Dessa vez a presença me demora a chegar. Tudo quando toco se desfazer em ato. A presença parece demorar dias a chegar. Perceber o agudo do cabelo se movendo, todo o arrematado batendo. O desvendar vem devagar. Acontece uma, duas, três vezes por semana – isso quando dá para lembrar da textura da toalha no corpo, da porosidade da pele em movimento pingando suor, da textura da voz quando algo pesado, da calmaria do laço passado. A presença engatinha até voltar: “escrever é o pálido reflexo da palavra falada” disseram por aí.
Só na fala, no canto, na tara é que a palavra vem e acontece, não tem como voltar atrás. Some no mesmo instante em que dá as caras e assim segue para a libertação das interpretações. Tudo e nada tem que ser levado em conta: o que digo, o que não digo, o que acontece sem mim. Os acúmulos e informações do ouvinte, do intérprete, do receptor, do orador, tudo. O todo é a chave para a coisa surgir.
Parecemos estar só aprisionados dentro do que que saem das telas: nesse vídeo aqui falaram! E a roda gira sem ler, sem ouvir, sem pensar. Todo texto carrega por dentro o não-texto implícito, e assim, todos os textos são possíveis. Aquilo que nos chega deve nos dar a possibilidade da dúvida, já que nenhum significado pode ser tão direto quanto pensamos que seja. A significação está sempre passível à desconstrução. Palavras que carregam informação direta sempre precisarão de mais informações para que possam ser vistas por completo. Exatamente o mesmo acontece com aquilo que comunicamos ao outro.
Durante as práticas do Treino e(m) criação, guiadas por Lua Couto, aprendi o termo “Diferência”, pensado por Derridá. O termo se trata da junção de ‘diferir’ + ‘adiar’, aspecto este da linguagem que só podemos nos tornar cientes graças à escrita. É como a ilusão de qualquer coisa nos esteja ao alcance de nossas percepções completas. Conforme lemos, criamos o resto da frase que, se estiver espaçada o suficiente abre alas para a imaginação operar. Uma sentença não finalizada paira no ar e ali permanece, junto à todas as suposições que a acompanham.
Por exemplo: “Um gato” gera uma imagem em nossa mente, quando acrescido de “um amigo viu”, geramos mais movimento ao significado do gato. “Meu amigo viu um gato num jardim”, muda o contexto do que estamos escutando, vendo, sentindo, lendo. “O gato que meu amigo viu no jardim era rajado laranja.” E aí a história acontece.
Assim, se interrompêssemos a informação apenas em “gato” ele estaria aprisionado em algum tipo de presença que poderia se transformar em um múltiplo de significados, já que antes da história se concluir já teríamos, erroneamente, atribuído muitas características a este mesmo gato.
Em nosso pensamento, escrita e fala, estamos sempre implicados na ampliação de questões políticas, históricas e éticas que nem sempre podemos reconhecer ou admitir. Por isso mesmo a presença demora a chegar. Como posso saber, se não posso sentir?
Infelizmente a maioria de nós foi criada a partir de questões que provocam apenas a parte de fora: como me portar, o que dizer, o que vestir, como dizer, como comer, o que comer, de que jeito andar, como falar: como escolher? O ambiente dita o jeito, e o resto fica escondido na camada esmaecida das coisas não ditas, não vistas, não tocadas, nem geridas nem vestidas.
Hoje o texto paira inteiro sobre o corpo, sobre o ato-des-ato, na fita infinita do que desaparece e depois se presentifica. Por isso que é difícil, não apenas estar lá, como em todo lugar, como jorrar essa coisa bruta, sem nome, ainda sem sentido, provavelmente sem alento. Como é que se da voz à garganta, quando ela emperra, quando ela pende, quando ela dói, quando ela não pode mais dizer?
Tem jeito do braço fazer, da perna, dos dedos, da língua, do meio. Às vezes é até algo besta, como cortar papel panamá com um estilete sem ponta, só para precisar fazer mais um pouquinho de força até o papel se romper: é a micro-raiva aplicada que, junto com a atenção presente, delimita os traços, tremedeira, erros, acertos, acasos. Meio que quando a gente foca em todas essas microcoisas, elas parecem amarrar o todo, dar sentido para escolhas acontecerem sem serem precisas, para que possam ser enxergadas com mais profundidade depois, quando a gente quiser olhar com mais calma para elas.
Participe do laboratório experimental das múltiplas caligrafias
O laboratório “Silêncio, Ruído” é pensado e articulado em 4 encontros pautados a partir de percepções filosóficas e práticas que introduzem a linguagem assêmica de modo ativo, com exercícios desenvolvidos para auxiliar criações artísticas. Não é necessário ter conhecimento prévio.
Evento Online
Quintas-feiras: 20h às 21h (20 e 27 de junho, 4 e 11 de julho)
Sábados: 9h às 10h (22 e 29 de junho, 6 e 13 de julho)
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assêmica é a menor parte de um significado.
este é o texto número 8.
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