⭐ CLUBE DO TARÔ: https://bibilandia.co/clube-do-tarot-2/
⭐ MEU DECK DE TARÔ: https://bibilandia.co/product/deck-de-taro-bibilandia-bookbox/
⭐ CLUBE + DECK: https://bibilandia.co/product/clube-do-taro-deck-de-taro-bibilandia-bookbox/
Tem uma escritora gaúcha, o nome dela é Lya Luft, que tem uma das frases mais geniais que eu já ouvi, e com certeza você já ouviu por aí também. A frase é: “A infância é o chão em que a gente pisa a vida inteira.”
Essa frase foi uma das coisas que inspirou a ilustração desta carta aqui, Criança de Terra. Que seria, nos baralhos de tarô mais tradicionais, o Pagem de Pentáculos ou Pagem de Ouros. Hoje a gente vai falar um pouco sobre essa frase e sobre essa carta.
Oi, se você não me conhece, meu nome é Bibiana. Se você me conhece, meu nome continua sendo Bibiana, na verdade. Mas, boas-vindas. Eu espero que você esteja confortável aí.
Eu tô fazendo um projeto, através do meu podcast, em que eu ilustro uma carta de tarot e uso ela como plano de fundo para gravar um episódio sobre um assunto que eu acho pertinente, assim, a carta. E a Criança de Terra é o tema da vez. Se você quiser conhecer o resto do meu baralho, tem episódio sobre quase todas as cartas já postadas aqui no meu podcast. Você pode acompanhar ele pelo Substack, pelo YouTube, ou por qualquer plataforma de podcast, na verdade, Spotify, Apple, Amazon, Deezer. E você pode comprar o meu baralho também no meu site, bibilandia.co.
Quando eu era criança, uma das poucas vezes que eu não me comportei foi quando eu peguei o batom da minha mãe e desenhei, fiz um desenho na parede do banheiro. A parede do banheiro da nossa casa não era pintada, sabe? Eu acho que ela era só rebocada. Então o desenho ficou, tipo, era impossível de tirar ele da parede. Apesar de eu não me lembrar como a minha mãe reagiu a essa arte manha, porque eu acho que nessa época eu morava só com a minha mãe, não lembro muito bem. Meu pai, eu sei que ele morou um tempo fora. Enfim, pra trabalhar.
E o que eu lembro da minha infância, assim, desses primeiros momentos da minha infância, é a minha mãe. Eu não lembro muito de interações com outros adultos, assim. Mas eu lembro também que, mais ou menos na mesma época, eu peguei o batom dela, não sei se era o mesmo batom, e passei ele na minha boca. E ela obviamente notou, eu guardei o batom de volta, ela obviamente notou, porque eu tava com a boca toda batonzada. E ela me perguntou se eu tinha pego o batom dela. Eu falei que não, não peguei. Na maior cara de pau, com a boca toda cheia de batom.
Então, essa vez eu lembro, ela começou a gritar e a falar que eu era uma mentirosa. Que eu era… Enfim, ela começou a colocar muitos rótulos em mim, né? Falar que eu era mentirosa, que eu era um monstro, que ela não acreditava que a filha que ela criou pudesse mentir dessa maneira e tal. E aquilo me marcou pra sempre, né? Como você pode ver, essa é uma das coisas mais antigas que eu vivi, que eu me lembro. E eu acho que eu cresci acreditando no que os adultos, no geral, me diziam, sabe? Eu cresci acreditando nos rótulos que eles colocavam em mim.
Por isso a frase da Lia Luft, “a infância é o chão em que você pisa a vida inteira”, ela é muito forte para mim e eu acho que para qualquer pessoa que consegue estabelecer paralelos entre uma experiência da infância e um comportamento que você tem hoje.
Por exemplo, quando eu fui chamada de mentirosa, eu comecei a usar a mentira como uma forma de evitar estar exatamente nesse lugar de ser pega como uma mentirosa e ser punida por isso. Então, eu tinha mais medo de repetir a dose dessa experiência do que eu tinha conforto em falar a verdade. Aconteceu que eu assumi esse rótulo. E não que eu fosse uma pessoa mentirosa, sabe, mitomaníaca nem nada do tipo. Mas quando eu fazia algo errado, meu primeiro instinto era mentir. Meu primeiro instinto era: vou tentar evitar ao máximo e aí tentar encobrir os rastros. O que sempre foi muito difícil, eu sempre fui pega. Nunca saí ilesa de uma mentira. Demorou assim até eu aprender que, ah tá, talvez a mentira não seja o melhor caminho mesmo. Porque eu sempre era pega.
