Manuela

Eu vou te esperar, para sempre

Eu já tinha esquecido como era uma noite bem dormida.

Meu dia hoje foi super ok e isso é muito bom. Não acordei esgotada, com os olhos e a cabeça pesando. Não tive crises, não procrastinei (tanto) e não descontei tudo no pote de doce de leite que tem na geladeira.

A tarde não aconteceu nada demais, mas fiquei pensando em você o dia inteiro. Se você estava bem, se tinha melhorado, se precisava de mim. A todo momento fiquei pensando no quanto eu amaria cuidar de você todo doentinho. Te encheria de beijo, carinho, comidinhas e mais beijo (alguns remédios tbm).

A noite a Ana me chamou pra fazer um hambúrguer em casa e eu adorei a ideia. Fomos ao mercado e fui MUITO feliz comendo aquilo. Estava absurdamente gostoso.

Como eu disse, sem grandes emoções. Finalmente.

Falta 1 mês para o meu aniversário.

Acho que, desde que me entendo por gente, sou meio fissurada por esse dia. Contar as semanas até ele virou praticamente uma tradição.

Lá em casa, todos os anos, meus pais levavam café da manhã na minha cama, acompanhado de um parabéns cantado em sussurros. Meu pai praticamente se jogava em cima de mim, enchendo meu rosto de beijo enquanto eu ainda tentava entender o que estava acontecendo tão cedo.

Desde que me mudei, aprendi a amar novas tradições também. As meninas sempre aparecem à meia-noite com um bolinho da doceria aqui perto de casa. Cantam parabéns, me apertam em abraços e me afogam em palavras de carinho.

Pra esse ano, eu não sei bem o que esperar. Não queria pesar o clima com a minha melancolia, mas, sendo bem honesta, celebrar a minha vida é provavelmente a última coisa que tenho pensado em fazer. Acho que seria até irônico querer.

Vejo que o significado desse dia sempre ter sido tão especial pra mim se concretiza, principalmente, pelas pessoas que tenho ao meu redor. E o que tem tornado ele difícil de comemorar, ultimamente, é minha própria companhia.

Então, na tentativa de tornar isso menos complicado, farei um combinado comigo mesma. Vou pedir dois cookies recheados da minha doceria favorita (ainda tô decidindo o que vou querer comer de hipercalórico), acender uma velinha e comer quando der 00h, sentada no gramado de casa.

Por mais solitário que pareça ser, vejo como uma forma de lembrar que eu “mereço” existir nesse dia mesmo quando não sei exatamente como celebrá-lo.

(Escrevi isso no meu caderno, no sábado, mas vou deixar aqui também.)

Decidi esticar um lençol no gramado e deitar. Não está frio, mas está fresco o suficiente para aproveitar um banho de sol sem sentir a pele queimando. Nesses momentos, geralmente, eu gosto de me desligar um pouco pra sentir as coisas acontecendo.

Dizem que existe uma grande diferença entre ver e olhar. Talvez porque ver atravesse os dias com a mesma rapidez com que as imagens passam pelos nossos olhos, enquanto o olhar se concretiza na sua profundidade em perceber. Isso me fez pensar que talvez essa seja a minha forma mais eficiente de ignorar aquilo que poderia ser verdadeiramente contemplado. Até porque, isso exigiria interromper a pressa dos pensamentos eu já me tornei íntima demais do barulho dentro de mim.

No fim, para quem já entendeu que está adoecendo, pode ser que o primeiro passo não seja entender mais, nem resistir melhor, mas parar pra olhar. Parece mais simples quando se fala sobre olhar os desenhos que as nuvens inventam no céu ou da cor que ele assume ao entardecer. Quando, no meio da rua, nos pegamos observando um casal de idosos ainda profundamente apaixonados, ou um casal jovem atravessando os primeiros dias de um filho recém-chegado. Acho que coisas assim são fáceis de serem percebidas, principalmente por carregarem uma esperança quase acessível.

Difícil mesmo é olhar para dentro. Porque, para isso, não basta ser um mero observador. Precisa ser corajoso. Não tem a delicadeza das nuvens nem a ternura das histórias alheias, só um monte de coisa que nem o dono do próprio corpo consegue explicar.

