Os seis maiores protocolos de empréstimo do DeFi concentram, somados, mais de US$ 38,7 bilhões em valor total bloqueado (TVL), segundo a categoria Lending da DefiLlama (04/07/2026); o Aave, líder, responde por cerca de US$ 13 bilhões. No nível do protocolo, endereços fornecem liquidez e tomam empréstimos sem análise tradicional de identidade, renda ou score. O que substitui a análise de crédito pessoal é a sobrecolateralização: a garantia depositada vale mais do que a dívida, e posições que perdem margem tornam-se elegíveis para liquidação programática, executada segundo as regras do protocolo. Este artigo explica como esse desenho funciona, de onde vêm os juros e o que pode dar errado.
Um banco empresta porque acredita que você vai pagar. Por trás de cada crédito aprovado existe um aparato de confiança: cadastro, comprovante de renda, análise de score, garantias e, no limite, o judiciário para cobrar quem não paga.
No modelo clássico de lending permissionless [empréstimo aberto, sem autorização prévia de um intermediário] e sobrecolateralizado, nada disso é necessário. Do outro lado do contrato há um endereço pseudônimo, sem que o protocolo precise conhecer sua renda ou recorrer ao Judiciário para executar a garantia. Emprestar nesse ambiente parece impossível.
E, no entanto, é um dos maiores casos de uso do DeFi. Bilhões de dólares circulam nesses mercados, cujo desenho busca substituir a inadimplência prolongada pela liquidação antecipada da garantia.
Mas, então, como emprestar dinheiro a um desconhecido sem nunca saber o nome dele?
DeFi (finanças descentralizadas) é um conjunto de serviços financeiros, como trocas de moedas, empréstimos e rendimento sobre depósitos, que funcionam sem banco ou corretora no meio: as regras ficam escritas em contratos inteligentes, programas que rodam em blockchains públicas e executam as operações automaticamente. Em vez de confiar em uma instituição, você interage direto com o protocolo usando sua própria carteira, com tudo verificável on-chain. O rendimento vem de uso real (taxas de troca, juros de tomadores), e os riscos também são reais: falhas de contrato, volatilidade e ausência de um garantidor, como o FGC do Brasil.
A resposta do DeFi foi trocar o objeto da análise. Em vez de avaliar a pessoa, o protocolo avalia a garantia. Quem quer tomar emprestado precisa primeiro depositar um ativo que vale mais do que a dívida que pretende contrair; é a chamada sobrecolateralização [garantia superior ao valor do empréstimo].
Frank Knight (1885-1972), em Risco, Incerteza e Lucro (1921), separou o risco mensurável da incerteza que não se mede. A análise de crédito tradicional convive com a incerteza sobre o comportamento futuro do devedor. O colateral desloca o centro do problema para riscos mais observáveis e quantificáveis, como preço, liquidez e capacidade de executar a garantia em tempo hábil.
No DeFi, o caráter do devedor deixa de importar porque a garantia responde por ele. O protocolo não depende de cobrança posterior. Se a relação entre garantia e dívida cruza o limite definido pelo mercado, a posição pode ser liquidada, porque o colateral já está depositado no contrato.
Não por acaso, os modelos de crédito sub ou não colateralizado no DeFi reintroduziram avaliação de risco, identidade, contratos jurídicos e confiança em terceiros, e alguns registraram defaults relevantes, como o da Orthogonal Trading nos mercados da Maple, em 2022. Nos processos de empréstimo aberto sobrecolateralizado, o colateral não é um detalhe do modelo, mas uma configuração essencial.
O desenho lembra o de um pool de liquidez, tema do artigo anterior, agora aplicado ao crédito.
De um lado, depositantes fornecem ativos ao mercado, tipicamente stablecoins, e passam a receber juros. Do outro, tomadores depositam colateral (por exemplo, ETH) e sacam parte do valor em empréstimo. No meio, um contrato inteligente faz a contabilidade que o banco faria.
Os juros não são definidos operação por operação por uma mesa de crédito. Cada mercado segue uma curva parametrizada que reage à utilização: quando muita liquidez é tomada emprestada e sobra pouco capital disponível, as taxas sobem; quando a utilização cai, elas tendem a cair. Os parâmetros dessa curva podem ser definidos e alterados pela governança do protocolo.
Duas características completam o desenho nos mercados variáveis descritos aqui. Não há vencimento fixo: a dívida permanece aberta enquanto a posição continuar dentro dos parâmetros do protocolo e pode ser quitada parcial ou integralmente, a qualquer momento. E não há parcela: os juros se acumulam continuamente sobre o saldo, até a quitação.
Em sua base econômica, o rendimento variável de quem fornece liquidez vem dos juros pagos por quem efetivamente toma capital emprestado. Taxas do protocolo e eventuais incentivos podem alterar o retorno final.
Em protocolos como o Aave, toda posição de empréstimo pode ser resumida por uma métrica central: o health factor [fator de saúde, a razão entre o valor do colateral ajustado e o da dívida]. Outros protocolos usam critérios equivalentes de solvência e margem, com nomes e mecânicas próprios.
Saiba mais sobre a Aave aqui:
De forma simplificada, funciona assim: acima de 1, a posição está saudável; abaixo de 1, ela se torna elegível para liquidação: liquidadores independentes, geralmente bots, disputam a execução da operação segundo as regras do protocolo, pagando parte ou toda a dívida elegível em nome do tomador e recebendo, em troca, colateral acrescido de um bônus de liquidação.
