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Beleza, o capitalismo é uma merda, o patriarcado é uma merda, mas o que fazer para a nossa vida ser menos merda dentro destas grandes merdas? É sobre isso que vai ser o episódio de hoje.
Oi, meu nome é Bibiana, boas-vindas ou boas-vindas de volta. Este aqui é um projeto em que eu estou fazendo um episódio sobre ou usando cada um dos 78 Arcanos do Tarot. E o arcano da vez é o adulto de terra, ou o cavaleiro de ouros, o cavaleiro de pentáculos nos baralhos mais tradicionais. Esse baralho aqui fui eu que desenhei, e você encontra episódios sobre todas as cartas, quase, porque eu ainda estou produzindo o podcast, aqui no meu canal.
Eu começo dizendo que o capitalismo, mas o patriarcado também, ele envenena o prazer. O capitalismo envenena o prazer para todo mundo e o patriarcado em especial para as mulheres.
O capitalismo, o que ele faz é transformar tudo aquilo que nos causa o mínimo de satisfação em trabalho ou produto. Então a gente começa a evitar o prazer para ser produtivo o suficiente, para ter lucro o suficiente, para ter o básico. Nesse estágio do capitalismo, a gente já não está mais vivendo uma vida em que a maioria das pessoas, no caso, tá buscando uma vida luxuosa, confortável. Hoje em dia, as pessoas só tão buscando o básico, porque o básico não tá sendo garantido pra elas. Então, tudo aquilo que a gente faz ou fazia pra sentir prazer, precisa ser eliminado da nossa rotina ou precisa virar trabalho pra que a gente consiga sobreviver nesse mundo.
Se a gente pega o recorte feminino, o recorte de gênero, aqui a gente tem uma camada a mais ainda, porque atualmente as mulheres, de forma geral, também trabalham, elas também trabalham e elas continuaram, elas seguiram carregando o ônus da maternidade e o ônus do casamento, mesmo não estando em casamentos oficialmente. Então, continua sendo tarefa primordialmente da mulher cuidar da casa ou estar atenta às necessidades da casa, mesmo que o parceiro ajude em casa, com a limpeza e tudo, geralmente é a mulher que tem que ficar apontando o que tem que ser feito, o que gera uma carga mental absurda.
Tem dois livros que eu recomendo muito sobre isso, os dois são da Marcela Ceribelli, Sintomas e Aurora. A Marcela consegue conversar com a nossa geração com bastante eficiência.
Enfim, eu acho que desde crianças as meninas têm culturalmente um peso de responsabilidade associado às suas brincadeiras, né, também. E as meninas, elas param de brincar mais cedo. É ridícula uma menina de 12 anos que ainda brinca de boneca, mas tudo bem um menino de 17 anos que ainda joga LOL, sei lá, 8 horas por dia no computador dele. A gente tem um peso de julgamento muito maior sobre as mulheres. Tem mesmo. Mesmo que você seja um homem desconstruído, ou mesmo que na tua família as coisas tenham sido diferentes, ainda assim, o machismo internalizado está em todos nós. E eu acho que as maiores julgadoras das mulheres somos nós próprias, individualmente.
Nunca vi um ser que se julga tanto quanto uma mulher. Por quê? Porque ela tem que estar hipervigilante sobre o seu próprio descanso, sobre a sua própria produtividade, para evitar ser julgada pelo externo. E, surpresa, ela ainda vai ser julgada pelo externo.
