Quinta Crônica, 29 maio de 2026
PALAVRÕES
Eu estava preparado para escrever sobre a minha extraordinária visita ao Berklee College of Music, em Boston, quando uma mensagem apareceu na tela do computador.
— Bertini, por que tu não usas palavrões nos teus textos?
Entre surpresa, satisfação e dúvidas, Boston foi ficando cada vez mais longe.
— Eu uso. Você não leu?
— Li todas as suas histórias.
— Foi você?
—- Kkkk, eu li! E nenhum palavrão. Vou procurar.
A surpresa foi se juntar a quem tinha voltado para Boston, as dúvidas concentraram-se no nome do remetente e a satisfação virou sorriso — e sorrindo fui fazer um café.
Faz assim: coloca um pouco de água morna no pó e deixa descansar por alguns minutos. Depois, nas primeiras borbulhas — ou no chiado da água ameaçando ferver, se você não estiver no barulho de São Paulo — espalha a água quente sobre o pó encharcado em delicados movimentos circulares. O café vai ficar surpreendente. E ganha-se tempo para pensar.
Entre goles de café e desenhos na fumaça, voltaram ao campo das minhas respostas a Irene no hospital, os juízes da Floresta, o silêncio das águas na sala de estar, a mão crispada no sonho do cavalo preto, o colo da enteada que chora, a triste busca pela esperança, a tragédia das crianças sem dono…
— Meu amigo… — teclei. — Sério que você não ouviu os palavrões?
No documentário Luis Fernando Veríssimo – O Filme, dirigido por Luzimar Stricher e em exibição no Prime Video, a estranha satisfação de reconhecer, entre os depoimentos, pessoas que andam por aqui. Obrigado!
Fui.

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