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Ascen Cripto Newsletter · Jul 22, 2026

🟠O Bitcoin foi a Destruição Criativa; a CBDC é a tentativa de absorvê-la

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Schumpeter ajuda a explicar por que uma ruptura externa força o incumbente a reagir nos próprios termos: 146 países já exploram CBDCs

🟠Schumpeter, Destruição Criativa, Bitcoin e Moeda Digital de Banco Central (CBDC)

(Imagem Ilustrativa: Destruição Criativa de Schumpeter e o Bitcoin)

Joseph Schumpeter (1883-1950) chamou de destruição criativa o processo pelo qual a inovação reorganiza mercados, empresas e estruturas inteiras de produção. O Bitcoin, proposto em 2008 e lançado operacionalmente em 2009, levou essa lógica ao dinheiro: uma rede monetária digital sem banco central, sem intermediário financeiro obrigatório e sem permissão prévia. As CBDCs são a resposta institucional a essa mudança de agenda. Hoje 146 países (98% do PIB global) exploram alguma forma de moeda digital de banco central, mas apenas 3 chegaram ao lançamento de varejo. O caso do Drex no Brasil, cuja primeira arquitetura tecnológica não se mostrou viável, ilustra a tensão central deste artigo: ao tentar absorver a inovação, o incumbente nem sempre a domestica; muitas vezes, apenas revela que a direção da mudança passou a ser definida fora dele.

Em 1942, Joseph Alois Schumpeter publicou Capitalism, Socialism and Democracy e popularizou o conceito que o tornaria célebre: a destruição criativa (schöpferische Zerstörung).

O argumento é de que o que move o capitalismo não é a competição de preços dentro de estruturas estáveis; é a inovação que destrói as próprias estruturas. O concorrente que importa não é o que vende o mesmo produto mais barato, é o que cria um produto que torna o anterior dispensável.

O sistema monetário resistiu a essa dinâmica por muito tempo. Bancos centrais, cujo modelo remonta ao Banco da Inglaterra (1694), consolidaram ao longo dos séculos o controle sobre a moeda de base, a unidade de conta e a liquidação final do sistema monetário, um arranjo que parecia estruturalmente invulnerável.

Até 31 de outubro de 2008, quando um autor anônimo publicou nove páginas propondo um sistema de dinheiro eletrônico peer-to-peer que dispensava a necessidade de confiar em um intermediário financeiro para validar transações. A rede entrou no ar em 3 de janeiro de 2009, com o bloco gênese. A partir dali, a proposta deixou de ser teoria.

A leitura de que o Bitcoin viria a substituir o sistema é defensável, mas é interpretação posterior; o whitepaper propõe, mais modestamente, dinheiro eletrônico sem intermediário de confiança. O efeito, porém, foi o de uma ruptura.

Pela primeira vez de forma duradoura, a emissão programada e a liquidação econômica de uma moeda passaram a funcionar sem depender de uma autoridade central emissora ou validadora.

A reação dos bancos centrais seguiu um roteiro reconhecível ao enfrentar inovações: ignorar ➔ resistir ➔ tentar absorver.

As CBDCs são essa última fase. Mas, enfim, quando um banco central lança a sua própria moeda digital, ele está domesticando a inovação, ou reconhecendo que a agenda já mudou de mãos?

CBDC [moeda digital de banco central]: versão eletrônica da moeda estatal, emitida pela autoridade central. O BIS distingue várias arquiteturas; de varejo ou de atacado, modelo direto, híbrido ou intermediado, com ou sem DLT (tecnologias similares à blockchain). Uma CBDC pode ampliar a rastreabilidade e permitir camadas de programabilidade, mas o grau disso depende do desenho institucional escolhido; não é uma propriedade automática de toda CBDC.

1. Schumpeter como lente

A leitura mais honesta não é dizer que Schumpeter previu o Bitcoin ou as CBDCs, e sim que sua teoria oferece uma lente poderosa para entender o choque. A literatura schumpeteriana distingue dois padrões de inovação:

  • Mark I, associado a The Theory of Economic Development (1911, em inglês a partir de 1934), a inovação vem de fora, por novos entrantes que desafiam estruturas consolidadas, em ambientes de baixa barreira de entrada e alta turbulência.

  • Mark II, associado à obra de 1942, o incumbente (aquele ou aqueles que possuem posição dominante no mercado ou sistema) tenta internalizar a mudança por meio de grandes estruturas organizadas de inovação.

Os dois padrões enquadram bem o que está em jogo. O Bitcoin se aproxima do primeiro; nasceu fora do sistema bancário, sem autorização estatal e sem emissor central. As CBDCs se aproximam do segundo; são a tentativa do Estado de reconstruir a inovação digital dentro da arquitetura institucional que ela havia colocado em questão.

