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Eu não acho que seja possível mudar o mundo sem mudar antes a forma como a gente vive nele de forma individual.
Existe um perigo muito grande nesse discurso porque ele fomenta o individualismo e fomenta aquela ideia de salvação individual que muitas religiões já têm. Eu acho que esse é um grande defeito da grande maioria das visões espiritualistas também. Que falam sobre você precisar se salvar. De modo a tirar a culpa que vem quando você não tá agindo em prol da comunidade ou da família, sabe?
Eu acho que é muito importante a gente fazer esse parênteses pra falar sobre isso. Pra falar sobre a mudança interna.
Acredito que parte de mudar internamente, de se curar — que seja se espiritualizar, se você gosta da vertente espiritual, ou então se curar indo pra terapia, enfim — justamente se politizar e entender que você também vive num mundo em que você precisa, sim, interagir com outras pessoas e com sistemas e ecossistemas.
Então, se curar também é sobre você entender de que forma você quer se posicionar diante desse todo. Não é só sobre o que eu quero, para onde eu quero ir, quanto eu quero ganhar, o que eu quero fazer. É preciso ter uma visão mais holística. E quando eu digo holística, eu estou falando mais geral, mais abrangente. Sobre as coisas.
Mas esses processos de autoconhecimento, de terapia, de cura, eles têm etapas. Eu acho que tudo na vida é cíclico. E no episódio de hoje eu quero falar exatamente sobre essa ciclicidade e sobre a falta que faz a gente olhar para a mulher e para a natureza com esse viés, com essa lente da ciclicidade.
Muito boas-vindas para você, boas-vindas de volta se você já me conhece. Se você não me conhece, meu nome é Bibiana, eu sou uma cartunista e também podcaster. Este projeto que você está assistindo se chama Bibicast e é um podcast baseado em cartas do tarot. Eu ilustrei o meu próprio baralho de tarot. Aqui está ele, um pouquinho dele. E estou produzindo um episódio sobre cada um dos 78 Arcanos do Tarot.
O episódio de hoje é sobre o Nove de Terra.
O Nove de Terra é uma carta do elemento Terra, claro, que em outros baralhos geralmente é o naipe de ouros ou o naipe de pentáculos. E o elemento Terra, por si só, já fala sobre a nossa relação com tudo aquilo que é material. Ela também é uma carta regida pelo signo de Virgem e pelo planeta Vênus. A Vênus em Virgem fala sobre o cuidado, sobre como a maneira como a gente ama pode ser traduzida em atos de serviço, pode ser traduzida na maneira como a gente serve a nós mesmos, ao mundo, ao outro.
E eu acho que a mulher foi, através de narrativas e de construções culturais de muitos séculos, colocada nesse lugar e foi naturalizada nesse lugar. A gente, na verdade, trata o cuidado — que é uma característica que não é inerentemente feminina, mas foi naturalizada dessa forma — como um dom feminino, como até uma validação da mulher: para você se entender como mulher, você tem que em algum nível se entender como alguém que cuida, como alguém que está atenta, como alguém que nutre.
Essas coisas não são ditas para nós literalmente quando a gente é criança — para algumas de nós sim, na verdade — mas elas são captadas pela forma como nos repreendem ou nos incentivam a certas coisas.
Só que se a gente for olhar, estando inseridos no capitalismo, se a gente for olhar para o cuidado, é muito fácil chegar à conclusão de que o cuidado é trabalho. O cuidado é labor. Cuidar de crianças dá muito trabalho. Ocupa tempo da nossa vida. Cuidar de idosos também é um trabalho que muito recorrentemente fica para as mulheres da família. É um trabalho muito cansativo. Em muitos desses casos, na grande maioria, a mulher não está recebendo nada para performar esse cuidado.
E mais do que isso, a mulher — e aqui quando eu digo mulher, eu na verdade estou falando das pessoas que têm útero. Eu não quero que a minha fala não seja inclusiva às pessoas trans. Mas porque nós fomos criados dentro dessa narrativa de que a mulher é isso e o homem é aquilo, vocês me perdoem se em algum momento eu esqueci de fazer essa inclusão no meu discurso. Eu espero que todo mundo se sinta contemplado de uma forma positiva pelo que eu estou falando.
