarmos nossa raiva. E se expressamos nossa tristeza, ela precisa ser editada o suficiente para ser engolida pelos homens.
Mas eu também conheço muitos homens que têm doenças autoimunes ou crônicas. E, coincidentemente, eles compartilham desse perfil de aturar certos desconfortos, desaforos em prol da harmonia das relações.
Este episódio aqui é o episódio número 42, e a carta que escolheu esse tema pra nós foi o **Sete de Terra** (em muitos baralhos, Sete de Pentáculos ou Sete de Ouros).
Essa carta é regida por Touro e por Saturno. Só pela simbologia astrológica a gente já entende que estamos falando sobre autorresponsabilidade (Saturno), trabalho e resultados materiais (Touro).
Na maioria dos decks, o Sete de Terra tem a figura de uma pessoa analisando sua colheita. Alguém que já fez um plantio e agora está observando os resultados com uma expressão não muito feliz. Não está triste necessariamente, mas analisando.
O 7, no tarô, fala sobre autoanálise, autoaperfeiçoamento. E o elemento Terra (ou ouros, ou pentáculos) faz referência a tudo aquilo que é material: finanças, trabalho, mas também saúde física, saúde das nossas relações, saúde daquilo em que a gente está investindo nossos recursos — não só dinheiro, mas tempo, presença, energia.
Por mais doloroso que seja, é importante a gente, de vez em quando, analisar se aquilo em que estamos investindo está nos dando resultados que fazem sentido pra nós.
- Ainda faz sentido eu manter essa pessoa na minha vida, sendo que ela sempre me coloca pra baixo?
- Ainda faz sentido eu estar no lugar onde eu estou, mesmo quando não me sinto vista, validada?
- Ainda faz sentido eu trabalhar com o que eu trabalho, se nem um salário bom eu tô recebendo e ainda tô me estressando além da conta?
Essas perguntas são desconfortáveis porque, muitas vezes, a resposta é **não**. E aí a gente precisa tomar atitudes coerentes pra criar oportunidades diferentes. Isso não é fácil.
Só que ficar nessa situação, dizer sim pra um negócio que não tá fazendo sentido, com mais frequência do que a gente acredita, vai virar uma doença. Física, mental ou — pra quem acredita — espiritual até.
O nosso corpo fala com a gente muito mais do que a gente consegue perceber, porque a gente tá muito desconectado. A gente tá tão num estado caótico das coisas, com notícias horrorosas, anestesiado pelo scroll do celular, desconectado das nossas próprias necessidades e da nossa própria verdade. Muitas vezes a gente só interpreta os sinais do corpo como uma inconveniência.
- *Putz, que inconveniente eu ter que parar tudo uma vez por mês porque minha endometriose tá atacando.*
- *Que inconveniente sentir dor de garganta, difícil comer, difícil respirar.*
Mas talvez seja o meu corpo me falando: *”Você não tá sendo ouvido aqui. Procure outro lugar pra se expressar.”*
Tem alguma doença ou dor recorrente que você nunca parou pra pensar: *será que isso é um sinal?*
Não são só as nossas relações interpessoais que nos adoecem. A gente vive num sistema em que constantemente precisamos engolir nossas dores, nossas frustrações pra ir performar, ir trabalhar, ir deixar um bilionário mais rico.
O capitalismo reforça muito essa ideia de que, pra merecer, a gente precisa aguentar. E essa lógica começa antes, com o patriarcado: você não pode demonstrar que tá doendo, que tá insatisfeito, porque isso seria incorporar características do pior ser do planeta Terra (a mulher). O patriarcado interpreta a sensibilidade feminina — essa capacidade de perceber — como fraqueza, sendo que ela é justamente o que nos tornaria mais aversivos a essas formas de abuso.
Parece que a gente tá vivendo numa rodinha de hamster o tempo inteiro e que é impossível sair dela. Mas existem formas de pelo menos desacelerar essa rodinha e conseguir, de vez em quando, aproveitar outras coisas dentro dessa nossa gaiola capitalista.
Ai, que tristeza, bicho. Eu adoraria falar “larga tudo, vai viver pelo lado do mato”, mas acho que isso seria só outra forma de isolamento. Mas se quiser também, vai lá e me avisa depois como foi.
Uma forma que eu encontrei pra lidar com essa pressão de performar o tempo inteiro e pra me reconectar com meu corpo e minhas necessidades foi o **planejamento circular**.
Pra uma pessoa com doença crônica, a produtividade costuma ser pintada como algo linear: todos os dias eu apareço, faço meu trabalho, vou embora, vou pra academia, etc. Mas nós somos seres muito mais complexos do que isso.
Um ser humano saudável é um ser humano que socializa, que tem conexões comunitárias, que recebe apoio quando precisa, que se sente ouvido. Porque a saúde não acontece só no corpo físico — ela é holística.
O planejamento circular nos lembra disso. É literalmente um círculo com uma meta no centro (pode ser “ser mais feliz”, por exemplo). Ao redor, a gente lista todas as atividades importantes pra se sentir emocional, física e financeiramente satisfeito. Entra o trabalho, sim, mas também atividades restaurativas, criativas.
Ser consistente dentro de um sistema circular é acessar **pelo menos uma** dessas atividades por dia. Não é sobre seguir uma lista gigantesca e desistir no dia seguinte.
Pra mim, que tenho endometriose, é só porque sigo o planejamento circular que consigo tirar um dia ou dois pra só sentir dor. Quando eu não seguia, eu ia trabalhar morrendo de dor, dopada de remédio. Eu não podia faltar todo mês. Eu tive que readaptar minha vida inteira. Largar empregos, desistir de algumas coisas.
Financeiramente, eu poderia estar melhor se tivesse seguido outros caminhos. Mas pra mim, o sucesso tem muito mais a ver com **como eu me sinto** e **o quanto eu me respeito**.
E eu acredito que isso faz toda a diferença na relação que eu tenho com viver nesse mundo tão difícil. Eu ainda consigo ser positiva, otimista e genuinamente gostar da minha vida.
É difícil perceber certas coisas e admiti-las pra nós mesmas porque elas exigem que a gente mude de postura. Eu preciso ser mais assertiva em certas relações. Preciso estabelecer e sustentar mais limites em outras. E essas coisas não são fáceis quando você esteve uma vida inteira condicionada a aceitar desaforo.
Mas reconhecer isso, analisar nossos resultados e avaliar se tá valendo a pena é um passo necessário pra gente chegar num lugar mais satisfatório.
E aí, o que você pensa sobre esse assunto? De que forma você pode se adaptar pra respeitar um pouco melhor seu corpo e sua mente?
Me conta nos comentários.
Com amor,
Bibiana

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