Eu estava sentada a dois, três metros da água porque a maré estava cheia, mas dava-me a sensação de que estava a começar a recuar, também não o saberia dizer se sim ou se não, não presto muita atenção às marés, havia várias crianças nas rochas e nos pequenos sulcos de água que se criavam, o mar ao fim do dia nunca cheira apenas a sal, cheira a algas esmagadas misturadas com protetor solar que ainda permanece na pele e à areia quente, a gelados derretidos e à frescura húmida que o vento traz, de manhã eu diria que cheira a bolas de Berlim também, mas não ao fim do dia. Eu não levava nada comigo, apenas um livro da Cristina Peri Rossi e um velho chapéu de palha que comprei há umas semanas numa feira da bagageira, deitei-me ali, como já disse, a dois, três metros da água, o sol já estava baixo, mas ainda se colava aos braços e aquecia o corpo. Consigo abstrair-me facilmente dos sons na praia, ao longe ouvia as crianças a brincar e mulheres a conversar e alguns pais a chamar, o bater ritmado das ondas, da bola de duas raparigas que jogavam raquetes e o grito ocasional das gaivotas que riscava o céu, havia pombos por todo o lado, já não me lembrava de que as praias da linha estão cheias de pombos, estava sempre a levantar os braços para os fazer esvoaçar quando se aproximavam demasiado.
Ao meu lado estava um pai com uma miúda de seis ou sete anos deitados numa toalha grande, é fácil encontrar os divorciados na praia porque são aqueles que demonstram uma belíssima paciência para tudo o que os filhos querem fazer e dizer e mostrar naquele instante temporal do seu papel de pais, a miúda quis mostrar-lhe que já sabia fazer o salto flic flac e a roda, tinha também um lado melhor, que era para a esquerda, para a direita ainda se atrapalhava, caiu de lado, disse que perdia o equilíbrio. Tive vontade de me levantar para lhe mostrar como o fazer, o meu corpo ainda tem memória e alguma elasticidade de quando eu tinha catorze ou quinze anos e entrei numa das minhas fases em que quis ser ginasta olímpica durante um ano e tal, houve outras, fui federada em basquetebol, apesar de odiar jogar basquetebol, depois fui para a dança porque queria entrar no conservatório, enfim, agradeço à minha mãe por ter alimentado todas as minhas vontades, tornei-me um tanto permeável às paixões instantâneas. O pai conversava bastante com a miúda, percebi que lhe fazia perguntas, apenas ouvia pedaços da conversa porque falavam baixo, detesto pessoas que falam alto na praia, como a mulher do lenço azul, mas também não estava a prestar muita atenção. Percebi que o pai olhava para mim, às tantas a miúda perguntou-me o que estava a ler, eu ri-me e mostrei a capa verde, ela perguntou se eu estava a gostar, eu disse que sim, perguntei-lhe se estava a ler algum, ela disse-me qualquer coisa que não entendi e que estava em casa da mãe, não o tinha ali, respondi que sim, que era muito divertido, e voltei a olhar para o livro, os dois continuaram a conversar, passado uns minutos, uma meia hora, não sei dizer, o pai disse-lhe que adorava ficar mais tempo, porque estava a ser mesmo bom, mas era melhor irem andando, ela fez mais umas piruetas na areia e foram-se embora.
A luz começava a desfazer-se devagar, o céu passava gradualmente a laranja queimado e rosa sujo e lilás, a rebentação também nunca era igual, havia ondas que morriam com donaire e outras que chegavam pesadas e arrastavam as pessoas na água com força, também rebentavam contra os rochedos e deixavam o ar cheio de gotículas frias que me pousavam nas pernas e soube-me bem.
Uma mulher atrás de mim gritou que lhe tinham levado o lenço azul, ao lado dela estava um casal debaixo de um chapéu, não o tinham visto, uma outra mulher, que eu diria que um metro ao lado, também não, naquele primeiro instante não sabia se todos se conheciam, depois percebi que sim, a mulher do lenço azul andava para trás e para a frente à procura do lenço, sentia-a a remexer nas coisas na areia, perguntou se tinham visto a notícia da criança que foi deixada numa estação de serviço porque o motorista do autocarro arrancou sem ela, sim, eles tinham visto a notícia, discutiram sobre quem teria a culpa, o motorista que não era responsável por uma criança ou os pais negligentes por deixarem uma menina viajar sozinha, mas vejam lá se não têm o meu lenço, voltou a dizer a mulher, quem poderá ter o lenço?, a outra respondeu que se calhar tinha sido a Ritinha a levá-lo por engano, a mulher do lenço telefonou à Ritinha para lhe contar do seu lenço e para ela ver se não o tinha levado, ela deve ter dito que não, a mulher insistiu: mas viste mesmo na tua mala?, certo, confirmou que não, a Ritinha não o tinha levado, chegaria a horas?, perguntaram à Ritinha, sim, ainda ia demorar, mas chegaria a horas, a que horas?, às nove e meia, o marido da outra perguntou se tinham reservado, a mulher do lenço perguntou ao telefone e, sim, a Ritinha tinha reservado, o homem disse que não lhe apetecia nada comer iscas, as mulheres riram muito alto, a mulher do lenço desligou o telefone, disse que a Ritinha provavelmente tinha levado o lenço porque era aquele azul com os arabescos em branco e ela já lhe tinha dito que gostava muito daquele lenço.