Mas enfim, a mulher então, a imagem da mulher que se criou, além de performar cuidado, ela gera vida. Então são nove meses da criação de um ser humano. Se a gente for ver, a mulher é um portal da vida. Ela é um portal de onde sai vida.
A gente precisou, aqui no ocidente, criar três figuras masculinas — Deus, Jesus e o Espírito Santo — para explicar a origem da vida, a existência da vida. Enquanto a Maria, que foi a virgem, que só pariu ali Jesus, ela ficou como esse símbolo de castidade e dessa performance de feminilidade que nos mantém nesse lugar de submissão, né? A gente precisou de três figuras masculinas para justificar que a vida existe. Quando a justificativa está bem aqui, são as mulheres. As mulheres são a razão pela qual a vida existe. Sem elas, não tem como trazer ninguém para esse mundo. Ah, mas o homem também participa do processo. Sim, ele participa 0,0000001% desse processo.
Disse tudo isso para falar que nós somos as geradoras de vida, nós somos quem performa o cuidado sem receber quase nenhum reconhecimento por esse tipo de labor, de trabalho. E nós somos exatamente como uma imagem em menor escala do que é a natureza e de como ela é tratada.
Há um tempo me incomoda que a natureza não esteja no centro das nossas discussões políticas, a natureza e o feminino. Eu já fiz alguns vídeos dando a minha opinião sobre isso e eu reitero aqui que eu acredito que não exista como superar o capitalismo sem superar o patriarcado. Essa é a minha opinião e tudo bem se você discordar, mas eu realmente, eu vou morrer nessa colina, sabe? Eu realmente penso isso.
Me incomoda a mulher e a natureza não estarem no centro das nossas discussões e dos nossos movimentos políticos, porque sem elas a vida não existe, em primeiro lugar. Elas não são um cenário que possibilita que você tenha os seus sonhos, tenha as suas paixões, as suas vontades. Elas são a razão pela qual você está aqui, seja você homem, mulher, não binário, enfim. E ainda assim são elas que são tratadas como se fossem um recurso infinito. São as mulheres e a natureza que são tratadas de forma exploratória, né? Elas são exploradas e aí a gente ainda tem todas as violências estruturais que se somam à exploração da mulher e da natureza.
A mulher foi o primeiro ser a ser explorado pelos homens. Ela precisou ser contida, expropriada de suas propriedades e de qualquer tipo de poder ou de voz para que o capitalismo se instalasse. E com ele, a exploração da natureza escalasse tudo isso em prol do lucro.
Então, enquanto eu não colocar as necessidades da mulher e da natureza no centro da minha busca, da minha luta social, política, econômica, eu vou estar só achando novas formas de justificar esse abuso, mesmo que a gente vá de um espectro político para o outro, mesmo que isso fosse acontecer, mesmo que uma revolução comunista fosse acontecer — adoraria inclusive — mesmo que isso fosse acontecer, a gente não estaria mudando o sistema a tal ponto que a libertação feminina e a priorização da natureza fossem acontecer.
É verdade que em países socialistas e comunistas os direitos das mulheres são levados mais a sério? Acredito que sim, do pouco que eu estudei sim, mas ainda assim se a gente for olhar por exemplo para a China, a China é um país profundamente machista. Só que isso que eu acho que muitas pessoas não entendem: esse machismo e esse controle do feminino, da mulher, ele não acontece necessariamente de formas óbvias. Ele acontece no controle do corpo, do padrão de beleza. Essas coisas, elas podem parecer idiota, mas elas são grandes distrações para a mulher. Elas distraem a mulher da verdadeira importância que ela ocupa no mundo.
Na China você tem trends e trends das mulheres querendo ser mais magras que uma folha de papel, que a largura de uma folha de papel, por exemplo. Você tem também os padrões de beleza surreais desses lugares. Você encontra outros mecanismos para destituir a mulher de poder e de voz. Não tem a religião católica, mas existem outras ferramentas culturais para que a mulher se mantenha casta nessa posição de, eu acho, de ocupar pouco espaço, sabe, em todos os sentidos.
