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escrita assêmica · Aug 14, 2026

Quem não tem ferramenta de pensar, inventa.

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lia petrelli · escrita assêmica

Essa frase do Manoel de Barros mora em mim há muitos anos.
Com frequência eu volto pra ela.
Ultimamente eu tenho voltado bem mais.

Na semana passada, acabou a luz na minha casa (mais uma vez). E, sem bateria no celular, sem internet pra me distrair, eu ascendi uma vela. Eu brinquei com as sombras. Eu peguei o violão.

Enquanto eu estava sendo hipnotizada pela vela, eu rabisquei essa frase na primeira página do caderninho novo, e sem perceber, inventei uma melodia, criei um embalo pra esse pensamento, e foi aí que eu percebi que essa frase é uma faca de dois gumes.

Eu planejei escrever esse texto durante algum tempo já, mas eu, até então, ainda não tinha decidido se ia ser um assombro falado ou se um texto pra ser texto mesmo. Eu sinto que as palavras escritas provocam mais imagem dentro da gente do que a palavra falada, então eu comecei a pensar: o que é que acontece quando a invenção deixa de ser uma ferramenta de pensamento e passa a ser uma ferramenta de convencimento?

Enquanto a vela balançava ali na minha frente, eu me peguei pensando no perigo da invenção hoje em dia. Me parece que muita gente tem inventado informações só para estar certo, só para provar algum tipo de “verdade”.

Bom, pro Manoel de Barros inventar é uma maneira de pensar.

Principalmente com um olhar da criança que olha para uma coisa que ainda não entende o que é, e inventa uma relação com essa coisa. A poesia olha para a linguagem e inventa uma relação que antes não existia. A literatura olha pro vazio e pensa: mas e se tiver sido assim e não assado?

Eu tô escrevendo um romance, já tem uns 5 anos, e recentemente eu tenho trabalhado muito nele. Talvez por isso mesmo essa frase fique voltando pra mim. O romance que eu estou escrevendo é baseado na história da minha família, mas eu não conheço a história da minha família, então eu preciso inventar a história da minha família.

E eu briguei muito com esse romance porque eu não queria que fosse algo inventado, mas preencher uma lacuna familiar me parece muito importante pra eu conseguir continuar fazendo o que eu faço. E aí como eu não tenho ferramenta de pensar se a história foi daquele jeito mesmo, eu continuo inventando.

Mas existe uma outra invenção, né? Uma invenção que não nasce da falta de ferramenta pra gente imaginar, nasce da recusa de buscar ferramenta pra verificar os fatos.

A conclusão que eu cheguei, junto com as minhas sombras, basicamente foi que a mesma capacidade humana de inventar pode produzir coisas completamente diferentes: uma ferramenta de pensar inventa possibilidade, a outra ferramenta de pensar inventa certezas, e aí que está o cerne da questão.

Quando eu descobri que eu não sabia nada (ou quase nada) sobre a minha família, eu comecei a fazer as pazes com a invenção. Os nomes que estão lá são reais, mas a trajetória de vida das personagens, completamente inventada. Isso vai muito contra a minha natureza documentarista, porque eu adoro ver a vida acontecendo. Mas já que eu não sei da história das mulheres que vieram antes de mim, eu vou imaginando. É quase como dizer na verdade eu não sei, mas eu vou fazer mesmo assim.

E aí a imaginação literária assume a sua própria condição de invenção.

Quando a gente escreve, a gente pode pegar uma pessoa real, uma história fragmentada, uma fotografia parada no tempo, uma garrafa pela metade, um sobrenome que uma vez a gente ouviu, e começar a inventar a partir do que a gente não sabe, não viu e nem sentiu.

Aí que está o pulo do gato: a ficção não precisa fingir que é documento. Mas a invenção usada como fato faz uma outra coisa: ela apaga o próprio processo de fabricação inventada. Ela interrompe o pensamento.

Enquanto a vela balançava na minha frente, enquanto eu tocava o violão numa levada hipnotizante, eu pensei que talvez uma das coisas mais perigosas da nossa relação contemporânea com a informação seja exatamente isso: não é que as pessoas só inventam, elas têm inventado sem reconhecer que estão inventando.

São muito populares aqueles tipos de vídeo de entrevista nas ruas sobre os votos, principalmente agora que estamos perto da eleição, e é impressionante o quanto as pessoas inventam fatos sobre os políticos que elas vão votar. O quanto as pessoas acreditam nos seus políticos sem questionar. Chega a ser assustador.