A mulher tem uma carga mental que os homens, eu acho que dificilmente vão experienciar da mesma maneira. De novo, mesmo que a sua vida como homem seja super difícil, mesmo que você conheça mulheres que têm outros tipos de realidade, a carga mental feminina é real porque ela está associada a muitas camadas de hipervigilância. É só você pesquisar sobre, por exemplo, para onde as mulheres olham. Existem estudos recentes muito interessantes sobre isso. Onde as mulheres e os homens olham. Quando uma mulher está, sei lá, chegando na universidade, ela está hiper vigilante, mesmo sem ter motivo. Ela está olhando para todos os pontos em que poderia haver um homem escondido ou um homem esperando, assim, na espreita. Pra atacar ela. Isso, eu tô citando chulamente o estudo, tá? Não tô inventando essa informação. Ah, qual é o nome do estudo? Não vou mencionar aqui, vai procurar. Os homens não, eles só olham o caminho que eles têm que fazer. Tipo, ah, cheguei na universidade, quero ir até a sala 3. Vou até a sala 3. A mulher, ela tá assim, constantemente. Mesmo que ela não esteja olhando constantemente, ela tá o tempo inteiro numa situação mesmo de sobrevivência, sabe?
E aí, eu não sei se eu tenho como explicar pros homens o quanto isso cansa o nosso corpo e a nossa mente? O quanto é cansativo você estar o tempo inteiro no estado de sobrevivência? Eu imagino que se a gente for pegar o sistema nervoso de presas e de predadores, a gente vai notar diferenças significativas nesses dois sistemas nervosos. Eu nunca li sobre isso e agora eu fiquei curiosa pra ler, mas não vou pesquisar agora porque eu tô com preguiça. Mas eu acho que é um pouco isso, sabe? O sistema nervoso da mulher, ele vai ser programado pra estar atento. Essa é uma condição na qual nós somos colocadas, né? A natureza, eu não acho que na natureza nós sejamos presas, eu acho que nós somos presas, sócio e culturalmente falando.
Estou falando tudo isso para dizer que, muito embora eu reconheça que o capitalismo envenena o prazer de todos nós, existe uma camada ou talvez várias camadas a mais na experiência feminina, de modo geral. Porque é mais raro você pensar em uma mulher que você conheça que consiga se dar prazer sem sentir vergonha por isso. Você consegue pensar em cinco mulheres que façam isso? Eu literalmente não consigo. Eu não sei se eu consigo pensar em uma. Genuinamente eu não sei se eu consigo pensar em uma que eu, com quem eu conviva, que consegue se dar prazer sem sentir vergonha por isso. Qualquer tipo de prazer. Comer, descansar, sexo, qualquer tipo de prazer. Jogar alguma coisinha sem estar preocupada com o trabalho ou com a casa ou com qualquer outra coisa assim é bem difícil.
Em contrapartida, eu consigo pensar em vários homens que conseguem desligar a cabeça do trabalho e sentir prazer com alguma coisa. Qualquer dessas coisas que eu citei e outras ainda.
A culpa, ela tá incutida em toda a atividade desempenhada pela mulher que não seja uma atividade de serviço. E a gente aprende isso muito cedo enquanto meninas. E a gente carrega essa culpa pra sempre. Porque essa culpa é o sentimento que, em teoria, né? Vai nos impedir de sentir vergonha. Porque a vergonha, enfim, a vergonha é o sentimento paralisante, né? Então, a gente acaba alimentando essa culpa, tipo, eu não posso fazer isso, eu não posso fazer aquilo, eu não vou descansar por muito tempo, porque senão, não sei o que, não sei o que. A gente vai alimentando essa culpa para evitar o sentimento de vergonha. Mas geralmente a vergonha chega por quê? Porque a culpa não é suficiente para que as nossas necessidades físicas, biológicas, emocionais, psicológicas sejam atendidas. Então eventualmente a gente acaba quebrando, né? A gente tem um burnout ou a gente entra em shutdown. A mulher cansa. Em algum momento a mulher cansa, e aí ou ela para de performar os traços de feminilidade e vira a baranga do rolê da família, ou ela é a louca, ou ela tem a sorte de ter um sistema familiar, ou um relacionamento, ou um grupo de amigas que conseguem segurar ela durante esse momento. Só que aí a gente sai desse momento e volta pra essa mesma rodinha de hamster.