E aí já adulta que eu precisei desconstruir a minha relação com a mentira. Eu não mentia para pessoas de quem eu não tinha medo. Eu só mentia, acho que só para os meus pais mesmo. Foram as únicas pessoas para as quais eu menti ao longo da minha vida. E menti mesmo, me arrependo hoje, porque eu acho que a verdade teria me libertado muito mais cedo. E com verdade, eu quero dizer também, decepcionar eles. Eu acho que se eu tivesse decepcionado os meus pais mais cedo, com a minha verdade, em ser quem eu era, em fazer coisas que eles não aprovavam e mesmo assim falar a verdade, eu acho que eu teria me libertado muito mais cedo da necessidade de aprovação e acolhimento que eu tenho deles.
Eu acho que todo mundo quer ser acolhido pelos pais, é uma coisa muito natural. Mas também acho que para algumas pessoas, e acredito que esse seja o meu caso, essa necessidade de aprovação e acolhimento é o que atrasa as nossas vidas, sabe? Em alguns casos eu acho que isso é verdade também.
Essa carta pra mim é uma carta que tem um peso muito pessoal, assim como o 8 de terra também. Eu já tenho um episódio sobre ele aqui.
Além de tudo, além de toda essa experiência, eu ilustrei esse menininho aqui como sendo a criança, né? Do naipe de terra, de pentáculos. E essa criança é uma representação da criança que eu perdi. Eu sofri um aborto uns anos atrás. Tem um episódio falando sobre isso também, não vou repetir a história aqui. Mas eu acho que perder esse filho foi também a perda da possibilidade de eu ser uma mãe que acolhe ao invés de ser uma mãe que julga e rotula, sabe? Não que eu não possa ter essa oportunidade no futuro, mas o luto de perder um filho envolve muitas coisas. Ele é um processo muito denso e cheio de camadas e essa é só uma delas.
Eu acho que muitas pessoas sentem isso. Eu tinha um desejo de me provar uma mãe, e eu não digo melhor, mas uma mãe capaz de fazer as coisas de um jeito diferente. E com certeza, assim como a minha mãe esbarrou e a mãe dela antes dela esbarrou, eu também esbarraria na percepção de que é impossível ser uma mãe perfeita e é impossível fazer as coisas do jeito certo. A gente nunca sabe as reais consequências daquilo que a gente tá escolhendo ou das formas como a gente tá reagindo até elas chegarem, né?
No meu caso, a consequência de viver sendo rotulada como alguém com quem havia algo profundamente errado quando eu não estava adequada ao que se esperava de mim foi uma barreira emocional. Eu tive que criar uma barreira emocional para não precisar ligar para o que os meus pais pensavam de mim. Só que no fundo eu continuei ligando. Eu só performava essa barreira emocional e acabei afastando, por um período, né? Possibilidades de me conectar de uma forma genuína com eles. Acho que isso também aconteceu, né? Uma via de mão dupla. Eu, como criança, adolescente, não tinha repertório emocional suficiente pra entender o que eu tava fazendo ou a forma como eles reagiam ou não ao que eu tava fazendo.
Mas não são só as experiências que nos marcaram negativamente que compõem o alicerce do nosso caminho enquanto adultos. As experiências positivas também nos acompanham e uma das formas mais eficientes que pra mim funciona, né? Quando eu me sinto perdida na vida, é voltar pra minha infância. É olhar pra trás e lembrar do que me fazia genuinamente feliz. Quando eu me sinto perdida, ao invés de tentar descobrir o futuro desconhecido, eu olho pro passado e lembro. Lembro o que era essencial pra mim, o que me fazia sentir entusiasmo. Ainda que eu não possa reproduzir isso com a mesma inocência ou com a mesma postura, tipo infantil mesmo, eu posso adaptar essas atividades ou os pensamentos que eu tinha, a criatividade que eu tinha, pro contexto em que eu vivo hoje.
E aí, olhando pra trás, eu lembro que eu gostava de desenhar e escrever. Eu gostava mais de escrever quando eu era criança, pra ser sincera, mas eu acho que o desenho é uma coisa que está sempre presente na infância. Dificilmente você foi uma criança que não teve contato com esse tipo de expressão. Porque geralmente é incentivado na escola. E eu não sei se é uma coisa natural. Sinceramente, não tenho conhecimento suficiente para falar sobre afirmar, fazer essa afirmação. Mas eu acho que é uma coisa que encanta a grande maioria das crianças.
E talvez a razão… Bom, eu não posso falar sobre a razão para todas as pessoas, mas para mim, desenhar é um pouco sobre, e sempre foi um pouco sobre, eu poder reproduzir algo que eu já conheço, só que de um jeito que é só meu, sabe? Escrever também. Para mim, escrever sempre foi sobre isso. Eu tenho uma pira desde criança que eu penso, mano, como pode que existe uma quantidade limitada de palavras no mundo, né? E como pode que existem tantos livros que os escritores e as escritoras arranjam as palavras de tal forma, né? Combinam as palavras de formas novas toda vez. Toda vez que eles vão escrever um livro, sabe? Eu tinha muito essa pira e eu acho que com o desenho é a mesma coisa. Com o desenho ou com qualquer forma de arte. Tipo, como pode que os seres humanos conseguem sempre colocar algo próprio ali e aquilo se tornar diferente. Mesmo que seja igual a algo que já existe.
