Ainda Lemos, 24 de abril de 2026
O DIÁRIO
Hoje é sábado. Chove. Sem precisar de despertador, acordei mais cedo do que o habitual.
Comecei a passar café, senti frio e resolvi vestir uma roupa mais quente. No caminho do quarto lembrei que tinha enfiado as roupas de inverno no armário da Marlene e dei meia volta.
Voltei à cozinha, servi o café e puxei uma cadeira. Tomei alguns goles, reuni farelos de pão espalhados sobre a mesa, senti frio outra vez e decidi enfrentar as memórias e apanhar a tal roupa mais quente.
Arrastei a cadeira para trás, levantei, comecei a apalpar os bolsos, senti o maço de cigarros, tomei o resto do café e o rumo do quarto.
No caminho, entrei no banheiro. Acendi a luz, abri a torneira da pia, evitei o olhar do espelho e peguei fósforos no armário; alisei a toalha de rosto, juntei e pendurei a toalha do banho, fechei a torneira e acendi um cigarro. Abri a janela basculante e soprei a fumaça em sua direção. Dei outra tragada e joguei o cigarro no vaso. Na saída, encarei o espelho e apaguei a luz.
No quarto, olhando as portas do roupeiro que eu nunca abrira, sentei na cama e fiquei ouvindo a chuva.
Depois, abri o lado do armário que tive a coragem de esvaziar, achei este diário e resgatei um suéter velho.
De volta à cozinha, transferi o cinzeiro da pia para a mesa. Vesti o suéter, levei a pilha de farelos para o lixo, catei uma caneta na gaveta, comecei a escrever no diário e acendi outro cigarro.
Hoje à tarde tem futebol na televisão.
Ainda lemos?
Fui.

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