Também tem o envenenamento do prazer sexual mesmo. Tanto pela culpa pra mulher, quanto pelo consumo pro homem. Eu acho que os homens se sentem muito confortáveis, de modo geral, né? Se sentem muito confortáveis em consumir seres humanos, consumir mulheres, consumir pornô, consumir qualquer coisa de natureza sexual, como se fosse um produto mesmo. E não como se a gente estivesse lidando com a vida, com a expressão de um ser humano que tá ali do outro lado da tela ou na sua frente, sabe? Eu acho que o capitalismo e o patriarcado mesmo, né? Porque o patriarcado é quem nos dá essa lente pra olhar pras mulheres como objetos ou como, enfim, como algo desumanizado, né? O capitalismo e o patriarcado, eles envenenam o prazer nesse sentido, eles nos fazem perder a capacidade de criar uma conexão e de sentir prazer na conexão, sabe?
E aí, quando eu falo sobre isso, muitas feministas liberais, que aliás eu não respeito, então não me importo muito, vêm me falar que eu sou conservadora, né? “Ai, porque você é conservadora, a mulher pode transar com o que ela quiser, pode fazer o que ela quiser com o corpo dela.” Sim, mas o que ela quer está a serviço de quem ou do quê? O que essa mulher quer, o tipo de prazer ou de relacionamento que ela está buscando, de relação que ela está buscando, não está a serviço do capital, será? Porque essa é a impressão que eu tenho. A impressão que eu tenho quando você se coloca numa situação de vulnerabilidade física e emocional só pra transar? Seja você homem ou mulher. Eu não sei se eu encaro isso como prazer, sabe? Eu encaro mais como... Enfim... Pra mim é mais consumo mesmo do que qualquer outra coisa. Mas claro, a gente pode sentir prazer com atividades físicas e a gente pode encarar o sexo dessa maneira. Com certeza, aí é uma questão mais pessoal do que qualquer outra coisa.
Eu só fico com um pé atrás com esse tema e com o prazer sexual mesmo porque eu, e aqui deixa eu deixar muito claro que eu tô falando da minha experiência pessoal, da minha individualidade, eu não consigo me vulnerabilizar para alguém a ponto de beijar essa pessoa ou fazer qualquer outra coisa física com essa pessoa, a não ser que eu sinta que eu estou emocionalmente segura. Então, eu sei que eu não posso generalizar a experiência do outro a partir da minha, mas eu me questiono em relação a isso porque para mim parece que muitas vezes o prazer sexual, da forma como os homens buscam e da forma como algumas mulheres estão dispostas a entregar ou vender para esses homens, tá a serviço do capitalismo e só, sabe? Não tá a serviço da humanidade deles nem delas.
Enfim, aí eu falo, falo, falo de capitalismo e patriarcado e eu gosto quando eu tenho tempo pra propor alguma solução e eu claramente não estão me dando muito bem com o meu cabelo hoje. Eu já tenho vários vídeos propondo algumas práticas antipatriarcais, anticapitalistas, mas eu acho que esse vídeo é uma oportunidade de concentrar elas justamente por conta da carta tema desse vídeo, que é o adulto de terra.
Ele é regido por virgem, e pra mim ele representa um adulto, uma pessoa, no caso, que ficou adulta do jeito certo. Tipo assim, é uma pessoa que anda no seu próprio ritmo e que não tá à mercê de fatores ou de pressões externas pra continuar caminhando. É uma pessoa que sabe que vai ter que colocar o trabalho necessário pra atingir certas finalidades e faz isso com cuidado, sabe? Fazer isso com alto respeito e respeito às pessoas que estão circulando, atravessando a vida dele. Eu gosto muito dessa carta, principalmente por conta da consciência, do cuidado mesmo, com que essa pessoa ou esse arquétipo nos incentiva a buscar nossos objetivos.
Eu acho que o adulto de terra ele representa a exclusão da pressa do nosso caminho. Quando a gente tira a pressa e aquele falso senso de urgência, que, como eu falei antes, para as mulheres pode estar atrelado a essa culpa, a essa vergonha de descansar, de desfrutar de alguma coisa. Quando a gente remove isso, a gente consegue enxergar, sentir e experienciar o caminho que a gente está trilhando. Eu acho que essa é a grande mensagem da carta.