E o que isso tem a ver com o Nove de Terra no tarot é justamente essa visão de que para que a gente evolua, cresça — aliás, o Nove de Terra é um grande símbolo da evolução espiritual, do autoconhecimento. Eu comecei o vídeo falando sobre isso, mas acabei abrindo muitas abas. E fui me perdendo no meu próprio discurso, mas enfim, voltando para esse ponto: o Nove de Terra é um símbolo disso, do crescimento pessoal, do crescimento até dos nossos sonhos, né? É um momento aqui, esse arcano representa um momento em que aquilo que a gente plantou já é fruto e agora a gente pode usufruir, desfrutar mesmo dos resultados do nosso labor, do nosso trabalho. Do nosso cuidado.
Para mim, isso tem tudo a ver com pensar que a mulher não é um recurso infinito, porque essa carta, ela me lembra, pelo menos, e eu espero que lembre você também, cada vez que você olhar para ela, ela me lembra que não adianta eu querer mudar um sistema se eu não estiver disposto a mudar a forma como eu me comporto nele individualmente. A forma como eu enxergo as mulheres, as pessoas trans, as pessoas negras, indígenas. A forma como eu trabalho para incluir essas pessoas no meu discurso.
Não adianta eu adotar um discurso revolucionário se eu não estou disposto a me comportar de maneiras revolucionárias dentro da minha casa. Eu já falei isso em vários vídeos. O que mais tem, se a gente vai olhar para os esquerdomachos, o que mais tem é homem que não ajuda dentro de casa, mas no bar, tomando essa cervejinha, é hiper mega ultra revolucionário. Baba, baba, baba o ovo do Lenin e do Stalin. Nunca vi coisa igual. Falam de quem baba ovo do Neymar e tal, mas estão lá chupando as bolas dos socialistas. E não são capazes de perceber, dentro de suas próprias casas, não são capazes de perceber quando o lixo precisa ser tirado, quando a louça precisa ser lavada, sem que uma mulher os avise.
E aí, se você é um homem de esquerda e não se identifica com isso, é óbvio que eu não estou falando de você.
Honestamente, e aqui eu sei que algumas feministas vão discordar da minha fala justamente por elas estarem muito cansadas e eu estou com elas nesse sentimento. Mas honestamente eu também não gosto de falar dos homens dessa maneira assim tão incisiva. Eu por muito tempo no meu conteúdo eu tentei ao contrário incluir os homens na conversa para justamente tentar explicar o nosso ponto de vista. Mas isso é bem cansativo. Porque muitos deles não querem desocupar essa posição de privilégio para agir diferente nesse sistema que eles querem mudar. Então, a gente acaba generalizando porque é muito cansativo tentar perceber quais homens estão ou não dispostos a fazer esse movimento. É muito cansativo e muito raro também achar alguém que realmente está. A gente consegue achar homens que estão alinhados no discurso. A prática é bem diferente.
Mas como todos nós estamos inseridos nesse sistema machista, patriarcal, capitalista, todos nós estamos suscetíveis a defeitos sistemáticos, a reproduzir individualmente defeitos sistemáticos. Todos nós, inclusive nós mulheres. Foi para mim um aprendizado que levou muitos anos eu entender que eu podia confiar nas mulheres, porque a rivalidade feminina se cria de tal forma que é difícil encontrar conexões genuínas em alguns espaços, em certos espaços entre mulheres. E no caso a rivalidade feminina é uma ferramenta patriarcal para nos distrair também, para a gente querer ser escolhida. Ao invés de simplesmente nos lembrar que nós temos o poder de escolher.
E aí, sobre a ciclicidade, eu tenho dois pontos.
O primeiro é: tudo na vida é cíclico, inclusive a natureza, inclusive os modelos políticos, os sistemas políticos. A gente consegue observar a ciclicidade deles muito bem quando a gente vê a onda de conservadorismo, a onda de liberalismo. Então, eu acho que mudar a nossa realidade exige também adotar uma postura que seja flexível para lidarmos com as diferentes fases desse processo.
Acredito que para a gente mudar todo um sistema, por exemplo, a gente precise começar por aquilo que é básico, que na minha opinião seria a educação, mas enfim, existem muitas coisas, o acesso à saúde, enfim. Existem muitas coisas que deveriam fazer parte da base e talvez essa base devesse ser inegociável, mas a gente precisa sim adotar certa flexibilidade para lidar com o resto.
