Haymarket, 1º de maio de 2026
CHAPÉUS DA VIDA
Dois dias depois do enterro de minha mãe, comprei um chapéu Panamá.
Mamãe tocava piano, lia clássicos, em sua casa o serviço era à francesa, tinha dedos longos e nutria silenciosas expectativas com relação à vida dos filhos.
Minha primeira viagem à Florença foi obra de seu testamento: estação do ano sugerida, roteiros definidos, explicações histórico-culturais anotadas e o respectivo valor consignado. Tudo em palavras educadas.
— Acho que você deve ir. Vai fazer bem pra você — afirmou papai, com voz baixa e jeitão de quem já sabia, antes da leitura pelo Oficial do Cartório, das vontades de mamãe.
Três anos mais tarde, em minha segunda viagem à Florença, no caminho entre o Museu de Dante e a Ponte Vecchio, uma caminhada de sete minutos, na Via Porta Rossa, 40 — lembro bem, encantado, comprei um Borsalino, meu segundo chapéu.
Nunca usei nenhum dos dois.
Sempre imaginei que começaria a usar chapéus a partir de algum momento especial; uma situação qualquer que justificasse, aos olhos de todos e aos meus próprios, afinal, o adereço.
Estou há oito anos e meio em casa, vivo, escrevendo e pensando na vida. Amanhã, começo a usar meus chapéus.
Mamãe iria gostar.
Vitor Bertini
Trabalhores do mundo, orai.
Fui.

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