Tive uma experiência anos atrás pela qual peço perdão a mim mesma até hoje, sem sucesso.
Primeiro porque eu não soube perdoar.
Segundo porque eu não soube me vingar.
Terceiro porque eu não soube esquecer.
Tenho ainda uma quarta opção atordoante: eu nunca soube escrever sobre isso, de modo que você verá, neste e-mail, que eu não falarei uma palavra sequer sobre o ocorrido.
O que você lerá é sobre o depois.
Sobre o que eu fiz de mim após o trauma.
Sobre o estrago que dá na alma tentar não enlouquecer enquanto a ferida sara.
Você já deve ter tido desses traumas, que foram só mais um arranhão em meio a tantos que a vida nos dá, mas que te mudaram por dentro de uma forma infeliz.
É como uma cicatriz que já se fechou, mas que deixou uma mancha furtiva que nos rouba uma partezinha da existência, deixando ela meio oca.
É estranho quando isso acontece, porque a gente sempre espera que o baque venha de algo grande, mas o estrago maior vem do corte do papel, enquanto você abre um presente.
O que me leva a crer que vivemos mesmo no absurdo, como Camus diz.
E que deveríamos chegar ao mundo etiquetados com um adesivo escrito “cuidado: frágil”.
Afinal é isso que somos: indefesos, fracos e despreparados para a vida.
No que tange ao perdão, não dou a mínima importância por não saber perdoar o outro. Nunca fui de ficar distribuindo perdões, como as pessoas mais evoluídas fazem.
Quem tudo perdoa acaba esquecendo que misericórdia em demasia também corrompe.
Meu dilema com o perdão é que eu não possuo a qualidade de perdoar a mim mesma. Isso, por si só, já é terrível além da conta.
Agora acrescente a este desgosto o fato de que eu queria me vingar, mas não tinha como. Pois se tivesse certamente o faria.
Iria para a guerra e jogaria sujo. Olharia para tudo isso como Capitu olhou para Bentinho em Dom Casmurro.
Digo isso sem remorso algum, pois pra mim a vingança seria uma grande chance de florescer.
Acredite, eu dormiria como uma princesa se me vingasse, o meu peso na consciência vem de eu não poder fazê-la.
Dito isto, restou-me a tragédia de não saber esquecer.
Quem me dera eu pudesse fazer disso um desdém, apagar como quem apaga um rascunho.
Não posso. Honestamente também não quero.
Percebe o limbo?
Por obra da minha tolice, acabei com a única escolha possível: aceitar.
Mas desse caminho eu tenho asco, pois ele não me acalma em nada, ele só reforça o que há de deplorável em mim.
Esta é a mancha que ficou do que me aconteceu.
É daí que vem o meu desassossego.
Com amor,
Bárbara Albach
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