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filmesdearthur · Nov 23, 2024

Ainda Estou Aqui (2024) | O Brasil da ditadura segundo Walter Salles

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Um drama familiar que encanta pela forma, mas que evita encarar de frente as feridas da história brasileira.

Após mais de 10 anos sem dirigir um longa-metragem, Walter Salles retorna ao Brasil para filmar Ainda Estou Aqui, baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva. Em meio ao contexto político do Brasil em novembro de 2024, o filme parece se manifestar contra a extrema-direita brasileira, que constrói suas próprias verdades e distorce a memória de um dos períodos mais sombrios da nossa história.

Existem algumas características que marcam a carreira de Salles como diretor, ao meu ver: seu forte apelo dramático e sua adesão ao classicismo. Ele não é um diretor que busca trabalhar com uma estética ou narrativa condizente com o cinema moderno ou contemporâneo, mas sim com um classicismo americano bem convencional. Isso se reflete na forma como dirige e valoriza as atuações de suas estrelas. Fernanda Torres, Fernanda Montenegro e Rodrigo Santoro se destacam em suas performances quando atuam em filmes de Walter Salles. De certa forma, é aí que reside a maior qualidade do diretor: ele conduz narrativas dramáticas que enaltecem seus atores e fortalecem seus filmes. As histórias contadas por meio de suas lentes são emocionantes e encantadoras.

Ainda Estou Aqui não é diferente. Arrisco dizer que este é o filme mais maduro esteticamente de Salles. Mesmo mantendo-se dentro de uma estética clássica e cheia de convenções, o diretor trabalha com a ideia de memória, transbordando nostalgia e beleza que engrandecem muito o filme visualmente. Através das filmagens da filha mais velha, a primeira parte do filme é virtuosa e exuberante, com uma atmosfera vibrante e clara. Até que ocorre a ruptura: a prisão de Rubens Paiva.

Como acompanhamos essa história pelos olhos de Eunice Paiva, o sequestro de seu marido e a desestruturação de sua família são traduzidos visualmente. O filme perde sua cor; as portas da casa, antes sempre abertas e banhadas pela luz do sol, se fecham. As visitas frequentes deixam de acontecer, e a família, que parecia unida, passa a aparecer cada vez mais em planos separados. Durante o restante do filme, Salles mantém sua maturidade técnica, o que faz deste um dos filmes mais belos do ano.

Porém, após a prisão de Rubens, o filme segue por um caminho que, em alguns momentos, parece cair na caricatura. Eunice e sua filha do meio também são presas poucos dias depois de Rubens. Durante esse período, Eunice testemunha as atrocidades cometidas pelos militares contra os presos que se opunham ao regime ditatorial. Nesse ponto, o filme assume um tom político, mas parece hesitar em aprofundar-se nesse aspecto. Em determinado momento, quando a filha mais velha retorna, ela pergunta por que ninguém conta nada, e sua irmã responde: “Não falamos disso aqui”.

Embora o filme tenha consciência de que está retratando uma família de classe média alta carioca em meio à ditadura, parece querer atenuar as dores desse período. Não foi a classe média alta, muito menos a burguesia, que sofreu mais intensamente durante a ditadura. A dor e as perdas parecem ser individualizadas na figura de Eunice, que, durante e após esse período, foi uma combatente contra o regime e defensora dos direitos humanos no Brasil. No entanto, tudo isso é tratado como uma nota de rodapé em sua história. Trata-se de um filme político, com uma mensagem ativista, mas que não é filmado de maneira politicamente engajada.

Na parte pós sequestro, o filme se aproxima de uma "esquerda caviar": aquela que defende a igualdade e inclusão social das camadas mais pobres, mas recua quando seus próprios privilégios são afetados. Um exemplo é a sequência dramática e emocionante em torno da morte do cachorro da família, com direito a funeral. Entretanto, quando a empregada é dispensada devido às dificuldades financeiras, ela é facilmente esquecida, como se fosse descartável.

Isso sem mencionar a problemática cena do "militar bonzinho", que discorda do regime, mas nada faz para se opor.

Apesar das ressalvas, discordo de alguns colegas que acusam o filme de criar uma falsa brasilidade, o chamado "Brasil com z". Mesmo que Walter Salles seja associado ao movimento de Retomada e à chamada “cosmética da fome”, acredito que, dentro do que se propõe, o filme consegue se destacar pela beleza e pela tropicalidade. Embora Salles costume retratar o Brasil com uma estética exótica, aqui ele foge um pouco disso, mantendo-se mais próximo do real, explorando os espaços da casa e criando momentos para Fernanda Torres brilhar. E, sim, ela está monumental.


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