A areia ainda conservava o calor do dia alguns centímetros abaixo da superfície, mas já começava a endurecer, eu afastei a toalha e calquei com força na areia para enterrar os pés e a Peri Rossi escrevia sobre o bichicome e eu estava abstraída com isso e mergulhada na história que ela inventou para ele, o tal amor que o abandonou no altar, a vida pesada nos barcos de pesca, enfim, a mulher gritou para a outra mais afastada se ela não tinha o lenço azul, e eu pensei que já não aguentava mais a história da puta do lenço azul, e ela disse aposto que tens, ah ah ah, e levantou-se e começou a remexer-lhe na mala e a mulher levantou-se também, disse: mas é que nem penses, tira daí essas gárgulas, e despejou a mala na tolha e disse que não tinha o lenço, e a mulher do lenço riu-se muito alto, disse que se dava por vencida, tinha perdido o lenço azul, se soubesse tinha trazido o marrom que não fica bem com nada, mas esse era da Ritinha, disse a outra, por isso mesmo, ela deu-mo porque já não gostava dele. A mulher do casal levantou-se e disse que queria fazer um pipi, disse-o mesmo assim, vou ali à água, o marido disse-lhe que já devia estar fria, ela disse hum, molho-me só até à cintura, a mulher do lenço gritou que também ia, passaram os três por mim e foi a primeira vez que olhei para eles, tinham todos mais de setenta anos, perguntaram à outra mulher se não vinha, ela disse que não, agora tinha de ficar a arrumar as coisas que estavam cheias de areia.
Voltei a concentrar-me na Peri Rossi, o tio pergunta-lhe o que ela quer ser, escritora, responde, quantos livros de escritoras já leste?, três, Virginia Woolf, Alfonsina Storni e Safo, leste as suas biografias?, sim, sabes como morreram?, suicidaram-se, pois bem aprende a lição, as mulheres não escrevem, doeu-me isto na alma. O vento trazia-me ao longe os sons e as vozes e as conversas que nunca chegavam completas, parecia-me que tudo acontecia muito longe, como se o mundo tivesse sido empurrado alguns metros para trás e num primeiro plano estava apenas os meus pés enterrados na areia e o mar ali a dois, três metros. Os três voltaram da água, a mulher que ficou disse que o telefone tinha tocado, era a filha do casal, tinha acabado de aterrar em Copenhaga, ela telefonou à filha que não atendeu, o marido disse que ela ainda não devia ter o róuming, a mulher do lenço contou que a neta dela tinha apanhado um comboio não sei onde que fazia uma ligação com Amsterdão… interrompeu-se com gargalhadas inflamadas porque tinha levantado a toalha da cadeira para a sacudir e gritou que estava ali o lenço, estava molhado, ela estivera sentada em cima dele a tarde toda, ai o lenço, ai o lenço, a outra mulher que tinha ficado na areia disse que agora ia ela à agua, vais fazer um pipi?, perguntou-lhe a mulher do casal, não, ah ah quero refrescar-me, todas se riram, a mulher do lenço disse que ia com ela também, o homem alertou para terem cuidado, que o mar era só vagalhões, a mulher disse que isso nem existia na praia, só em alto mar, mas havia ali um agueiro, a outra perguntou onde, o homem levantou-se e apontou, é uma língua sem espuma entre as ondas, está a puxar com muita força, as duas caminharam para o lado contrário, a mulher do lenço levou-o enrolado na cintura, a mulher que ficou disse para o marido que se soubesse que o lenço estava na cadeira, tinha-o tirado para ela nunca mais o ver.
Peguei no telefone e vi que eram quase oito horas, a praia esvaziara-se sem que ninguém desse por isso, ou eu não dei, porque só queria ler a Peri Rossi em paz, dois homens chegaram com três cãezitos e uma mulher com um bebé de fralda na areia reclamou que não era uma praia para cães, que havia muitas crianças pequenas a brincar, um deles disse: okaaaay Karen, e continuou a andar, apeteceu-me rir, mas tive pena da mãe, os cãezitos iam de trela já lá bem longe, ela sempre a reclamar, os cães e as crianças e a outra o lenço e o motorista e as piruetas e o flic flac. Não esperei que as mulheres voltassem da água do seu pipi ou do seu mergulho, vesti as minhas calças e subi a areia até lá acima e entrei na marginal para ir para casa. Conduzi com aquela luz espessa e dourada que atravessa o para-brisas e em que o dia parece suspenso entre duas respirações, liguei o rádio, estava a tocar Sheryl Crow e cantei: well ok, I still get stoned, I'm not the kind of girl you'd take home, também ela muito insubmissa.
A Insubmissa de Cristina Peri Rossi é um dos livros de agosto do Book Gang e podem comprar na minha livraria aqui.

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.