Mas como eu disse, mesmo que assuste, esse pode ser o primeiro passo. É basicamente por isso que eu estou aqui fora, com a minha Bíblia aberta. Embora eu conheça a Deus, O ame e saiba que Ele é incapaz de errar, tem sido difícil acreditar nisso quando finalmente olho pra mim. E, bom… se foi Ele que me fez, que seja Ele quem me convença do contrário.

Se chegou a este capítulo, é porque decidiu ignorar minhas advertências anteriores e continuar dedicando algumas horas de sua vida a esta leitura.

Saiba que tenho certa simpatia por pessoas que, por teimosia, burrice ou simples incapacidade de abandonar um mistério pela metade, ignoram avisos e permanecem reféns da própria curiosidade.

Dizem que a curiosidade matou o gato. Felizmente, até onde sei, nenhum de nós pertence à família dos felinos. Assim sendo, não vejo motivo portanto, para apagar essa chama inconveniente que insiste em nos incendiar por dentro.

Creio que o mais adequado seria começar esta história pela minha origem, ou como Freud provavelmente chamaria, minha primeira infância.

O problema é que não me recordo de haver ali nada particularmente digno de nota.

Gostaria de poupar você de toda a parte tediosa da minha existência e avançar diretamente para os poucos momentos que realmente justificaram o trabalho de continuar respirando. Mas suspeito que, se o fizesse, esta autobiografia dificilmente ultrapassaria meia dúzia de páginas.

Além disso, sequer sei se é literariamente permitido fazer saltos temporais tão indecentes numa biografia.

Serei honesto: autobiografias jamais estiveram entre meus gêneros preferidos. Sempre fui homem dos romances, das fantasias, das distopias e, por que não admitir, da ficção científica.

Acho meio contraintuitivo dedicar horas de leitura a algo incapaz de me afastar da realidade. Pelo contrário: autobiografias parecem existir justamente para apresentar pessoas que, em circunstâncias ainda mais miseráveis que as nossas, encontraram força, propósito, redenção ou qualquer outra palavra elegante que se use para transformar sofrimento em narrativa inspiradora.

Para alguns, isso deve soar motivador.

Para mim, soa apenas como um lembrete irritante de que outros fizeram do limão uma limonada… enquanto eu ainda observava os limões no pé, sem saber sequer como colhê-los.

Embora saiba que, se algum dia alguém vier a ler estas páginas, eu já estarei morto, e portanto, convenientemente indisponível para responder pelos crimes aqui cometidos contra a gramática, tentarei manter-me razoavelmente fiel ao que imagino ser uma autobiografia e contarei, em essência, toda a minha história.

Não sei ao certo o dia em que nasci.

Meu nascimento foi registrado anos depois do ocorrido e, embora isso talvez pareça absurdo aos olhos de quem cresceu cercado de documentos, computadores e repartições públicas, era algo perfeitamente comum no interior.

Fazer o registro de uma criança podia significar uma viagem de vários dias até a cidade mais próxima que possuísse um cartório, uma empreitada particularmente pouco sedutora quando essa cidade ficava a quatro dias de carroça.

Além disso, sendo brutalmente franco, depois que uma criança já nasceu, respira, chora e ocupa espaço dentro de casa, um papel confirmando sua existência começa a parecer uma redundância burocrática de humor duvidoso.

Anos mais tarde, tentei descobrir em que dia exatamente havia vindo ao mundo.

Consultei cinco pessoas.

Recebi cinco datas diferentes.

Também recebi cinco relatos completamente incompatíveis sobre os acontecimentos que antecederam meu nascimento, todos narrados com tamanha convicção e riqueza de detalhes que cheguei a suspeitar, por alguns instantes, de que talvez eu tivesse nascido cinco vezes.

Diante da ausência de consenso científico, familiar ou divino, tomei uma decisão prática.

Naquilo que deduzi serem meus oito anos de idade, escolhi uma data pela qual nutria certa simpatia numérica — 27 de outubro — e a adotei como meu aniversário oficial.

Não havia festas de aniversário em minha casa.

Nunca houve bolo, velas, presentes ou fotografias constrangedoras.

Ainda assim, todos os anos, em silêncio absoluto e sem comunicar a ninguém, eu comemorava internamente aquele dia, como sendo o meu dia.