É na obra de 1911/1934 que Schumpeter cataloga cinco tipos de inovação:

  1. novos produtos,

  2. novos métodos de produção,

  3. novos mercados,

  4. novas fontes de insumo,

  5. e novas formas de organização industrial.

O Bitcoin preenche várias ao mesmo tempo. É um novo produto (dinheiro digital sem emissor), um novo método de produção (mineração como mecanismo de consenso), um novo mercado (pagamentos peer-to-peer globais) e uma nova forma de organização (governança por código, sem hierarquia central). Poucas inovações ocupam tantas categorias de uma vez.

Vale somar a isso a ideia de creative response, que Schumpeter desenvolveu em 1947. A inovação não é resposta mecânica a incentivos; é resposta criativa, incerta, situada institucionalmente e impossível de prever inteiramente antes de acontecer. Isso ajuda a fundamentar a tese deste artigo. O sistema monetário não apenas reage ao Bitcoin de forma automática; ele tenta reinterpretar a ruptura nos seus próprios termos, e o resultado dessa reinterpretação não estava dado de antemão.

Hayek, em Desestatização do Dinheiro (1976), entra como ponte austríaca, e defendeu que a concorrência entre moedas privadas disciplinaria o poder de compra melhor do que qualquer monopólio estatal. O Bitcoin não realizou a tese de Hayek à letra, mas devolveu a concorrência monetária ao tabuleiro depois de décadas de predominância estatal sobre a moeda de base. O eixo do argumento, porém, segue sendo schumpeteriano.

2. O mapa da reação: rápida na largada, lenta no fim

Os números mostram a velocidade da resposta. Segundo o Atlantic Council CBDC Tracker (atualizado em maio de 2026), 146 países e uniões monetárias, somando mais de 98% do PIB global, exploram alguma forma de CBDC. Em maio de 2022 eram 87; em 2020, apenas 35. O salto reflete a reação institucional depois que o Facebook anunciou o projeto Libra em 2019, o evento que transformou a CBDC de curiosidade acadêmica em prioridade estratégica.

Aqui cabe uma ressalva importante. A CBDC não é apenas reação ao Bitcoin. Ela responde também à digitalização dos pagamentos, às stablecoins, ao próprio Libra/Diem, e a objetivos clássicos de política pública como inclusão financeira, eficiência, soberania monetária e modernização de infraestrutura.

O BIS (Bank for International Settlements, ou Banco de Compensações Internacionais em português) trata a CBDC mais como projeto de infraestrutura monetária do que como simples resposta a criptoativos. Ainda assim, é visível que não é apenas isso. Bitcoin, stablecoins e Libra deslocaram a agenda, e as CBDCs são a resposta estatal a essa pressão competitiva.

A largada foi veloz. A resposta, não. 77 países estão em fase avançada, 41 em piloto, e apenas 3 CBDCs de varejo circulam de fato: Bahamas (Sand Dollar), Jamaica (Jam-Dex) e Nigéria (eNaira), todas com adoção lenta e dificuldades técnicas. Entre os membros do G20, 14 estão em piloto. A exceção notável são os Estados Unidos, onde Donald Trump assinou em 23 de janeiro de 2025 uma ordem executiva que proíbe agências federais de criar, emitir ou promover uma CBDC de varejo, apostando, em vez disso, em stablecoins privadas lastreadas em dólar.

O incumbente reagiu rápido porque sentiu a mudança de agenda; entregou pouco porque copiar a forma da inovação é fácil, replicar o que ela resolve é difícil. O Bitcoin entregou liquidação econômica sem intermediário de confiança, baseada em consenso probabilístico e prova de trabalho. A CBDC, na maioria dos desenhos, mantém a forma digital e preserva o intermediário.

3. O que a tentativa de absorção revela

Vale separar o que uma CBDC mantém do que ela inverte. O Bitcoin nasceu para retirar o intermediário e a permissão da equação do dinheiro. A CBDC mantém a forma digital e devolve, reforçado, o intermediário; o banco central passa a ocupar o centro do arranjo, com graus variados de visibilidade sobre as transações.

Feita essa ressalva, o ponto central permanece. Ao lançar uma moeda digital, o banco central reconhece três coisas que até pouco tempo relativizava: que uma parcela crescente do dinheiro e da infraestrutura de pagamentos será digital e baseada em redes, que a forma física perde centralidade, e que ele próprio precisa de um produto novo para não ficar para trás. Quem definiu essa agenda não foi o incumbente. Foi, em primeiro lugar, uma inovação vinda de fora da estrutura bancária.

Schumpeter reconheceria o padrão. O incumbente que tenta absorver o disruptor não prova força. Sinaliza que perdeu a iniciativa. E, no padrão Mark II, ao internalizar a inovação dentro da própria arquitetura, ele precisa retirar dela justamente aquilo que a tornava radical.