E pra mim, uma das coisas mais revolucionárias que você pode fazer é experienciar o teu próprio caminho, ao invés de ficar hipervigilante pra saber se você tá certo nele ou não. Então, como tornar este mundo que é muito merda, menos merda individualmente, na minha opinião, tem a ver com desacelerar.
E quando eu falo desacelerar, eu não estou falando sobre viver as coisas com calma, falar namastê e gratidão para tudo, beber um chá ao invés de beber um café. Não estou falando disso. Eu estou falando mais sobre aprender a ouvir nosso corpo e aprender a respeitar e confiar no que ele está nos falando. “Hoje eu estou muito cansado, mas eu deveria ir para a academia. Será que deveria? Será que esse cansaço não é um sintoma de várias coisas que vem se acumulando há muito tempo? E se você descansar hoje, isso vai ser muito mais produtivo para a construção de massa muscular do que você se forçar aí na academia sem conforto nenhum?”
Para mulheres especificamente, acho que a coisa mais revolucionária é buscar prazer. Parar de buscar o que é certo e começar a buscar o que te dá prazer. Eu afirmo com a minha experiência que isso muda completamente a vida.
Eu achava que eu precisava me punir o suficiente até eu ficar perfeita o suficiente para merecer prazer o suficiente. Quando eu comecei a buscar prazer simplesmente, eu comecei a encontrar as coisas que eu queria fazer e que me deram resultado, que me deram retorno. Desenhar esse tarot foi uma dessas coisas.
E aí entra um pulinho do gato, talvez, não sei, pra mim essa percepção foi fundamental. Porque, como eu falei antes, nós mulheres, a gente não foi permitida brincar, então a gente não sabe muito bem buscar prazer. E aí, o que me ajudou muito nesse processo foi me relacionar com um homem, está sendo me relacionar com um homem que se permite, se permite sentir prazer. Se permite descansar, se permite falar, ah, eu vou fazer uma coisa agora e começar a fazer essa coisa só 5, 10 minutos depois, sabe? Essa foi a coisa mais estranha pra mim. Quando eu comecei a namorar o André, eu na casa dele, assim, eu ouvia ele falar, ah, tá, eu vou lavar a louça, sei lá, um exemplo aleatório. E aí ele não levantava do sofá pra lavar a louça e eu ficava, nossa... Que estranho, o que que tá acontecendo? E aí eu percebi que eu também não precisava, tipo, comer e imediatamente lavar a louça, e depois de lavar a louça, imediatamente secar a louça, e depois de secar a louça, sabe? Tipo, tá tudo bem, eu posso falar uma coisa e não fazer ela imediatamente.
Eu não me permitia fazer nada, nada, nada, nada, não me permitia beber álcool, nem de vez em quando, porque o álcool não faz bem, porque não faz bem, mas tipo, tá tudo bem de vez em quando você querer se sentir mais felizinha do que normal, sabe? São coisas que eu aprendi porque eu estou convivendo com um homem.
Então, quando eu disse o pulo do gato antes, pra mim o pulo do gato é esse. Nós não precisamos ser estranhos uns aos outros, homens e mulheres, pra lutar contra o patriarcado. Muito pelo contrário. Eu acho que é justamente a comunhão que vai nos ensinar a atravessar ele, sabe? E aí eu nem tô te falando pra você ir se relacionar com um homem, se você, por exemplo, tá em celibato, eu sei que muitas mulheres que me seguem vivem dessa forma, mas tô só falando pra você, talvez, observar eles, observar e aprender, porque eles tiveram essa permissão. E como a gente não teve, quem melhor pra nos ensinar do que quem teve? Dá pra entender?
E é isso que eu tenho pra hoje. Tô toda... E é isso que eu tenho pra hoje. E não vou sentir vergonha por isso.
E eu espero que você consiga se dar prazer hoje. E não se sentir nenhuma vergonha por isso. Porque você merece. Você merece muito.
E eu amo você. Obrigada por estar aqui. E até o próximo episódio.

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