Perdi contato, há muito tempo, com os parentes daquela vida deixada para trás. Hoje, tudo aquilo me parece pertencer a outra pessoa.

De modo que já não tenho a quem recorrer para descobrir, com alguma precisão, como eu era quando criança.

Mas sendo eu a única pessoa que permaneceu comigo durante toda a minha vida, suponho que eu mesmo esteja razoavelmente qualificado para fazer essa descrição, apoiado no que ainda me lembro de ter ouvido dos outros, e naquilo que gosto de acreditar que sou… ou ao menos, que fui por algum tempo.

Fui uma criança alegre.

Sorridente o suficiente para fazer amigos com facilidade, arteira o bastante para gastar energia em quantidades pouco saudáveis e esperta o suficiente para, na maior parte das vezes, não ultrapassar o limite que me garantiria receber uma surra ao voltar para casa.

Minha avó costumava contar que eu frequentemente fazia xixi nas calças enquanto brincava na rua.

Não por preguiça.

Nem por alguma deficiência fisiológica particularmente humilhante.

Eu simplesmente tinha medo de ir ao banheiro, perder alguns minutos preciosos e, ao voltar, descobrir que as outras crianças haviam decidido encerrar a brincadeira sem mim.

Mesmo naquela idade, ao que tudo indica, eu já nutria certo pavor do abandono. Como nossos maiores medos frequentemente se tornam realidade, esse tópico acabou sendo presente e frequente em praticamente toda a minha vida.

Eu era de um branco incurável.

Do tipo que não bronzeia.

Apenas queima.

Minha pele constantemente castigada pelo sol, somada à baixa estatura e a um corpo franzino, me conferiam a aparência, não tão injusta quanto eu gostaria de admitir, de uma criança delicada demais para o ambiente em que crescia.

Entre os muitos amigos que fiz na rua, acho justo mencionar Anderson e Leonardo Stefaisk.

Dois garotos mais velhos, cujos braços, à época, possuíam aproximadamente a circunferência do meu pescoço.

A inteligência , ou talvez a completa ausência dela, havia conspirado para que ambos frequentassem a mesma sala que eu no colégio, apesar da diferença evidente de idade.

Nossa amizade era marcada por algo próximo de uma relação simbiótica.

Eu fornecia o cérebro.

Eles, os músculos.

E embora isso possa soar pouco refinado enquanto definição de amizade, não posso deixar de me sentir profundamente grato aos irmãos Stefaisk.

Se ainda possuo todos os meus dentes, uma parcela considerável desse mérito pertence a eles.

Uma criança frágil, inserida num ambiente áspero, costuma rapidamente tornar-se oportunidade.

Uma espécie de degrau humano disponível a qualquer um disposto a subir alguns centímetros na cadeia alimentar do sistema educacional.

Os irmãos Stefaisk foram, durante alguns anos, a muralha improvisada que me permitiu não ocupar a base dessa pirâmide.

Enquanto escrevo esta autobiografia, tão verídica quanto minha memória e escrita permitem, dou-me conta de quão monótona e insignificante acabou sendo minha existência.

Não conquistei grandes feitos. Não alcancei o auge da forma física, tampouco cultivei com disciplina qualquer um dos muitos interesses ou facilidades que um dia julguei possuir. Se vim ao mundo com algum talento adormecido, desperdicei-o, assim como desperdicei tantas outras coisas ao longo da vida.

Também não acumulei fortuna. Possuo apenas um carro que já era velho quando o comprei, embora hoje eu já nem saiba dizer há quanto tempo isso foi; e um terreno curto e estreito, onde minha maior realização foi, de algum modo, erguer um barraco cujo qual me acostumei a chamar de casa.

Ainda assim, sinto-me ligeiramente sortudo.

A maior parte da minha vida foi marcada pela mediocridade e pela postergação. Aos olhos de um observador desavisado, eu poderia ser facilmente resumido a uma única palavra: perdedor.

Entretanto, há um aspecto em que me considero vencedor.

Encontro-me em meus últimos dias. Em breve fecharei os olhos e não tornarei a abri-los. Nesse dia, serei enfim apagado da existência. Na ausência de herdeiros, meus poucos bens acabarão nas mãos do governo, de algum banco ou de oportunistas quaisquer. Até mesmo estas páginas, terminarão por serem amassadas, rasgadas ou devoradas pelas traças. Não haverá quem sinta minha falta na manhã seguinte, quem chore minha morte ou preserve minha memória.