4. O Drex como caso concreto do atrito

O que é o Drex? Fonte: Banco Central do Brasil (BCB)

O caso brasileiro fecha o argumento melhor do que qualquer número global. O Drex, originalmente chamado Real Digital, está no centro do debate brasileiro sobre moeda digital de banco central e infraestrutura soberana de tokenização, embora o próprio BC tenha passado a tratá-lo menos como uma CBDC de varejo tradicional e mais como uma infraestrutura regulada para liquidação e ativos tokenizados. Em novembro de 2025, depois de sucessivos pilotos, o BC desligou a plataforma tecnológica do piloto e indicou que recomeçaria a etapa de tecnologia.

O Drex não deve ser tratado como fracasso definitivo do Banco Central, mas como evidência concreta da dificuldade de traduzir uma inovação descentralizada para uma infraestrutura estatal, permissionada e juridicamente controlada.

O presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou que a arquitetura testada “não se revelou viável”; a base de DLT escolhida não conseguiu conciliar, ao mesmo tempo, programabilidade, privacidade, sigilo bancário e segurança operacional. Por isso o projeto não foi abandonado, e sim reformulado; a próxima etapa, prevista para o segundo semestre de 2026, deve começar por casos de uso mais estreitos, como o uso de ativos financeiros (ações e títulos) como garantia em operações de crédito.

DLT (Distributed Ledger Technology, ou tecnologia de livro-razão distribuído) é um tipo de banco de dados compartilhado e sincronizado entre vários participantes, sem depender de um administrador central único. Em vez de uma instituição guardar o "livro-razão" oficial das transações, cada nó da rede mantém uma cópia idêntica que é atualizada por consenso, o que torna os registros mais difíceis de alterar ou falsificar. A blockchain do Bitcoin é o exemplo mais conhecido de DLT, mas o conceito é mais amplo: existem DLTs sem blocos encadeados e versões permissionadas (acesso restrito), como a que o Drex testou.

Repare na inversão. O Bitcoin resolveu o problema difícil primeiro, consenso sem confiança, e funciona há mais de quinze anos sem precisar de autorizações externas. O Drex tentou trazer a forma da inovação para dentro e esbarrou justamente na parte que o incumbente não consegue abrir mão: o controle. Um sistema que precisa preservar sigilo bancário, hierarquia de acesso e reversibilidade não é o que o Bitcoin inventou. É o sistema antigo com infraestrutura nova.

A leitura schumpeteriana é exatamente essa. O incumbente não consegue mais ignorar a ruptura, e tenta absorvê-la. Mas, ao fazê-lo dentro de uma arquitetura permissionada, precisa retirar dela aquilo que a torna inovadora. Não é fracasso de engenharia brasileira; é a tensão estrutural entre uma tecnologia cujo propósito é dispensar o controle central e uma instituição cuja razão de existir é exercê-lo.

Saiba mais sobre o Drex aqui:

5. Considerações Finais

A história das CBDCs costuma ser contada como a do Estado modernizando o dinheiro. A leitura schumpeteriana é mais assertiva e mais útil para entender o que está acontecendo.

A inovação veio de fora, de um anônimo, sem permissão; é o padrão Mark I. Os “concorrentes” ignoraram, resistiram e agora tentam internalizá-la, no que se aproxima da tentativa Mark II.

Os 146 países no mapa não são, sozinhos, sinal de força institucional. São sinal de que a iniciativa mudou de lado. E o Drex, ao travar na fronteira entre programabilidade e controle, mostra o limite concreto dessa absorção.

Schumpeter nunca prometeu que os agentes econômicos dominantes no setor (os incumbentes) seriam destruídos. Sua ideia de resposta criativa (creative response) sugere o contrário; a resposta do sistema é criativa, incerta e disputada. O que a teoria ilustra é que o incumbente foi forçado a responder em terreno que não escolheu.

Essa é uma leitura que os fatos sustentam bem; o Bitcoin foi a destruição criativa, e a CBDC é a tentativa, ainda em aberto, de absorvê-la.

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Fontes: Schumpeter, J. (1911/1934), The Theory of Economic Development; Schumpeter, J. (1942), Capitalism, Socialism and Democracy; Schumpeter, J. (1947), The Creative Response in Economic History, Journal of Economic History; Hayek, F. (1976), Desestatização do Dinheiro; Nakamoto, S. (2008), Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System; Atlantic Council CBDC Tracker, atualização de maio de 2026; Bank for International Settlements, relatórios sobre fundamentos, princípios e arquiteturas de CBDC; Banco Central do Brasil e declarações de Gabriel Galípolo sobre o Drex (nov/2025); The White House, Executive Order 14178, Strengthening American Leadership in Digital Financial Technology, 23/01/2025.


Autor: Daniel Ascen - Economista, Analista de Criptoativos e Fundador da Ascen Cripto

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