- O que eu levo?
- O que for beber.
Nessa época, São Paulo tinha com alguma frequência festas nos apartamentos das pessoas. Não lembro muito bem como a gente foi parar lá, só sei que a dona daquele apartamento enorme estava deixando o país e quis fazer a última festa para se despedir.
Passei para pegar o Freitas e ele apareceu com uma sacolinha de plástico com duas Skols e uma Brahma.
- Você vai beber só essas três cervejas?
- Era o que tinha na geladeira, chegando lá a gente desenrola.
O apartamento ficava em Higienópolis e, quando a porta se abriu, foi possível ver vários garçons de terno com paletó branco, calça preta e gravata borboleta rodando com drinques bonitos em suas bandejas.
Me senti o Nick Carraway entrando em uma das festas do Gatsby, com a única diferença de que eu não era vizinho daquele pessoal.
De repente, a sacolinha de cerveja que tínhamos na mão parecia totalmente fora de propósito. Não sabíamos o que fazer com aquilo, já que a cozinha e a geladeira não eram abertas aos convidados. Um garçom passou e disse: “Pode deixar isso comigo”.
Ele perguntou se fazíamos questão de beber Skol. O Freitas, na maior cara de pau, disse que uma Stellinha estava de bom tamanho. Pouco depois, tínhamos uma Stella Artois na mão cada um.
Enquanto eu procurava pela Laura, uma escritora que eu tinha conhecido algum tempo antes, o Freitas tentava a sorte com algumas das atrizes da novela das oito que circulavam por ali. Um público eclético: ricaços, modelos, músicos fracassados e um ou outro pé rapado, como nós.
A Laura era daquelas pessoas que estão sempre conversando com alguém, apresentando as pessoas, quase uma socialite sem grana. Eu tenho a impressão de que existe uma nova geração de escritores que participa de muito mais eventos e mesas de discussão do que efetivamente escreve. De certa forma, ela se encaixava nesse perfil.
- Onde você estava? - ela me perguntou ao me ver sozinho em um canto da festa.
- A noite toda no canto da pista tomando cerveja. Você que estava muito ocupada conversando com alguém mais importante do que eu.
- Deixa de ser bobo, preciso te apresentar uma amiga.
Fiquei alguns minutos tentando arrumar algo em comum com aquela mulher que parecia muito interessada em mim, mas a conversa simplesmente não fluiu. Como todo covarde, falei que ia ao banheiro e fui encontrar o Freitas.
No meio da pista, ele dançava junto a completos desconhecidos. Chamei ele de lado e percebi que ele estava mais animado do que o habitual.
- Tomei uma pílula que uma das modelos ali me deu, ele me disse.
- E o que é essa pílula?
- Acho que é algum tipo de anfetamina. Eu tô muito acordado, tô vendo tudo mais claro.
Foi durante a conversa que a tal modelo apareceu. Ele pediu outra pílula e me deu.
- Eu não quero - respondi. A noite já tinha começado a ficar estranha antes de aceitar drogas de estranhos.
Foi quando ele tentou tomar essa segunda dose que eu segurei o braço dele e engoli o comprimido antes que ele pudesse protestar.
Por algumas horas, tive uma animação que eu não sabia que existia em mim. Mas, quando eu vi a Laura se beijando com um cara num sofá, a adrenalina baixou.
Freitas insistia em me puxar para a pista e repetia: “a gente vai virar esse jogo”. Ele adorava metáforas futebolísticas.
Daí pra frente a noite virou um grande borrão. Só lembro de acordar ao meio-dia com uma ligação do Freitas.
- Quer tomar café da manhã?
Era a pior ressaca da minha vida. Não era só dor de cabeça e aquele gosto de cabo de guarda-chuva na boca. Meu corpo estava cansado e dolorido.
- Acho que está um pouco tarde pra isso, Freitas.
Falando com ele ao telefone, fiz o que todo mundo faz depois de um blackout alcoólico e/ou de drogas: procurei minha carteira. Não consegui achá-la.
O Freitas me contou que estava saindo da casa da amiga da Laura. Ela foi atrás dele para saber onde eu estava e os dois acabaram se entendendo.
Expliquei para o Freitas que não achava minha carteira e ele me mandou um endereço: “Me pega aqui. Eu pago o almoço”.
- Parece que nunca vai chegar a nossa vez — eu disse, antes mesmo de dar bom dia.
- O que você quer dizer com isso?
- Amanhã vamos contar essa história de como fomos a uma festa de uma ricaça no Higienópolis, garçom, comida, bebida, música, mas a gente não conhece ninguém ali.
- Mas você quer conhecer aquele povo? Galera chata do caralho.
- Você não estava até agora na casa da amiga da Laura?
- Sim, mas não é como se eu fosse virar namorado dela.
Algum tempo depois eles começaram a namorar, mas isso é outra história.
- O que eu quero dizer é que estamos sempre perto dessa roda, mas a festa nunca é nossa.
- Melhor ainda, não precisa arrumar a bagunça no dia seguinte.
- Você acha que essa galera já arrumou qualquer bagunça na vida?
- Você tem um ponto.
- Vamo embora?
Enquanto o Freitas pagava a conta, um número desconhecido me ligou: Adriano:
- Ele mesmo.
- Estou com a sua carteira.
Toda semana eu atualizo, junto com a Cena, uma playlist. Não são apenas lançamentos da semana, mas músicas recentes que ainda não entraram no radar da maioria das pessoas. Toda segunda tem coisa nova. A ideia é transformar essa playlist em um canhão de boas descobertas e ajudar artistas emergentes. A playlist já tem 588 seguidores.
Também toda semana um novo episódio de O Podcast da Música. Nesta edição, falamos do iminente fechamento do Bar do Biu, de outros lugares que deixaram saudade e das histórias de luta para manter vivas casas de shows icônicas.
Na semana que vem anunciamos as bandas que vão participar da primeira edição das Sessões d’O Podcast da Música. Esse nome é provisório até que não seja mais, se você tiver um nome melhor, pode falar nos comentários.
O texto que abre a newsletter é o primeiro capítulo de uma trilogia de ficção sobre São Paulo que ainda estou escrevendo. Se você gostou, já publiquei aqui um conto que nasceu do argumento de um curta-metragem escrito durante a pandemia e funciona como uma espécie de epílogo dessa história.

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