Não conquistei o amor, mas o encontrei.

E sei que era amor verdadeiro com a mesma certeza que sei que a água sacia minha sede e o sol queima minha pele.

Encontrei o amor verdadeiro por três vezes, e nas três, encontrei e reencontrei na mesma pessoa.

Esta definitivamente não é uma história capaz de alegrar alguém. Não o fará sentir-se mais esperançoso, alegre, nem mais disposto diante da vida.

Já lhe contei que ela termina comigo sozinho. Que não fui capaz de conquistar a pessoa que verdadeiramente amei.

Ainda assim, numa vida em que tantos morrem sem jamais conhecer o amor, eu o encontrei três vezes. Vivi o infinito, experimente o “para sempre” e, mesmo tendo deixado tudo escapar por entre meus dedos, não consigo deixar de me sentir ligeiramente sortudo.

Porque, mais de uma vez, tive a rara sorte de amar, e de saber, sem sombra de dúvida, que era amor.

Apesar disso, me sinto no dever de lhe alertar ao menos uma última vez, para abandonar esta leitura.

Se busca uma história confortável, daquelas em que o amor triunfa apesar dos desencontros, em que o sofrimento encontra propósito e a solidão, algum tipo de cura, aconselho-o sinceramente a procurar outra companhia para suas próximas horas.

Esta não é essa história.

Nada do que encontrará nas páginas seguintes lhe devolverá a esperança perdida, nem lhe ensinará como vencer a vida, conquistar o amor ou suportar a própria existência com mais elegância do que eu fui capaz.

Já lhe contei como tudo termina.

Um homem sozinho. Uma casa pequena demais para ser chamada de legado. Alguns poucos bens sem destinatário. Um amor que existiu intensamente, mas jamais pertenceu a quem o sentiu.

Ainda assim, se por alguma razão mórbida, curiosa ou profundamente humana decidir continuar, peço apenas que o faça sabendo disto: não encontrará aqui uma história sobre felicidade.

Encontrará uma história sobre reconhecer o amor verdadeiro… e sobreviver ao fato de que, as vezes, reconhecê-lo não basta.

Isso provavelmente vai ficar muito grande e é um grande desabafo. Não precisa ler se não quiser kkkk.

Hoje à tarde tivemos uma reunião entre os alunos da Unimissional que já estão se formando ou vão concluir a graduação nos próximos um ou dois anos. E eu sou a única que vai encerrar essa etapa ainda este ano. Melhor dizendo: daqui a dois meses.

Sinceramente, eu não vinha pensando muito nisso. Na verdade, tenho pensado em tantas coisas ao mesmo tempo… nas decisões que preciso tomar, no trabalho que preciso procurar, no TCC que preciso entregar, na casa que preciso cuidar, na menina que preciso aconselhar, no projeto que venho procrastinando, nas calorias que tento evitar… que acabei esquecendo que uma parte muito importante da minha vida está chegando ao fim.

E, particularmente, a faculdade em si talvez não vá me fazer tanta falta, apesar do carinho enorme pelas amizades que construí ali. Mas a Unimissional… tópico sensível.

Acho que nunca parei de verdade para me aprofundar no que significa, para mim, estar aqui.

Quando conheci a Unimissional, me apaixonei pelo projeto. A ideia de viver evangelismo, impacto social e viagens missionárias enquanto cursava uma faculdade parecia simplesmente genial.

Meu pai ficou resistente no começo, e minha mãe precisou orar algumas vezes até sentir paz no coração. Eu tinha acabado de sair de um relacionamento e queria mesmo era viver minha vida.

E deu certo.

No dia 6 de fevereiro de 2023, tive minha primeira aula de boas-vindas. Foi também o começo da minha vida longe dos meus pais, e, sinceramente, os primeiros meses foram um verdadeiro caos.

