Em 2026, o volume de negociação onchain de ações tokenizadas acumulou US$ 9 bilhões, alta de cerca de 800% desde janeiro. Só em junho, o volume de transferências onchain somou US$ 9,22 bilhões, contra US$ 53 milhões um ano antes. No mesmo mês, o valor desses ativos em circulação chegou a US$ 1,7 bilhão, mais de cinco vezes o nível de 2025, e seguiu subindo depois. Na Jupiter, 55% do volume acontece fora do horário tradicional. Ao mesmo tempo, Nasdaq, DTCC, ICE, Coinbase e outras instituições estão adaptando a infraestrutura tradicional a esse novo trilho. Este artigo mostra por que negociar 24 horas é apenas a superfície da mudança — e como as pools de liquidez permitem ao investidor deixar de ser apenas cliente para também participar do funcionamento do mercado.
Todo mercado precisa de duas coisas: ativos e liquidez. A ação representa uma participação em uma empresa. A liquidez é o que permite que essa participação seja comprada ou vendida sem que o mercado pare entre uma ordem e outra.
No mercado tradicional, o investidor enxerga a tela, escolhe uma ação e envia uma ordem. Por trás desse gesto existe uma estrutura muito maior: bolsas, corretoras, custodiantes, câmaras de compensação e formadores de mercado que mantêm ofertas de compra e venda disponíveis. O pequeno investidor usa essa liquidez, mas raramente participa de sua construção.
A tokenização começa a mudar esse desenho. Quando a representação de uma ação passa a circular em uma blockchain, ela deixa de existir apenas como um registro fechado dentro de uma corretora. Pode ser transferida entre carteiras, integrada a contratos inteligentes, usada como garantia, conectada a empréstimos e disponibilizada em uma pool de liquidez. O ativo continua ligado ao mercado de ações, mas ganha uma nova camada de possibilidades.
Mas o que muda quando uma ação deixa de ser apenas um ativo que o investidor compra e passa a ser também uma peça utilizável dentro de uma infraestrutura financeira aberta?
Durante décadas, pareceu natural que o mercado de ações abrisse pela manhã, encerrasse à tarde e simplesmente parasse durante a noite, os fins de semana e os feriados. Essa janela não pertence à ação. Pertence à infraestrutura criada para negociá-la, custodiar sua propriedade e reconciliar as operações entre diferentes intermediários.
O problema é que o mundo não respeita esse horário. Uma empresa pode publicar um resultado depois do fechamento. Uma crise geopolítica pode começar no sábado. Um investidor na Ásia pode querer negociar uma empresa norte-americana enquanto Nova York dorme. A informação continua formando preços mesmo quando a bolsa está fechada.
Os dados de atividade roteada pela Jupiter, principal camada de acesso a ações tokenizadas na Solana, tornam essa demanda visível: 55% do volume de ações tokenizadas da plataforma acontece fora do horário tradicional. Mais da metade da atividade ocorre justamente no período em que o mercado convencional não está disponível.
Ação tokenizada [representação digital de uma ação]: um token emitido em blockchain que acompanha o preço de uma ação ou de um ETF. Dependendo do emissor, pode representar a própria participação societária, um certificado lastreado ou apenas uma exposição econômica ao preço do papel.
Para quem veio do mercado cripto, negociar a qualquer hora não parece inovação; parece o funcionamento normal de um mercado digital. É por isso que a janela limitada do pregão começa a soar arcaica. A tokenização não inventou a demanda por um mercado global e contínuo. Ela apenas criou uma infraestrutura capaz de atendê-la.
Quando esse comportamento encontra ativos conhecidos, como ações e ETFs, o crescimento deixa de ser apenas uma tese. Ele aparece nos números.
No fim de junho de 2026, o valor das ações tokenizadas em circulação chegou a aproximadamente US$ 1,7 bilhão, contra US$ 329 milhões um ano antes, mais de cinco vezes o registrado em 2025. A escalada não parou aí: no início de agosto, esse valor já superava US$ 2,6 bilhões.
