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escrita assêmica · Mar 6, 2026

Esculturas da língua: design árabe e botânico, com Maria Alvina

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lia petrelli · escrita assêmica

Design, linguagem, imagem, escrita e natureza: entre todas essas palavras existe uma fronteira que não é óbvia. Às vezes a gente até pensa que sabe exatamente onde termina uma e começa a outra, mas basta tratarmos o olhar como um microscópio para perceber que não é bem assim.

Quando uma letra deixa de ser apenas letra e passa a ser desenho?
Quando uma palavra deixa de ser informação e passa a ser gesto?

No décimo episódio de Assemias, eu conversei com Maria Alvina, designer, pesquisadora e criadora do Index Votos.

Vamos lá: você já parou para pensar sobre as similaridades entre a língua portuguesa e a língua árabe? Pois foi desta explicação que nasceu o título desse episódio:

O português não é um idioma lógico, e isso faz ele não ser levado muito a sério.

Eu comecei a perceber umas similaridades muito grandes entre como a linguagem árabe é vista e como o português é visto, dentro do cânone ocidental. (...) Porque o português é um idioma complicado demais, é difícil demais. Tem muito dialeto e é um idioma assertivo, não é um idioma lógico. (...) Dentro do processo científico ocidental, desde a Renascença, a gente está sempre suprimindo qualquer coisa subjetiva, sensorial, etc.

Aquela coisa de que não existe tradução para “saudade”, sabe?
Essas pequenas coisas que trazem esse aspecto intraduzível, eu acho, o português é uma escultura, uma coisa muito viva, que você precisa viver pra conseguir entender.

E a mesma coisa é dita do idioma árabe, que ele é um idioma muito complexo e muito difícil e muito romântico. É um idioma muito sensível.

Quanto mais eu ouvia as pessoas descrevendo o quanto o árabe era difícil, com a intenção de afastar você dele, mas eu ia chegando perto mais, mais eu ia indo.

Agora, com um pouco de experiência (…) entendo que ele é o idioma do romance.
É o idioma de escrever poema de amor.

O Árabe é tido como idioma mais romântico. E, por isso, o idioma pouco prático.
Para que você vai fazer negócio em árabe?
Fazer negócio tem que ser prático, tem que ser inglês.
Árabe é pra escrever poema.

Maria Alvina

Trechos do post sobre Caligrafia Árabe e Grafitti, em Index Votos

Sinto que quanto menos eu entendia, mais eu entendia.

Maria Alvina, sobre o estudo da Cultura Árabe

Maria diz que é uma pessoa que habita as fronteiras, e isso fica muito claro quando conversamos com ela. O design é um território deliciosos para pessoas curiosas.

Ir contra a lógica atual é importantíssimo para começarmos a revolução, e isso é muito lindo em teoria. Na prática, a coisa fica um pouco mais densa.

No episódio que você está escutando destrinchamos uma brecha desses lugares, então atente os ouvidos: nossa conversa começa na caligrafia árabe, uma escrita que nunca abandonou o corpo, o gesto; um alfabeto sensível que não foi completamente capturado pela lógica maquinária, e que ainda guarda a dança da mão sobre o papel.

A partir daí, habitamos a fascinante fronteira: diferentes culturas compreendem a relação entre imagem, texto e infinito de maneiras muito particulares.

Na tradição islâmica, por exemplo, existe o princípio do aniconismo que por definição é “ausência ou proibição de representações visuais (ícones) de figuras sagradas, divindades ou seres vivos em diversas culturas e religiões”

A consequência disso é extraordinária e muito simples: se não se pode representar, então é preciso escrever, pois a escrita não limita a forma, ela conduz a imagem. Neste modo de pensamento “Deus” não pode ser tudo se ele é representado como um homem branco. Sendo uma imagem fechada em si mesma, ele deixa de ser uma mulher, deixa de ser negro, deixa de ser qualquer outra coisa que não seja um homem branco de olhos claros.

Representar divindades apenas através de sua mensagem, fragmenta as possiblidades ao infinito, pois ele não se resolve nunca, apenas propaga suas ideias, ou seja: escrever até que o texto seja imagem, até que a palavra se desenhe, até que o significado se desdobre no infinito.

Mas nossa conversa não para aí.

Teste de Empatia, jogo de perguntas de Maria Alvina

Maria também me conta sobre a sua pesquisa com escritas botânicas, um modo de pensar a linguagem como um sistema vivo, orgânico, que cresce, se conecta e se transforma como uma floresta.

Se a tipografia ocidental se aproximou cada vez mais da máquina, talvez existam linguagens que insistem em permanecer vivas. E talvez seja justamente aí que a escrita volte a respirar.

Quando eu estou falando da linguagem botânica, eu estou falando da parte interna da linguagem, da parte sistêmica, uma parte meio holística.

Como a gente organiza a linguagem de uma forma mais ampla?
Como a gente organiza o caminho?
Qual o objetivo da linguagem?

Não é o símbolo em específico, é o sistema de símbolos.

Por que a gente usa esse sistema? A palavra que eu gosto de usar é metodologia.
É o pensamento metodológico da linguagem.

No sentido filosófico: como a gente se relaciona com as plantas e como a sociedade, as pessoas e a importância que a planta tem na nossa vida, no nosso dia a dia. Como ver a planta como uma coisa viva e não como objeto, como a gente está num momento mudança de paradigma nesse aquecimento global. Enfim, o significado que a natureza tem no nosso léxico, na nossa visão de mundo.

Como [tudo] está mudando agora e como a gente não tem ferramenta para lidar com essa mudança, porque envolve mudar o nosso alfabeto da raiz, a gente está recorrendo a cosmovisão indígena, outras culturas e como outras culturas se relacionam com a natureza, etc. Então, junta essas discussões no mesmo balaio.

Uma discussão sobre decolonialismo, cultura indígena e sobre essa mudança de paradigma ecológico, de como a gente se relaciona com o meio ambiente.

Maria Alvina

Como sempre conversamos neste canal, a maior crise que enfrentamos é a da imaginação.

E principalmente agora, nesta última semana, soterrados por discursos e narrativas destrutivas, o desejo de encontrar soluções possíveis paira no ar.

O impossível barra a infinitude. Mas é natureza humana perseguir o impossível, e esta é, inclusive, a premissa da escrita assêmica.

Os primeiros manifestos assêmicos declaram que é uma busca impossível, e só por ser impossível é que vale a pena essa perseguição (Jim Letwich).

E assim, o resultado não se esgota, se expande.
É daí que vem minha paixão: o pensamento não para, ele se multiplica.

Durante o episódio, algo aparece o tempo todo: a ideia de que escrever também é um gesto corporal.

O que acontece quando a escrita deixa de ser apenas transmissão de informação?
O que acontece quando a escrita volta a ser movimento, ritmo e presença?

Escute o episódio pensando nisso, e tent deixar suas mãos criarem padrões do infinito. Não pense com a lógica ocidental: escreva de trás para frente. Não use letras bastão, sinta seu punho dançar. Perceba como os seus dedos se conectam com o seu cotovelo, como sua coluna se conecta com suas pernas, como seu olhar ativa imagens vivas por dentro de você.

Talvez, no final, você perceba que a diferença entre desenhar, escrever e dançar não é tão grande quanto parece.

Por hora, é isso.

Sigamos.

ASSEMIAS
captação, edição, criação e idealização:
Lia Petrelli.
trilha sonora: Filipe Ignatius.
apoio e distribuição: Function FM.

🎧 Disponível nas principais plataformas digitais.

Read the original on assemica.substack.com

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