Foi a fase em que precisei fazer muitas coisas sozinha pela primeira vez, quase sempre acompanhadas de muito choro. Fazer compra do mês no mercado, ir ao médico sem ninguém comigo, aprender a cozinhar feijão na panela de pressão, lavar roupa, calcular como dividir 300 reais para sobreviver o mês inteiro e se alimentar de muito miojo com requeijão (época boa). Até passar por um acidente de carro e ficar sozinha dentro de um hospital, eu precisei enfrentar.

Não vou detalhar cada acontecimento de cada ano porque seriam incontáveis. Mas posso dizer que lugar nenhum no mundo me prepararia pra tanta coisa como aqui.

Dentre tantas coisas que a vida aqui me proporcionou, acho que a mais importante foi um relacionamento ainda mais profundo com o Senhor.

Foi aqui que entendi que posso ser usada para falar sobre Jesus em qualquer lugar. Que perdi a vergonha de parecer inconveniente e entendi que, se eu tenho algo tão bom quanto o meu Deus, isso precisa ser compartilhado.

Por causa dos projetos práticos e viagens missionárias, precisei desenvolver minha comunicação, aprender a me aproximar das pessoas e criar coragem para evangelizar. E hoje, sinceramente, quase nunca perco uma oportunidade de falar sobre Jesus. Isso definitivamente não diz nada sobre mim mas sobre o privilegio que alguém tão comum quanto eu tem de carregar algo tão extraordinário quanto o amor dele. Isso não é legal?

Além disso, eu vivo uma promessa que Deus me entregou na adolescência quando orava sobre chamado. Eu pedia pra ser útil, pra não ficar de fora do que Ele pensava em fazer pra transformar o mundo. Era meu maior medo.

Ele me disse sobre liderança e cuidado específico com meninas. Desde então eu guardei isso no meu coração, confiando fielmente de que um dia eu poderia fazer isso. Só nunca imaginei que seriam 10 meninas que ainda por cima, moram comigo hahaha.

Elas concretizam uma palavra que Jesus me deu e não fazem ideia de como amo cada uma. De como eu faria o que pudesse pra atender cada problema que elas me apresentassem, com alegria. Que eu supero qualquer sono e cansaço pra trazer o mínimo de alívio que fosse.

Eu não me importo em me desdobrar. Não me importo em perder horas de sono para conversar de madrugada, passar dias no hospital como acompanhante, dar banho quando estiverem doentes, dormir junto por causa de pesadelos, orar juntas, gastar grana com bombinha de asma porque o pais estão apertados e não podem, ficar junto até uma crise de pânico passar, aconselhar repetidas vezes as mesma coisa… e por aí vai. Não me importo. É por isso que eu estou aqui.

Tentar ser uma boa líder pra elas e me esforçar para isso, é uma das minhas maiores alegrias.

Vou morrer de saudade dessa casa. Dos devocionais pela manhã, das cantorias no chuveiro, dos banhos de chuva, das festas do pijama e das risadas altas ecoando pelos quartos. Vou sentir falta do cheiro do bolo da Mirian, da Anne tropeçando em literalmente tudo e da Mari falando com brilho nos olhos sobre os livros que leu. Com certeza vou sentir falta do ronco da Lolo surgindo no meio de uma risada sincera, e também dos abraços apertados que a Érica me dá toda vez que me vê, sempre seguidos de um “Jully, eu te amo”. Vou sentir falta de morar com alguém de coração tão doce quanto a Re, de alguém tão divertida quanto a Sarah, tão apaixonada por futebol quanto a Mima e tão prestativa quanto a Vicky. E, por fim, é muito especial poder conversar com alguém tão sábia quanto a Clarissa. Assim como é impossível não admirar o coração sensível e gentil da Ana.

Essa casa foi feita de pessoas e foi tudo muito melhor com elas.

E eu me lembrei de tudo isso quando “Até Sozim”, do Marco Telles, começou a tocar no fim da reunião de hoje.

Foi a primeira música que ouvi no primeiro culto que participei da Unimissional. Eu chorei ali mesmo, e todo mundo começou a me abraçar como se finalmente a ficha tivesse caindo: “Depois de 3 anos, está acabando mesmo.”

Eu ainda não decidi se vou sair da casa no próximo semestre. Existe a possibilidade de eu continuar aqui caso permaneça na liderança, mas, ao mesmo tempo, a vida em comunidade tem me cansado um pouco. De qualquer forma, acho que o que mais mexe comigo é perceber que alguns ciclos estão, inevitavelmente, chegando ao fim.