O salto do volume é ainda mais expressivo. Em junho de 2026, as transferências onchain somaram US$ 9,22 bilhões, contra cerca de US$ 53 milhões em junho de 2025. Em doze meses, a atividade mensal foi multiplicada por mais de 170 vezes.
Vale separar duas medidas que costumam ser confundidas. O volume de transferências mede toda a movimentação dos tokens entre carteiras. Já o volume de negociação conta apenas as trocas efetivamente executadas em corretoras descentralizadas. Nesse segundo recorte, o acumulado de 2026 chegou a cerca de US$ 9 bilhões, alta de aproximadamente 800% em relação ao patamar de janeiro.
Mudou também o perfil do que está sendo tokenizado. Um ano atrás, quase 80% do valor em circulação estava concentrado em ativos ligados a empresas do próprio setor cripto. Hoje esse peso caiu para cerca de um quinto, enquanto ETFs, índices, megacaps de tecnologia e nomes ligados a inteligência artificial e semicondutores ocupam o espaço. O mercado deixou de ser um espelho do cripto e passou a refletir a bolsa de verdade.
A Solana tornou-se o principal laboratório dessa expansão. No segundo trimestre, a rede registrou cerca de US$ 5,8 bilhões em volume de ações tokenizadas em corretoras descentralizadas, alta de 114% sobre o trimestre anterior, e concentrou entre 95% e 97% do volume global negociado em DEXs nesse segmento.
Saiba mais sobre a Solana aqui:
A Raydium, uma das principais DEXs da rede, ultrapassou US$ 3 bilhões em volume acumulado de ações tokenizadas em 27 de junho, sendo o último bilhão adicionado em apenas um mês. Em 24 de junho, o volume diário chegou a US$ 644 milhões, recorde para um único dia de negociação de ações tokenizadas em qualquer rede.
DEX [corretora descentralizada]: plataforma de negociação que funciona por contratos inteligentes, sem uma empresa central intermediando as ordens. As trocas acontecem diretamente contra um estoque de ativos depositado por usuários, e não contra um livro de ofertas mantido por instituições.
O que esses números mostram não é apenas que mais tokens foram emitidos. Mostram que capital, volume e infraestrutura começaram a crescer juntos. Uma categoria deixa de ser experimento quando passa a ter ativos disponíveis, plataformas disputando fluxo e investidores utilizando o mercado em horários que antes nem sequer existiam.
E quando um novo comportamento financeiro ganha escala, o sistema estabelecido precisa responder.
A Nasdaq recebeu autorização da SEC para avançar com uma sessão de negociação de 23 horas por dia, cinco dias por semana, com estreia marcada para 6 de dezembro de 2026. A mudança não cria um mercado verdadeiramente 24/7, mas reconhece algo que o ambiente cripto já demonstrou: investidores globais não querem depender de uma janela de poucas horas para reagir ao mundo.
Em março, a SEC aprovou uma mudança nas regras da própria Nasdaq para permitir um programa de negociação de determinados títulos em formato tokenizado. As versões elegíveis devem compartilhar o mesmo livro de ofertas e preservar os direitos do ativo tradicional. A blockchain deixa, assim, de aparecer apenas como um mercado paralelo e começa a entrar na arquitetura oficial do mercado de capitais.
Vale registrar o tamanho real desse primeiro passo. Na estrutura aprovada, a liquidação permanece em T+1 pelos canais convencionais e a tokenização entra como uma etapa posterior ao fechamento do negócio. O trilho tradicional está sendo adaptado por partes, não substituído de uma vez.
Em 15 de julho, a DTCC processou operações reais com títulos do Tesouro, ações e ETFs tokenizados ao lado de mais de 30 instituições, entre elas BlackRock, Goldman Sachs, J.P. Morgan e Vanguard. A dimensão desse sinal é difícil de ignorar: sua subsidiária DTC prestou custódia a US$ 114 trilhões em títulos em 2025. Não é uma startup tentando provar um conceito; é uma das principais engrenagens do mercado norte-americano testando como essa infraestrutura pode funcionar em escala.
