Hoje encerramos o ciclo da primeira temporada de Assemias.
Antes de mais nada, preciso agradecer todos que tem acompanhado essa trajetória intensa. Ter passado um ano inteiro escrevendo roteiros sobre as possibilidades da escrita para compartilhar com vocês foi um desafio incrível - e muito difícil.
Em algum lugar minha mente navegou esse “pré-luto” de precisar encerrar um ciclo para poder reogranizar os próximos passos e me vi matutando sobre as fantasmagorias que habitam as mídias.
A velocidade que nos atraca sempre nos atira para longe do corpo, e isso é uma pena.
Quando uma mídia “desaparece” (ou fica em menos evidência do que foi outrora) parece que um tanto da nostalgia emerge. Não é a toa.
Nas pesquisas que precisei fazer para falar sobre isso percebi que nossa geração reproduz a nostalgia como sintoma, mesmo. Daí nossa necessidade de voltar à coisas vintage.
De todo jeito, o que pensei primeiro foi: Minha geração viu nascer muitas ferramentas, aplicativos, plataformas, redes, inteligências artificiais.
Será que vimos alguma linguagem morrer... tipo, de verdade?
Pensando nisso, percebi que vivi muitas estreias tecnológicas, mas poucas despedidas; não que eu seja parâmetro pra nada: eu ainda escrevo carta, eu ainda escuto vinil, eu ainda ouço rádio, eu ainda ando a pé. Mas eu também faço parte do meu tempo, e percebo os movimentos externos que a troca de cenários causa no meu corpo, no meu gesto (sim, sempre me repito…)
Quando uma mídia desaparece, o que some com ela não é só um objeto.
Nosso gesto desaparece: rebobinar uma fita, assoprar um cartucho de Nintendo, dobrar uma carta sem ficar torto, esperar revelar um filme, ter que devolver um DVD, perder o prazo da devolução do livro da biblioteca e ficar marcada só podendo pegar 2 livros por vez...
Guardar dinheiro no bolso, folhear classificados, descobrir palavras novas no dicionário, colecionar gogos da Recreio, telefonar sem saber quem vai atender, passar trote e dar risada.
Toda mídia carrega uma coreografia única, e ela exige certas posturas do nosso corpo. Você já percebeu?
Enfim, por isso cheguei a conclusão de que a morte de uma mídia nunca é só técnica, ela também é corporal. É emocional, e claro, também política.
Quando a câmera fotográfica surgiu no século XIX, muita gente acreditou que a pintura perderia sua função. Se uma máquina podia reproduzir o real com tamanha fidelidade, para que então pintar?
A pintura não morreu, ela se transformou, precisou sair da sua caixinha cômoda para extravasar novas imagens. A pintura saiu da obrigação de representar fielmente o mundo e passou a experimentar cor, gesto, distorção, sensação. E aí vieram os gêneros de Vanguarda que já sabemos.
Quando uma tecnologia assume uma função antiga, a linguagem anterior pode finalmente errar. E com o erro, pode descobrir novas coisas sobre elas mesmas.
Foi Vilém Flusser em “A Filosofia da Caixa Preta” (1983) (falei errado no podcast, perdão, citei um livro de Roland Barthes “A Câmara Clara”, que também vai de encontro a esses princípios), que perguntou: Se tiro uma foto, de quem realmente é essa foto? Se foi a máquina que tirou, a fotografia pertence à ela? Ou a fotografia é de quem clicou? A foto é de quem fez o trabalho de produzir a foto maquinalmente ou poeticamente?
E é lógico que estamos num momento muito propicio pra fazer essa pergunta: De quem é a imagem do prompt? É de quem escreveu, ou é de que produziu a imagem?
Parece a mesma coisa, mas não tenho visto as linguagens se enlouquecerem como nas Vanguardas - e aliás isso é uma outra coisa: vanguardas podem voltar a existir?
Realmente não tenho essa resposta, tô só provocando…
Enfim, falei mais um monte no podcast, mas por hora, deixo aqui as perguntas para você pensar comigo:
Qual mídia você sente saudade?
O que parece que morreu e você nem percebeu?
Qual tecnologia parece viva, mas já está “morrendo”?
O que são as coisas que o digital não substitui?
Por hora, é isso. Preciso voltar à escrita, e não à filosofia da escrita.
Por isso vai rolar um breve hiato nos programas, mas a newsletter continua, tá bom?
Estou sentindo saudade de assistir minhas mãos preencherem o vazio da folha e da tela, e para isso preciso de tempo. Escrevo muito, sempre, mas está tudo aqui, guardadinho para compartilhar com vocês nos próximos dias.
Não deixe de me acompanhar, tenho juntado um tanto de coisas para falar pra você.
Agradeço a parceria da FunctionFM! nesta jornada
E a você, que me acompanha até aqui.
Até já,
beijos e abraços.
ASSEMIAS
captação, edição, criação e idealização: Lia Petrelli.
trilha sonora: Filipe Ignatius.
apoio e distribuição: Function FM.
🎧 Disponível nas principais plataformas digitais.

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