-M

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Fiquei esses dias sem escrever porque, internamente, as coisas estão do mesmo jeito. Se for pra falar o que tem acontecido, sinto que vai ser o mesmo assunto de sempre e acho que não quero te cansar.

O auge desse final de semana foi ser carregada aos prantos estando completamente nua por uma amiga. Alem de ter sido bem constrangedor, isso com certeza elevou nossa amizade a um nível muito maior de intimidade kkkk.

Dessa vez, não quero entrar no mérito do quão mal eu estou. Até eu não aguento mais. Ao invés disso, vou dizer algumas coisas que aconteceram da semana passada pra cá que aqueceram meu coração de alguma forma.

Na quarta feira eu fui em um brinquedo de parque de diversões pela segunda vez. A primeira vez eu tinha uns 10 anos e foi naquele minhocão que dá umas 3 voltas e para. Sempre fui muito medrosa (pra não dizer covarde) pra esse tipo de emoção, então nunca consegui arriscar. Nesse dia do parque eu fiquei bem nervosa porque todos estavam empolgados demais enquanto eu só me envolvia ainda mais no medo. Eles escolheram o brinquedo mais de boa pra eu conseguir ir e isso me deixou sem graça de recusar. Lembro de ter orado muito pra Deus me ajudar a aproveitar um brinquedo que dá várias voltas sem parar, cada vez mais rápido. E Ele me ajudou e eu gostei muito.

Na Sexta feira fiquei em casa para uma reunião do TCC enquanto todo mundo tinha saído pra expo. Eu tenho um certo pavor de ficar sozinha, então isso praticamente acabou com a minha noite. Fico um pouco desesperada quando não tenho companhia (acabei de lembrar que preciso conversar sobre isso com a Gi kkkk). Porém, quando as meninas chegaram, elas trouxeram um pedaço de bolo pra mim e eu me senti muito amada.

No sábado fui trabalhar na Expo dnv e acordei animada pra te ligar. Achei que era pra ligar as 8h no horário daí e pela confusão não deu certo. Fiquei mal, então tentei compensar com uma imagem mal feita pelo chat gpt, pra dizer que pra mim você já era campeão. Mais tarde recebi sua foto provando o que eu já sabia que aconteceria e chorei. Vi seu rostinho segurando a medalha e percebi que já tinha ganhado meu dia ali. Eu tinha esquecido de como te ver feliz me faz muito bem. (Fiquei muito orgulhosa. Você é meu lutador favorito do mundo).

De domingo não quero guardar todo o caos da manhã. Prefiro lembrar do primeiro rodeio que fui. Fiquei com muita dó dos bois e honrei nosso acordo de torcer por eles kkkk. A parte mais legal foi comer meu mega cachorro quente montado por mim mesma, cheio de molho e batata palha 😋 isso definitivamente me fez mais feliz.

Acho que fora tudo isso, nossas ligações me fazem muito bem. Eu praticamente tenho vontade de te levar pra todo canto, contar qualquer coisa e compartilhar qualquer assunto. Tem sido mais importante do que você imagina, muito obrigada🤟🏻

Acabei de perceber que não escrevo essas cartas tão bem quanto você. Gostaria que fossem mais profundas e significativas quantos as suas são, mas acho que vou morrer tentando kkkkkkkkk. Na próxima me esforço um pouco mais, meu escritor.

-M

Hoje eu acordei muito bem. Lembrei que teria folga pela manhã e pensei “Maravilha, tudo o que eu queria. Descansar.”

Tomei meu café da manhã, fiz meu devocional, cumpri minha escala de limpeza e então tinha minhas tão sonhadas horas livres. Todas para mim.

Eu fui ao banheiro e notei meu rosto com olheiras. Começo a querer me desprezar mas ok, ignorei. Normal pra quem acorda no meio de quase todas as noites.

Tomei banho e olhei meu corpo. “Eu não deveria ter comido aquele brownie no trabalho, nem o sorvete depois” pensei. Mas veio a voz da Gi na minha mente dizendo para eu ser mais gentil comigo mesma. Então lembrei que estou de TPM… eu posso comer um docinho como todo mundo faz, né?