A controladora da Bolsa de Nova York formou uma joint venture com a OKX para desenvolver mercados regulados de ativos tokenizados. A Coinbase anunciou ações tokenizadas com lastro integral e direitos societários para clientes fora dos Estados Unidos. Corretoras, bolsas, custodiantes e empresas cripto começaram a construir pontes na mesma direção.
O mercado tradicional não está simplesmente cedendo espaço ao mercado cripto. Está incorporando a lógica que a blockchain tornou inevitável: ativos globais precisam de uma infraestrutura global, contínua e programável. A discussão já não é apenas se os ativos irão para a blockchain, mas de que forma esse movimento será integrado ao sistema financeiro.
Ainda assim, concluir que a grande mudança é apenas negociar por mais horas seria enxergar somente a parte mais visível da transformação.
Estender o pregão responde à pergunta de quando uma ação pode ser negociada. A tokenização responde a uma pergunta maior: o que pode ser feito com essa ação depois que ela passa a existir em uma rede programável?
Dentro de uma corretora tradicional, a ação permanece cercada por sistemas separados. Uma base registra a custódia, outra executa a negociação, outra cuida da liquidação e diferentes instituições conectam cada etapa. O investidor compra, vende e recebe os benefícios previstos, mas pouco consegue fazer fora daquele ambiente.
Na blockchain, a representação do ativo pode conversar diretamente com outros contratos. Pode ser transferida entre carteiras, utilizada como garantia, integrada a protocolos de crédito, combinada a stablecoins, inserida em estratégias automatizadas e disponibilizada como liquidez para outras pessoas negociarem.
Essa capacidade de composição é o que transforma uma ação tokenizada em capital programável. O horário ampliado melhora o acesso ao mercado. A programabilidade amplia as funções que o ativo pode exercer dentro dele.
Mas todas essas possibilidades dependem de uma condição básica: liquidez. Um mercado pode permanecer aberto vinte e quatro horas e, ainda assim, ser apenas uma porta aberta para uma sala vazia. Para que as negociações aconteçam, alguém precisa disponibilizar os ativos que tornam cada troca possível.
É nesse ponto que as pools de liquidez conectam a tokenização das ações a uma transformação ainda mais profunda no papel do investidor.
No mercado tradicional, o pequeno investidor normalmente consome liquidez. Ele envia uma ordem e depende de bancos, corretoras, firmas quantitativas e formadores de mercado para encontrar uma contraparte. Manter esse mercado funcionando exige capital, tecnologia, acesso às bolsas e sistemas profissionais de gestão de risco. Por isso, a função sempre esteve concentrada em grandes participantes.
Os AMMs [Automated Market Makers, ou formadores de mercado automatizados] mudaram parte dessa lógica. Em vez de depender exclusivamente de um livro de ofertas mantido por instituições, um contrato inteligente reúne ativos fornecidos pelos próprios usuários. Quem deseja realizar uma troca utiliza esse estoque; quem disponibilizou o capital participa das taxas cobradas pelo protocolo.
Com ações tokenizadas, uma pool pode conectar uma ação a uma stablecoin ou até mesmo duas ações entre si. O contrato executa as trocas, registra a movimentação onchain e distribui as taxas de acordo com as regras do mercado. Não é necessário transformar o investidor em uma corretora, abrir uma mesa profissional ou negociar um acordo com uma bolsa. A infraestrutura já está escrita no protocolo.
A ação deixa de ser apenas um ativo que o investidor compra ou vende. Ela passa a ser também a matéria-prima de uma infraestrutura de liquidez da qual o próprio investidor pode participar.
Economicamente, o provedor de liquidez exerce uma função semelhante à de um formador de mercado: coloca capital à disposição para facilitar compras e vendas. Juridicamente, ele não se torna um market maker regulado de bolsa e não recebe as mesmas proteções institucionais. O que a blockchain democratiza é a função econômica, antes praticamente inacessível a uma pessoa comum.
