Decompor é o estado imediato da alma. Logo na primeira lufada de ar recebemos o anuncio da morte: uma fatalidade que nos larga à deriva dada sua constante iminência. De todas as certezas que insistimos absolutas a única provável é o fim.
Cabelos, unhas e pelos num contínuo crescente, a pele que se estica e não arrebenta, salvo às vezes de quedas e outros tropeços. As coisas que se acabam só brilham por terem sido. Incontáveis sentimentos em dilúvio, ventanias que seguem secando as roupas do varal, microimpressões guardadas na terra e todos os segredos dos caminhos das águas.
Penso eu sem meus botões que não à toa Lavoisier talvez seja o primeiro aprendizado a grudar em nossa mente criança. Tão inconcebível é sua frase, que a reaprendemos um pouco mais toda vez que a lembramos. Estive assim por esses dias, conversando com gente funda sobre o que seria esse retorno ao nada: descobrimos paisagens, topologias, derivas, harmonias e voz. Vimos com lente de aumento o que existe no fundo da luva, onde o avesso toca o real e o eco aparece para olhar bem na pupila dos nossos olhos. Lembramos que tirando de dentro para fora o contato começa. Cortamos para nutrir e realocamos para criar. Uma vez mais movemos para poder decifrar. Estamos de novo investigando para daí conseguir escutar. E então compor, seguindo a circulação para assisti-la desmontar. O movimento dos braços foi mais feroz no que se deu como direção para nadar nessas águas. Decompor o que se sabe é movimento hipnótico, baila p’ra gente num tango-forró-sambeado-com-boomboosdetrap.
Me intriga à nível político como é que a decomposição emerge sempre em meio ao corte da fala. Quando o vislumbre do proibido mostra suas cascas a cultura se decompõe em milhares de formas, deixando sob o manto do oculto o que deveria estar às claras. Soa um pouco como estilhaçar do fogo essa coisa de manter reflexões vivas tanto quanto possam mudar. O encanto sussurra baixinho por dentro dos curiosos que metem o dedo na ferida sem dó, que se interessam por outros olhares que não os seus. Implicar-se por dentro é só o primeiro passo; manter o formato aberto diz que quem vem de fora tem como criar relação.
Nas últimas quatro semanas articulei a Oficina Decomposição com Malu Magri, e juntas guiamos a construção de uma música que aconteceu diante de nós. A proposta era essa mesmo, criar uma canção que partisse de coisas que precisamos decantar por alguns momentos, irradiando o processo coletivo no corpo a corpo, fazendo a garganta se abrir um pouco mais para que a respiração flua e a nota surja. Foi um belo mergulho, onde o mistério teve passe livre e o contato se fez real.
Ao mesmo tempo, semana passada (18) acompanhei o evento Reading Artist’s Books: Asemic Writing, projeto colaborativo de Regine Ehleiter e Tabea Nixdorff. O evento fez parte da exposição Mirtha Dermisache: To Be Read, sedeado no espaço A-Z, em Berlim. A programação contou com 12 artistas pesquisadores que, ou apresentaram seus trabalhos, ou leram livros de Mirtha, ou propuseram leituras acadêmicas sobre o que seria a ação da leitura quando signos, símbolos e significados escapam da semântica. Partindo dos trabalhos de Mirtha Dermisache (1940-2012, Argentina), muitas frestas se abrem para esta discussão sobre a decomposição do que sempre achamos estar alocado no saber.
No final dos anos 60, Mirtha propõe em suas obras um novo tipo de comunicação em massa: livros, textos, cartas, cartões postais, boletins, poemas, quadrinhos e jornais escritos sem palavra alguma. Justamente neste período eclodia a potência da arte conceitual na Argentina, não por acaso, em meio à ditadura militar. As obras da artista apareceram desprovidas do conteúdo para o qual é normalmente utilizado veículo de comunicação. O que Mirtha Dermisache fez foi empregar táticas conceituais para se relacionar com “o real”, abordar e criticar o uso dos veículos de massa e propaganda diante de circunstâncias políticas. A ilegibilidade de suas publicações nos mostra o gesto subversivo, que imita o vazio da propaganda estatal através da sua desinformação coercitiva. A persistência de Mirtha em continuar a “escrever”, publicar e distribuir seu trabalho sob a ditadura militar e opressão política foi em si um ato de resistência, e talvez seja o que ainda ecoa nas criações assêmicas, que agora parecem atingir um grupo maior de pesquisadores acadêmicos.