A Criança de Terra, ela é regida por Capricórnio. E eu acho que as crianças que são regidas por signos de terra, mesmo, Capricórnio, Virgem, Touro, ou por Aquário, ou por Saturno de modo geral. Então, Aquário também entra aí. São crianças, foram crianças que sentiram um peso de responsabilidade muito cedo, sabe? O peso do mundo muito cedo.
E quando eu falo de astrologia aqui, eu quero lembrar que essa é só uma linguagem, tá? Não é que você tem esse signo e, portanto, você sente essas coisas. Astrologia é só uma linguagem que reflete uma observação de padrões. Eu gosto sempre de lembrar disso porque ela não é uma pseudociência de causa e efeito, ela nunca se propôs a ser uma ciência, ela é muito anterior à ciência, enfim.
Quando você é uma criança que sente o peso do mundo, que olha para os teus pais lutando para manter uma casa, para manter as finanças em dia, quando você sente isso e percebe o quanto é difícil, quando você sente responsabilidade de regular as emoções dos teus pais, da tua mãe, do teu pai, do teu irmão, quando você assume responsabilidades muito cedo… Fica muito difícil brincar. Fica muito difícil sentir prazer com aquilo que é lúdico.
Eu lembro que eu encontrava esse prazer quando eu conseguia me desfazer de todas as camadas de autorresponsabilidade e de autoflagelo também. Então, pra mim, era sempre um momento muito especial. Eu tenho uma memória também de infância em que eu tava correndo e eu não sentia o meu corpo. Eu sentia como se eu fosse… Não sei explicar muito bem, eu sentia como se eu fosse puro ar e eu tava correndo e quando eu parava de correr eu voltava a sentir meu corpo, mas quando eu voltava a correr eu não me sentia mais. Esses pequenos momentos que duravam segundos, ou segundos, os minutos em que eu tava escrevendo uma poesia, eu escrevia muita poesia quando era criança, eram os segundos em que eu encontrava alguma paz mental, eu acho.
De resto, meu cérebro tava sempre num modo de alerta, assim, e eu acho que essa é uma experiência muito comum pra quem assumiu essas responsabilidades muito cedo, né, assumiu ou percebeu o peso do mundo muito cedo.
Eu lembro também que eu achava as outras crianças meio bobas. Eu achava os interesses delas, assim, idiotas. E eu não respeitava muito elas, porque eu achava que eu entendia muito do mundo, né? E eu acho que por isso eu me sentia mais velha. Eu me sentia de alguma forma superior. Obviamente, não me orgulho disso.
E hoje, adulta, eu acho que através do desenho mesmo, eu tento resgatar uma parte da minha infância que foi muito pequena. Foi muito pequena. Esses momentos em que eu desenhava, em que eu fazia uma arte, uma façanha, em que eu corria e não me sentia, esses momentos eram muito raros pra mim. Pelo menos essa é a lembrança que eu tenho. Era como encontrar um tesouro, sabe? E não acontecia todos os dias. O resto do tempo eu sinto que eu mais performava a infância do que vivia ela.
E voltar pra isso hoje, voltar a desenhar e criar momentos de intenção pra me conectar com essas coisas é difícil até. É difícil, depois que eu começo fica ótimo, mas no começo é difícil. Até eu entrar num estado de fluxo é difícil, porque envolve, eu acho que, vergonha. Envolve vergonha você querer se conectar com uma parte de você que nunca foi talvez incentivada ou validada.
Eu acho que o meu problema com a minha infância, a minha dor com a minha infância é que eu nunca fui permitida ser uma criança. Eu não era permitida errar. Eu não era permitida mentir, por exemplo, e aprender com a minha mentira. Eu já tinha que ter sabido que a minha mentira era algo errado. Eu não era permitida sentir raiva ou gritar com outra criança porque isso refletia que os adultos que me criaram, me criaram errado. Então, eu tinha que carregar essa responsabilidade de ser a criança que é perfeita pra refletir que os meus pais eram perfeitos também, sabe? E de fato, os meus pais, no geral, eles são muito perfeitos. As pessoas enxergam eles dessa forma. Então, pra mim sempre foi um peso muito grande ser a continuação deles, sabe? Talvez por isso eu queira tanto me afastar da imagem deles através das tatuagens ou do meu jeito de me vestir. Isso sempre esteve presente, assim, eu querer parecer diferente.
