Se chegou a este capítulo, é porque decidiu ignorar minhas advertências anteriores e continuar dedicando algumas horas de sua vida a esta leitura.
Saiba que tenho certa simpatia por pessoas que, por teimosia, burrice ou simples incapacidade de abandonar um mistério pela metade, ignoram avisos e permanecem reféns da própria curiosidade.
Dizem que a curiosidade matou o gato. Felizmente, até onde sei, nenhum de nós pertence à família dos felinos. Assim sendo, não vejo motivo portanto, para apagar essa chama inconveniente que insiste em nos incendiar por dentro.
Creio que o mais adequado seria começar esta história pela minha origem, ou como Freud provavelmente chamaria, minha primeira infância.
O problema é que não me recordo de haver ali nada particularmente digno de nota.
Gostaria de poupar você de toda a parte tediosa da minha existência e avançar diretamente para os poucos momentos que realmente justificaram o trabalho de continuar respirando. Mas suspeito que, se o fizesse, esta autobiografia dificilmente ultrapassaria meia dúzia de páginas.
Além disso, sequer sei se é literariamente permitido fazer saltos temporais tão indecentes numa biografia.
Serei honesto: autobiografias jamais estiveram entre meus gêneros preferidos. Sempre fui homem dos romances, das fantasias, das distopias e, por que não admitir, da ficção científica.
Acho meio contraintuitivo dedicar horas de leitura a algo incapaz de me afastar da realidade. Pelo contrário: autobiografias parecem existir justamente para apresentar pessoas que, em circunstâncias ainda mais miseráveis que as nossas, encontraram força, propósito, redenção ou qualquer outra palavra elegante que se use para transformar sofrimento em narrativa inspiradora.
Para alguns, isso deve soar motivador.
Para mim, soa apenas como um lembrete irritante de que outros fizeram do limão uma limonada… enquanto eu ainda observava os limões no pé, sem saber sequer como colhê-los.
Embora saiba que, se algum dia alguém vier a ler estas páginas, eu já estarei morto, e portanto, convenientemente indisponível para responder pelos crimes aqui cometidos contra a gramática, tentarei manter-me razoavelmente fiel ao que imagino ser uma autobiografia e contarei, em essência, toda a minha história.
Não sei ao certo o dia em que nasci.
Meu nascimento foi registrado anos depois do ocorrido e, embora isso talvez pareça absurdo aos olhos de quem cresceu cercado de documentos, computadores e repartições públicas, era algo perfeitamente comum no interior.
Fazer o registro de uma criança podia significar uma viagem de vários dias até a cidade mais próxima que possuísse um cartório, uma empreitada particularmente pouco sedutora quando essa cidade ficava a quatro dias de carroça.
Além disso, sendo brutalmente franco, depois que uma criança já nasceu, respira, chora e ocupa espaço dentro de casa, um papel confirmando sua existência começa a parecer uma redundância burocrática de humor duvidoso.
Anos mais tarde, tentei descobrir em que dia exatamente havia vindo ao mundo.
Consultei cinco pessoas.
Recebi cinco datas diferentes.
Também recebi cinco relatos completamente incompatíveis sobre os acontecimentos que antecederam meu nascimento, todos narrados com tamanha convicção e riqueza de detalhes que cheguei a suspeitar, por alguns instantes, de que talvez eu tivesse nascido cinco vezes.
Diante da ausência de consenso científico, familiar ou divino, tomei uma decisão prática.
Naquilo que deduzi serem meus oito anos de idade, escolhi uma data pela qual nutria certa simpatia numérica — 27 de outubro — e a adotei como meu aniversário oficial.
Não havia festas de aniversário em minha casa.
Nunca houve bolo, velas, presentes ou fotografias constrangedoras.
Ainda assim, todos os anos, em silêncio absoluto e sem comunicar a ninguém, eu comemorava internamente aquele dia, como sendo o meu dia.
Perdi contato, há muito tempo, com os parentes daquela vida deixada para trás. Hoje, tudo aquilo me parece pertencer a outra pessoa.
De modo que já não tenho a quem recorrer para descobrir, com alguma precisão, como eu era quando criança.
Mas sendo eu a única pessoa que permaneceu comigo durante toda a minha vida, suponho que eu mesmo esteja razoavelmente qualificado para fazer essa descrição, apoiado no que ainda me lembro de ter ouvido dos outros, e naquilo que gosto de acreditar que sou… ou ao menos, que fui por algum tempo.
Fui uma criança alegre.
Sorridente o suficiente para fazer amigos com facilidade, arteira o bastante para gastar energia em quantidades pouco saudáveis e esperta o suficiente para, na maior parte das vezes, não ultrapassar o limite que me garantiria receber uma surra ao voltar para casa.
Minha avó costumava contar que eu frequentemente fazia xixi nas calças enquanto brincava na rua.
Não por preguiça.
Nem por alguma deficiência fisiológica particularmente humilhante.
Eu simplesmente tinha medo de ir ao banheiro, perder alguns minutos preciosos e, ao voltar, descobrir que as outras crianças haviam decidido encerrar a brincadeira sem mim.
Mesmo naquela idade, ao que tudo indica, eu já nutria certo pavor do abandono. Como nossos maiores medos frequentemente se tornam realidade, esse tópico acabou sendo presente e frequente em praticamente toda a minha vida.
Eu era de um branco incurável.
Do tipo que não bronzeia.
Apenas queima.
Minha pele constantemente castigada pelo sol, somada à baixa estatura e a um corpo franzino, me conferiam a aparência, não tão injusta quanto eu gostaria de admitir, de uma criança delicada demais para o ambiente em que crescia.
Entre os muitos amigos que fiz na rua, acho justo mencionar Anderson e Leonardo Stefaisk.
Dois garotos mais velhos, cujos braços, à época, possuíam aproximadamente a circunferência do meu pescoço.
A inteligência , ou talvez a completa ausência dela, havia conspirado para que ambos frequentassem a mesma sala que eu no colégio, apesar da diferença evidente de idade.
Nossa amizade era marcada por algo próximo de uma relação simbiótica.
Eu fornecia o cérebro.
Eles, os músculos.
E embora isso possa soar pouco refinado enquanto definição de amizade, não posso deixar de me sentir profundamente grato aos irmãos Stefaisk.
Se ainda possuo todos os meus dentes, uma parcela considerável desse mérito pertence a eles.
Uma criança frágil, inserida num ambiente áspero, costuma rapidamente tornar-se oportunidade.
Uma espécie de degrau humano disponível a qualquer um disposto a subir alguns centímetros na cadeia alimentar do sistema educacional.
Os irmãos Stefaisk foram, durante alguns anos, a muralha improvisada que me permitiu não ocupar a base dessa pirâmide.