Esse ponto ganha ainda mais força quando lembramos que 55% do volume de ações tokenizadas da Jupiter acontece fora do horário tradicional. Se o investidor quer negociar quando a bolsa está fechada, a liquidez disponível nesse período não é um detalhe; é a própria infraestrutura que torna o mercado possível. Plataformas como a Jupiter ajudam a encontrar e rotear as melhores fontes, enquanto DEXs como a Raydium concentram parte das pools que efetivamente recebem e executam as trocas.
Aqui está a mudança central: o investidor deixa de aparecer apenas no fim da cadeia, como comprador de um produto financeiro pronto. Ele pode contribuir com a liquidez, participar da formação de preços e receber parte da receita gerada pela atividade que ajudou a viabilizar. De cliente do mercado, passa a ser uma pequena parte de sua infraestrutura.
A primeira fase da internet financeira democratizou a informação. A segunda democratizou o acesso, com corretoras digitais colocando ações globais na tela de milhões. A tokenização pode inaugurar a terceira: a democratização das próprias funções financeiras. O investidor não apenas possui o ativo — pode usá-lo como garantia, conectá-lo a crédito e fornecer a liquidez que mantém seu mercado funcionando. Uma corretora no celular torna a compra mais conveniente; uma ação em rede programável muda o que se pode fazer depois dela.
Assumir funções antes restritas às instituições significa assumir o que vinha junto com elas. Nem toda ação tokenizada dá os mesmos direitos de uma ação em corretora: dependendo do emissor, o token pode ser a participação societária, um certificado lastreado ou apenas exposição ao preço. Quem emite, onde está o lastro e como funciona o resgate deixam de ser detalhe técnico e viram parte da decisão.
Nas pools, somam-se os riscos de uma infraestrutura aberta. Contratos inteligentes podem falhar, a liquidez varia e o preço pode se afastar da referência quando a bolsa está fechada. Há ainda a perda impermanente, a diferença entre fornecer liquidez e simplesmente manter os ativos em carteira. Nada disso enfraquece a tese; define o nível de maturidade para participar dela.
O futuro provavelmente não será a blockchain destruindo as bolsas, mas uma convergência: bolsas adotando trilhos tokenizados, empresas cripto incorporando direitos do mercado tradicional e protocolos DeFi criando novas formas de negociação e crédito. A ação continuará sendo uma ação, ligada ao desempenho da empresa e à economia real. O que muda é a infraestrutura ao redor dela — e, com ela, o espaço que o investidor pode ocupar.
O sino da bolsa pode continuar tocando todos os dias. Mas ele já não precisa determinar quando o mercado começa — nem limitar o investidor ao papel de quem apenas compra e espera.
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Fontes: Blockworks Research — Volume onchain de ações tokenizadas, acumulado de 2026, dados da Solana e da Raydium e atividade fora do horário tradicional na Jupiter. a16z crypto, 3 charts on the tokenized stocks boom — Valor em circulação, crescimento anual, volume de transferências em junho de 2026 e composição por categoria, com dados da RWA.xyz. RWA.xyz — Capitalização das ações tokenizadas onchain e evolução ao longo de 2026. SEC, Statement on Tokenized Securities — Categorias e estruturas jurídicas de títulos tokenizados. SEC, aprovação do programa da Nasdaq — Aprovação da negociação de títulos em formato tokenizado na Nasdaq. Nasdaq, Global Trading Hours — Ampliação prevista para 23 horas por dia, cinco dias por semana. DTCC, tokenização em operação — Operações reais, instituições participantes e dimensão da infraestrutura de custódia. ICE e OKX, joint venture — Infraestrutura regulada para conectar mercados tradicionais e ativos digitais. Coinbase, ações tokenizadas — Ações tokenizadas com lastro e direitos para clientes elegíveis fora dos Estados Unidos. Jupiter, documentação de ações tokenizadas — Papel da Jupiter como camada de acesso e roteamento de liquidez.
Autor: Otacilio Lobo - Analista de Operações em Criptoativos da Ascen Cripto

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