Assim como Mirtha Dermisache, que compos obras que nos contam sobre um período de silenciamento, Mira Schendel e Vilém Flusser também eclodem suas obras a partir destes contextos, foragidos de sua terra natal por causa das guerras, sob as impossibilidades do pensamento livre. O reconhecimento da escrita assêmica me mostra que talvez o período global de interesse na linguagem também esteja pautado por questões semelhantes, mas desta vez, partindo de uma ditadura midiática mais ou menos velada, advinda das redes sociais e da constante obrigação da solidão imposta aos nossos corpos reais.
No entanto, a dificuldade de deslocar a leitura de seu lugar habitual mostra o despreparo criativo que nossa geração incorporou na maneira de existir. Durante o evento da leitura de livros de artistas, a maioria dos pesquisadores não se dispôs, de fato, à decomposição do habitual. A leitura de artigos e periódicos que dizem sobre os outros modos de leitura foram articuladas em línguas inteligíveis, se perdendo da proposta de ler o ilegível, coisa que muito interessa à minha pesquisa com a linguagem assêmica.
A última turma do Laboratório das Múltiplas Caligrafias se encerrou no dia 11 de julho, e em breve novas turmas serão abertas, mas enquanto isso não acontece, o Grupo de Pesquisas Assêmicas será articulado quinzenalmente, a partir do dia 08 de agosto.
Os encontros acontecerão de forma online e gratuita, às quintas-feiras, das 19h às 20h.
Cada encontro será pautado sobre um assunto específico, e não por acaso começaremos com as formas de ler.
Para participar, basta se inscrever neste link.
O link para o encontro será enviado por e-mail.
Pensando justamente no aquecimento para esses encontros, destaco abaixo dois trabalhos que me chamaram atenção durante o evento Reading Artist’s Book: Asemic Writing, e que por assim ser, se tornam referência para o que busco em minha pesquisa, justamente no que diz respeito aos modos de leitura que se deslocam de seus sentidos habituais e cotidianos.
Getting Lost With a Map é um trabalho experimental de Konstantina Benaki-Chatzispasou (Grécia), que integra a pesquisa Asemic Wanderings. Na proposta, a artista sugere a leitura de um mapa assêmico criado a partir de anotações textuais. As formas retiradas dos textos se assemelham à plantas de espaços abertos, e a ação proposta aos participantes é fazer uma leitura de campo a partir dessas marcas.
Sebastián Barrante, da Naranja Publicaciones (Santiago/Chile), apresentou uma performance durante o evento, onde foi criando escritas assêmicas ao vivo, e que, ao fim das apresentações, foram lidas musicalmente por Guillermo Montecinos. Por momentos fixei a imagem da performance na tela, e acompanhei as escritas que Sebastián criava em tela. A sensação que tive é que o artista, escutando as apresentações, estava realmente lendo o som do que era dito, assim como os silêncios que se instauravam entre uma e outra apresentação.
Houveram ainda outras leituras interessantes durante o evento, como o livro “Die neue Sprache” (1980), de Eva Wipf, lido por Tabea Nixdorff, Arnhem e Monique Ulrich (Berlim), que fizeram jogos de leitura online e presencial, misturando vozes, línguas e outras sonoridades. A leitura do “Libro No 8, 1970. El mes de las moscas” (2019), de Sergio Chejfec and Mirtha Dermisache, por Silvina López Medin e Rebekah Smith (Nova York), partiu da mistura do inglês e do espanhol em voz alta.
Rosaire Appel (Nova York) é provavelmente uma das minhas artistas preferidas na atualidade. Pudemos ter o prazer de sua companhia durante o evento, nos apresentando os livros “As It Were” (2010) e “See Songs” (2012). Rosaire propôs uma leitura conjunta e em silêncio, pois, conforme ela nos conta no início de sua apresentação, a leitura de algo é sempre pessoal e qualquer informação a mais sobre o que já foi “escrito” pode fazer com que nossa cognição fique presa às informações e representações ditas, esvaziando a magia de nosso próprio encontro com a página.
O vídeo completo será compartilhado no canal do Vimeo do projeto.
Teoria e Crítica Literária: Jacques Derridá, Escrita e Diferência, com Larissa Drigo
Encontros quinzenais, terças-feiras, a partir de 20 de agosto
Presencial e online, gratuito
Informações e inscrições: grupoteoriaecritica@gmail.comLaboratório dos Sonhos
Segundas-feiras (05/08 - 09/12)
Presencial no @espaco_arco, Vila buarque, São Paulo.
Informações, inscrições e valores: coracaosubversivo@gmail.comAlfabeto da Reta, exposição de Edith Derdyk
Centro Universitário Maria Antonia, presencial e gratuito
Visitação: terça à domingo, das 10h às 18h, até 15 de setembro
Rua Maria Antônia, 258 - Vila Buarque, São Paulo
assêmica é a menor parte de um significado.
este é o texto número 9.
acompanhe meu trabalho em @assemica e @liapetrelli
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