Um exemplo hipotético para fixar a conta. Suponha US$ 10.000 em ETH como colateral, um empréstimo de US$ 5.000 em stablecoin e limite de liquidação de 80%. O health factor é 10.000 × 0,80 ÷ 5.000 = 1,6. Se o ETH cai 40%, o colateral vai a US$ 6.000 e o health factor cai para 6.000 × 0,80 ÷ 5.000 = 0,96; abaixo de 1, a posição torna-se elegível para liquidação, com custo adicional para o tomador. Os parâmetros exatos variam por protocolo e por ativo.
A liquidação de fato é implacável, mas ela é a principal defesa do sistema para quem deposita ao reduzir ou encerrar a dívida antes que a cobertura do colateral seja totalmente consumida. O banco tradicional resolve inadimplência com cobrança e provisão; o protocolo resolve com regras e velocidade.
Por isso operadores prudentes não trabalham no limite. Não existe um health factor universalmente seguro, a margem adequada depende da volatilidade e da correlação entre o colateral e a dívida. Quanto maior a chance de uma queda brusca do colateral, maior deve ser a folga da posição.
Para quem acha que esse setor do mercado de ativos digitais é nichado, ledo engano. Segundo a categoria Lending da DefiLlama (04/07/2026), o Aave concentra cerca de US$ 13 bilhões em TVL [Total Value Locked, valor total bloqueado; na metodologia da DefiLlama para empréstimos, o TVL exclui os ativos já tomados emprestado]. Somados, os seis maiores da categoria concentram mais de US$ 38,7 bilhões em TVL.
E por que alguém toma emprestado contra o próprio patrimônio? Um motivo frequente é obter liquidez sem vender os ativos. Quem mantém uma tese de longo prazo para os ativos que possui, e não quer se desfazer da posição, pode usá-los como garantia e sacar stablecoins para uma necessidade pontual. Há também usos de capital de giro e de alavancagem; esta última amplia ganhos e perdas e adiciona o risco de liquidação.
Vale o paralelo com o mundo tradicional. O crédito com garantia de imóvel, por exemplo, existe há décadas e é mais barato do que o crédito sem garantia justamente porque a garantia reduz o risco do credor. O DeFi aplica a mesma lógica a ativos digitais líquidos, com uma diferença de execução: a garantia pode ser liquidada on-chain, segundo regras previamente definidas, sem depender de cartório, leilão tradicional ou cobrança judicial.
A tabela abaixo resume a troca que o modelo propõe.
A última linha da tabela é a mais importante. Não há Fundo Garantidor de Crédito (FGC), não há socorro estatal, não há gerente para renegociar. Os riscos no DeFi são de outra natureza. Contratos inteligentes podem ter falhas exploráveis.
Parâmetros e governanças podem mudar. Oráculos [serviços que informam preços ou outras informações externas aos contratos inteligentes] podem reportar valores inadequados e disparar liquidações indevidas. Garantias podem perder liquidez no pior momento. Stablecoins podem perder a paridade. E em quedas rápidas de mercado, liquidações em cascata podem derrubar preços e liquidar posições que pareciam seguras minutos antes.
E há o risco de quem toma. A volatilidade do colateral trabalha contra a margem o tempo todo, e um empréstimo confortável em mercado calmo pode virar liquidação em uma madrugada de queda. Quem toma emprestado contra cripto precisa acompanhar a posição e dimensioná-la com folga suficiente para reduzir a necessidade de intervenções frequentes.
Nada disso invalida o mecanismo. Tudo isso exige que ele seja operado com critério, margem e conhecimento das regras antes da primeira operação.
O empréstimo sobrecolateralizado é talvez a peça mais subestimada do DeFi. Ele mostra que certas formas de crédito não precisam depender da confiança pessoal no devedor, e que podem substituir parte dessa confiança por garantia de criptoativos, regras transparentes e execução programática. O mercado dos ativos digitais descentralizado não se interessa em quem você é, mas o que você coloca como colateral.
Dito isso, há duas formas de atuar nesse setor do mercado. Como fornecedor de liquidez [lender - provedor de empréstimo], onde o rendimento-base vem dos juros pagos por tomadores reais, com riscos que precisam ser analisados cuidadosamente de forma prévia. E como tomador de empréstimo [borrower], exigindo um cuidado com o health factor, que é o primeiro número a acompanhar, e com a margem escolhida que determina quanto espaço a posição tem para absorver o inesperado.
Na Mentoria Ascen DeFi esse método é ensinado com a sua própria mão: são 6 módulos individuais e ao vivo, da autocustódia à gestão de risco, incluindo empréstimos descentralizados. Sem trade, sem sinais, sem promessa de retorno; é conhecimento técnico para ser aplicado à infraestrutura DeFi.
Fontes: DefiLlama (2026), Lending: Protocol Rankings e Data Definitions, consulta em 04/07/2026; Aave (2026), Health Factor & Liquidations, Borrow Tokens e Repay Tokens; Compound (2026), Compound III: Interest Rates, Collateral & Borrowing e Liquidation; Knight, F. H. (1921), Risk, Uncertainty and Profit; Maple Finance e Orthogonal Credit (2022), comunicados sobre a inadimplência da Orthogonal Trading e o encerramento da relação com o protocolo.
Autor: Daniel Ascen - Economista, Analista de Criptoativos e Fundador da Ascen Cripto

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