E sabe, o lado ruim de gravar um episódio sem ter um roteiro prévio, sem escrever um roteiro, sem saber muito bem pra onde eu queria ir com esse episódio, é justamente não saber pra onde eu queria ir com ele. É não saber como fechar ele ou não ter uma moral, uma lição de moral pra passar através dele ou uma conclusão, sabe? Na qual eu queria chegar.
Por outro lado, a parte boa de gravar um episódio sem roteiro, de ligar a câmera e só falar sem filtro e só ser honesta comigo enquanto eu tô aqui nesse momento intencional de falar as coisas que eu penso, é encontrar novas formas de elaborar. Eu acho que eu nunca escrevi sobre isso que eu tô falando hoje aqui. Eu acho que eu nunca tinha elaborado essas coisas dessa forma. Talvez daqui a um tempo, quando eu vá falar de novo sobre isso ou escrever sobre isso, eu tenha outras abordagens, sabe? É normal, eu acho. É normal que a gente vá reconstruindo a narrativa da nossa vida pra se adaptar a elas. Agora na fase adulta, as novas fases que ela tem. Acho que isso é bem comum, não sei, talvez seja uma experiência minha também, não sei, mas eu acho que nem uma experiência individual, então talvez seja algo que muitas pessoas fazem.
Eu constantemente tô reconstruindo ou reescrevendo ou revisitando a minha história e lembrando de coisas que aconteceram nela e que hoje são o chão que eu piso pra ser quem eu sou. Tem muitos momentos que eu me pego tendo uma atitude e eu fico: da onde tá vindo isso? Da onde tá vindo essa necessidade? E aí, num momento aleatório do dia, eu tenho uma lembrança que eu não visitava há muitos anos. Ou que tava bloqueada no meu cérebro. E eu fico: ah, é dali. É dessa experiência.
No tarô, a Criança de Terra, ela me provoca nesse lugar de me lembrar que quando eu dou um passo numa direção intencional, eu tô sendo muito mais eficiente do que quando eu dou dez passos pra qualquer direção. Eu já falei isso em muitos outros episódios. Mas a Criança de Terra pra mim é um pouco sobre isso. Ela é sobre você se tocar, talvez, de que as coisas não precisam ser feitas de um jeito rápido só porque o mundo virtualmente exige isso. As coisas precisam ser feitas de um jeito que atenda as nossas necessidades, de um jeito que seja satisfatório de uma certa forma.
Então, talvez, e assim, eu nem preciso saber exatamente onde eu quero chegar. Eu acho que nossos sonhos, nossos planos, eles vão naturalmente mudando e se adaptando conforme a gente vai vivendo. Não acho que exista uma linha de chegada que a gente precisa conhecer, sabe? Então dar um passo na direção certa não necessariamente é saber exatamente pra onde eu tô indo e fazer algo alinhado com essa linha de chegada. Mas é sobre buscar aquilo que tá atendendo as nossas necessidades.
Por exemplo, hoje dar um passo na direção certa pode ser comer algo que me faça sentir acolhida, sabe? Uma comfort food, assim, pra relaxar o meu sistema nervoso. Pra você, hoje, dar um passo na direção certa, pode ser arrumar o teu quarto, eu não sei.
Mas, no geral, eu gosto e me identifico muito com o naipe de terra, ou de ouros, de pentáculos, do tarot, por causa disso. Porque ele me lembra de desacelerar e me reconectar com o meu corpo mesmo. Com o meu corpo e com as necessidades dele. Como que eu tô me sentindo hoje? Do que eu preciso hoje? Física e materialmente falando, do que eu preciso hoje. Aí eu vou alinhando o meu caminho com isso, com o atendimento dessa necessidade.
Geralmente, quando eu me perco, como eu falei antes, eu volto o meu olhar para o passado, para a infância. E tento lembrar do que a minha criança precisou. E até me lembrar do que ela não teve. Pra que eu possa entregar isso pra ela hoje.
Esse foi um episódio que foi mais desabafo do que qualquer outra coisa. Então eu espero que você tenha conseguido se identificar. Ou pelo menos construir um paralelo com a tua vida de um modo satisfatório ou útil.
E agradeço. Se você ouviu até aqui, agradeço de coração mesmo. Obrigada por estar aqui.
Num geral, eu sou hoje a criança que eu não fui. Eu desenho coisas. Se você quiser consumir essas coisas que eu desenho, elas estão todas no meu site bibilandia.com. Lá tem um livro de quadrinhos que eu publiquei esse ano, em 2026. E tem também o meu tarot. E tem também alguns outros produtos, tipo um curso de tarot onde eu te ensino a ler ele através da abordagem na violência.
Enfim, tenha um ótimo dia, noite, semana, mês, vida. Até mais.

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.