Eu sempre fui como aquelas pessoas que não se encaixam no ambiente: o quadro torto da sala de estar ou o abajur antigo que não combina com o quarto moderno.
Se eu consegui chegar onde cheguei, foi porque traí a mim mesma — copiosamente — em prol de me encaixar nas convenções sociais:
Sorrir quando eu deveria sorrir, ainda que quisesse gritar.
Chorar quando eu deveria chorar, ainda que quisesse gargalhar.
Ser simpática quando eu deveria ser simpática, ainda que quisesse revirar os meus olhos.
E o mais angustiante: me importar quando eu deveria me importar, ainda que eu não desse a mínima.
Esse fato triste sobre mim veio à tona quando terminei O Estrangeiro, de Albert Camus, e fiquei com aquela sensação esquisita de quem não sabe se leu um romance ou se olhou no espelho.
Lembro de ter pensado que eu era detestável.
Toda uma vida tentando me encaixar, fingindo pertencimento, acabou revelando justamente que, apesar de sempre ter sido boa — em essência — poucas coisas na vida me encantam de verdade.
Amo pouquíssimas coisas. Poderia contá-las agora nos dedos de uma mão.
Por todo o resto, tenho vergonha da minha indiferença.
E, por todo o resto, esse mecanismo que aprendi a usar acabou virando a forma mais fácil de estar no mundo sem ser tão desagradável aos outros, afinal, se for pra escolher, que vejam em mim o que há de mais amável.
Caso contrário, eu viveria tendo que explicar, a cada minuto, por que sou sempre a mais triste na festa de Ano Novo;
por que nunca me emocionei com o que o padre dizia na missa de domingo;
ou porque tive vontade de rir no velório do meu avô.
A minha sorte é que, para aqueles que amo, não preciso vestir essa máscara.
Eles me reconhecem até no silêncio, e talvez por isso eu ainda consiga existir sem me perder de mim.
Como disse Dostoiévski, “amar alguém significa vê-lo como Deus o concebeu.”. E, para a minha felicidade, este amor eu tenho.
com amor,
Bárbara Ricartes
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