Não há muito tempo atrás, o meu maior prazer era acordar às 4:30 da manhã para tomar um café ao lado da janela do meu apartamento minúsculo e apreciar o nascer do sol.
Ali, eu via o tempo passar tediosa e lentamente, até a última gota da minha xícara gigante de café.
Depois, eu pegava um livro para ler e cronometrava 45 minutos, às vezes uma hora.
Só depois disso eu realmente surgia para o mundo.
Há quem ache loucura acordar tão cedo, mas eu, como apreciadora do silêncio e de tudo que vai contra a multidão, achava revigorante.
Nunca considerei um bom dia aquele em que esse ritual estava ausente.
Aquele era meu pedaço de mundo, só meu.
Todos os outros estavam dormindo, ou indo dormir, ou bêbados, ou tristes, ou de mau humor, ou sonâmbulos, ou mortos.
Mas quem olhava para o céu era eu.
Vez ou outra eu me perguntava se alguém, em algum lugar do mundo, olhava para o mesmo céu que eu, no mesmo instante.
Eu gostava de pensar que era o Gabriel, do outro lado do oceano, coisa besta da minha cabeça, mas eu nunca fui capaz de abandonar esses pensamentos.
Em qualquer janela, eles vinham à tona, então achei que o melhor seria aceitá-los.
Em algumas dessas auroras, eu me peguei encantada com Crime e Castigo do Dostoiévski.
E o que eu vou dizer agora é genuíno: Ninguém sai ileso de Dostoiévski. Ninguém nunca sairá.
Alguns livros não são apenas lidos. Eles nos leem. Crime e Castigo é um deles.
É curioso como, de todos os assuntos pertinentes daquelas páginas, eu só me lembro nitidamente da relação entre Raskólnikov e Sonia. Ignorei todos os outros como se nada fossem.
Um tanto soturno, eu sei.
Mas você já sabia dessa minha tendência em pensar em excesso sobre o amor.
Veja só:
Entre eles não havia declarações eloquentes, nem cenas românticas clássicas.
Mas havia um gesto simples: ele segura a mão dela, e esse contato significa mais que qualquer discurso.
No fim do dia não é disso que precisamos?
Alguém que segure a nossa mão quando tudo em volta parece ruir.
Não foi isso que Hemingway quis dizer?
Que o mais importante não é a guerra, mas quem está com você nas trincheiras.
No fim, o amor talvez seja isso: a recusa em abandonar.
E, às vezes, basta olhar pela janela às 4 da manhã para sentir que não estamos sozinhos.
Este é o e-mail quinzenal do PLANO B, feito para aquelas que querem se tornar a melhor versão de si mesmas, praticando hábitos que realmente transformam.
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