Se a gente for colocar isso num espectro um pouco mais pessoal, a nossa rotina exige essa mesma postura. Existem hábitos para nós que deveriam ser inegociáveis. Por exemplo, movimentar o nosso corpo. Deveria ser inegociável, deveria ser algo base, básico. E o resto, para o resto, a gente pode se adaptar.
Nós somos natureza também, né? Então, quando a gente está vivenciando um período de inverno, literalmente inverno, frio, o nosso sistema nervoso, o nosso cérebro, a gente se comporta naturalmente de maneiras diferentes para proteger o nosso corpo. E aí, o movimento — ainda que negociável — ele pode mudar de forma, sabe? Eu acho que é importante ter essa lente para olhar para as coisas, porque, eu não sei, eu tenho a impressão de que as pessoas, todos nós, a gente quer mudanças imediatas, só que as mudanças imediatas, embora elas possam acontecer, como, por exemplo, uma guerra ou uma mudança de hábito muito repentina, elas muito raramente se sustentam. Elas não se sustentam porque uma mudança sustentável, uma mudança que perdura ao longo do tempo, ela exige anos e anos de um comportamento consistente e recorrente.
Por isso eu acho importante ter esses dois conceitos muito bem estabelecidos: o que é básico e negociável e o que eu posso adaptar.
Então eu acho que o ponto que eu quero fazer com esse episódio e com o Nove de Terra é nos lembrar que cuidado e outras características que foram naturalizadas para o feminino são trabalho. Quando a gente encara elas como trabalho, pelo viés materialista da coisa, a gente começa a perceber o quanto nós estamos sobrecarregadas e o quanto a gente precisa acolher essa sobrecarga, acolher ela, validar ela para que a gente comece a operar de formas diferentes.
Como eu falei no início, não adianta eu querer mudar todo um sistema se eu não estou disposta a operar de maneiras novas dentro desse sistema. Então, eu preciso adotar uma postura diferente. Eu preciso me conter e não performar cuidado quando as minhas necessidades são negligenciadas nesse processo. E existem muitas formas de fazer isso, além de, por exemplo, estabelecer novos e mais rígidos limites nas nossas relações.
Outra forma que eu acho, e eu já falei muitas vezes dela, foi adotar o planejamento circular na minha rotina, até aprender a ler o tarot, foi uma dessas formas, para eu poder, através dos arquétipos, através das imagens, construir a minha narrativa de uma forma mais coerente e me apropriar dela, sabe? O tarot, ele me ajuda nesse sentido, ele me ajuda a identificar o que não tá claro pra mim, o que eu ainda não consigo nomear, justamente porque nunca fui ensinada a nomear meus sentimentos, os conflitos que eu enfrento, enfim.
Por isso eu acho tão importante falar sobre o tarot através desse olhar mais materialista de vez em quando, feminista também, desse olhar mais prático também. Eu gosto, eu respeito que muitas pessoas usem o tarot como uma ferramenta espiritual, divinatória e tal. E ao mesmo tempo, como esse foi um recurso que me ajudou tanto a me — eu odeio essa palavra — mas a me empoderar, eu, bom, me ajudou a tal ponto que eu estou dedicando a minha vida há uns dois anos já, há uns três anos na real, a criar material sobre ele.
Mas enfim, eu acho ele também uma forma muito legal de se apropriar, de construir narrativas novas para operar dentro desse sistema. De formas diferentes, de formas que nos curem e nos tornem mais autônomas, mais poderosos mesmo.
E aí aproveito para divulgar que o meu Baralho de Tarot está disponível para compra lá no meu site bibilandia.co e também tenho um curso de tarot através da abordagem não violenta em que eu te ensino a ler cada uma das cartas uma por uma nessa abordagem mais prática e utilizando do recurso da não violência como a lente, né? Pra olhar pra essa carta e perceber o que não tá visível na superfície pra nós, quais são as necessidades que a gente tem e quais são as atitudes que a gente pode tomar pra atender essas necessidades.
Eu espero que você tenha gostado desse episódio, espero que ele não tenha ficado muito confuso e espero muito te ver nos próximos.

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