Mas então eu me troquei e sentei na cama tempo suficiente pra minha mente vagar. Lembrei que não fui ao velório do pai da minha amiga, enquanto minha colegas foram. Que amiga de merda.

Pensei na Vitória que chegou chorando em casa ontem e eu não fui atrás dela pra saber o que tinha acontecido, porque eu estava cansada demais pra consegui acolhê-la. Que líder de merda.

Lembrei da entrega de dois projetos que fiz para clientes diferentes na semana passada e que não foram aprovados, porque “eu não entendi nada do que eles queriam”. Que profissional de merda.

Pensei em milhões de coisas que me lembraram da fracassada que eu sou. Como se já não bastasse eu conviver com isso nos dias corridos, eu precisava gastar minhas únicas horas livres com isso também.

Não quis sair da cama, não quis comer, não quis conversar. Por mim eu ficaria assim o dia inteiro porque sentia que não tinha forças. Tive uma crise longa de ansiedade e decidi ir para o escritório para não adoecer mais do que estava.

No resto do dia eu me distrai com algumas coisas. Filmes bobinhos de romance, vídeo no YouTube e por aí vai. Trabalhei um pouco, fiz gravação e até fui para a academia. Ficou tudo bem, até.

e assim a gente vai seguindo.

Ps. Obrigada por ser tão bobo. Você me salvou de mim algumas vezes só me fazendo rir. Te amo!

- M

Vi uma entrevista, que era mais ou menos assim:

Você não precisa ser “fácil de lidar” para ser amada

O que você quer dizer com isso?

Se crescer em uma cultura repleta de imigrantes me ensinou algo, foi que você só deve chorar em casamentos e funerais

Então, quando eu tinha cinco anos, a única forma que eu sabia de expressar meus sentimentos era dançando nas festas de família na sala de estar

Mas meus primos, tias e tios que presenciavam esses momentos, diziam todos a mesma coisa: “uma garota normal não agiria dessa forma”

E foi quando eu parei de dançar nas festas, e eu aprendi que ser amada significava…

Se diminuir, se conter

E quanto menor (mais discreta) eu fosse, seria mais fácil para os outros me amar

Mas aí eu me apaixonei e…

Eu comecei a dizer que estava tudo bem, antes mesmo que meu namorado pudesse perguntar

E eu me retirava dos lugares e das situações, antes que começasse a chorar na frente dele. E assim foi até completarmos um ano de namoro

Eu estava sentada na minha cama conversando com ele e falando sobre tudo que deu errado aquele dia

Eu contei como lidei com tudo, de forma objetiva e fria, como quem marca “check” em uma lista

E no meio de tudo, algumas lágrimas começaram a cair e eu sequei o rosto imediatamente, mas ele viu e disse…

“O que houve? O que está acontecendo?”

Foi quando eu senti um vazio enorme no peito, de repente eu estava chorando de soluçar e ele me abraçou com carinho e disse

“Tá tudo bem, eu não vou a lugar nenhum”

E foi como se eu tivesse cinco anos de novo

Dançando numa festa na sala de estar, sendo exagerada, expressiva e sem filtros

Só que dessa vez, ninguém pediu pra eu parar. E foi quando percebi

Eu passei a vida inteira me diminuindo, sendo alguém “fácil de lidar” para que os outros pudessem me amar

E ele foi a primeira pessoa que me pediu para não fazer isso, porque…

Ele não amava a minha versão certinha que “dava conta de tudo”

Ele amava a versão que estava se escondendo desde que tinha cinco anos de idade

Porque o amor é, sentar perto de alguém no meio da bagunça, da confusão, do pior “show” que a pessoa poderia dar e dizer…

“Eu não vou a lugar nenhum”

Eu não sei tudo que passa nessa sua cabecinha de vento…

Mas queria que você soubesse, que você não precisa ser alguém “fácil de lidar” pra ser amada.

Eu quero amar sua versão real, crua, sem polimentos; a que carrega falhas, problemas e angústia.

Quero olhar o seu pior lado, sua pior versão; quero encarar sua escuridão e dizer “eu não vou a lugar nenhum”.

Por que de verdade, eu não vou mesmo a lugar nenhum.

Te amo

Do sempre seu

Nathan.