Foi nessa hora que eu vi a parte perigosa da frase do Manoel, que é também a nossa maior crise hoje em dia. Quem não tem ferramenta de pensar, inventa.

O que é que acontece quando a gente perde a distinção entre imaginar, interpretar, lembrar, supor, afirmar e saber?

Por muito tempo eu li a frase do Manoel de Barros como um elogio à imaginação, mas naquele dia que acabou a luz, eu percebi que essa frase é também um aviso.

Inventar é uma forma de pensar quando a invenção abre espaço para aquilo que a gente ainda não sabe. Mas a invenção também pode ser uma forma de não pensar, só para fechar um assunto que a gente não sabe.

Porque existe uma diferença enorme entre inventar uma pergunta e inventar uma resposta, mas pensar, enquanto ferramenta, me parece ser justamente aprender a suportar o intervalo entre esses dois lugares.

A mesma ferramenta que me permite criar, também me leva para lugares que eu não sei onde terminam, e eu só percebi isso porque a luz acabou, a vela me hipnotizou, e eu criei uma melodia.

Enquanto eu acreditava na frase do Manoel como um elogio à imaginação, de fato, eu percebi completamente a ambiguidade dessa mesma ferramenta. É como se a frase do Manoel ficasse mudando de sentindo enquanto a gente olha para ela.

A mesma capacidade que me permite inventar uma personagem, preencher uma lacuna de memória, criar uma música, imaginar a vida de alguém que já se foi e transformar uma experiência em escrita, também me permite preencher uma lacuna com mentiras, fabricar explicações para coisas que eu não entendo, transformar uma suspeita em certeza, criar um inimigo imaginário, construir uma narrativa política sem relação com fatos.

A ferramenta é exatamente a mesma, o que muda é o que a gente faz com ela, principalmente olhando sob o microscópio, reconhecendo ou não que estamos inventando.

Porque na verdade pensar também é aprender a desconfiar das nossas próprias ferramentas, e aí um novo leque se abre: a massiva utilização das inteligências artificiais para substituir a ferramenta do pensar.

É muito necessário que a gente desconfie dessa ferramenta de pensar, porque hoje em dia a maioria da população tem utilizado as respostas de IA como fatos verdadeiros e irrefutáveis. Muita gente tem acreditado nas histórias dos políticos como fatos verdadeiros e irrefutáveis.

Então eu pensei, e eu sei que você também já pensou: o que acontece quando uma ferramenta que deveria ampliar a nossa capacidade de pensar começa a substituir o próprio pensamento?

A inteligência artificial é uma ferramenta que me ajuda a pensar, não uma ferramenta que pensa no meu lugar. Mas aparentemente não é isso que tem acontecido.

Eu falo com a inteligência artificial, eu organizo minhas ideias, eu estruturo meu pensamento, mas o pensamento continua acontecendo em mim. Quando eu delego esse pensamento pra inteligência artificial, as coisas começam a ficar estranhas.

Sem contar que isso é claramente um plano político e social.

E eu fico aqui ponderando: essa mesma ferramenta que facilita o pensamento, também está facilitando a desistência de pensar.

Mas isso já acontece há muito tempo: a imprensa pode fabricar consenso, a fotografia pode fabricar memória, a televisão pode fabricar uma realidade, um documento pode facilmente ser falsificado, uma lembrança pode até ser reconstruída, um romance pode transformar uma possibilidade em uma história convincente, uma pessoa pode inventar um fato numa conversa, e aí o pensamento fica transitando entre os dois gumes da faca.

A inteligência artificial se tornou uma fabricação de linguagem extremamente barata, rápida e abundante, e aí que Manoel de Barros aparece de novo, assustadoramente contemporâneo.

Agora a gente tem uma ferramenta capaz de inventar em velocidade ultra mega o que o nosso próprio pensamento não consegue acompanhar, mas se inventar é uma das ferramentas de pensar mais valiosas que existem, o que é que acontece quando as máquinas começam a inventar pela gente?

Eu sei que isso é uma pergunta muito batida, mas em resumo enquanto a vela balançava na minha frente, e a sombra me olhava de perto, e eu inventava uma música, eu percebi que o que a gente não pode é entregar para ferramenta a responsabilidade de pensar.

Enfim… Só um assombro que passou por mim.

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