Quarta Crônica, 22 de maio de 2026
DIANTE DAS ALTERNATIVAS
Acredito que a vida seja assim: falamos sobre algumas coisas e calamos sobre outras.
Sobre envelhecer, por exemplo, eu costumava calar. Até o dia em que ouvi uma entrevista maravilhosa do ator inglês Michael Caine, 93 anos. Perguntado sobre “como era envelhecer”, respondeu quase sorrindo: “diante das alternativas, até que não é tão ruim.”
Pronto. Incluí a perspectiva de algo nem tão ruim no rol das coisas sobre as quais eu falo. E, em falando, passei a ouvir.
Outro dia ouvi uma longa dissertação que provava que somos, do ponto de vista físico-químico, um estado temporário de não-equilíbrio sustentado. Um bolsão improvável de ordem num universo que tende à desordem. Somos um fenômeno fugaz.
Intrigado, reflexivo, pensei em tudo o que já vivi, tomei outro gole de vinho e concluí, tentando sorrir como Michael Caine, que eu sou uma reação química com consciência.
Todos bem-vindos, com consciência ou não.
Prometer
E não cumprir
Taí viver
— Millôr Fernandes
Navegar
E não pensar
Taí naufragar
— Vitor Bertini
Entre abraços, mais vinho e queijos, beijos generalizados.

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