Volta e meia, oiço falar de valores judaico-cristãos. Quando oiço esse termo, já sei o que se segue — uma justificativa para alguma coisa má que ainda ocorre na nossa sociedade contemporânea, iluminada, avançada.
Atualmente, inclusive no discurso de algumas personalidades de relevo na nossa sociedade, os valores judaico-cristãos são uma espécie de doença hereditária que acometeu à nossa sociedade, a qual é, lamentavelmente, muito difícil de curar.
Os valores judaico-cristãos são, neste imaginário, responsáveis pela grande culpa que sentimos, por uma negação do corpo, do sexo e do prazer e pela ostracização da mulher.
Antes de dizer que tais conceções não podiam estar mais longe da realidade, devo dizer que compreendo porque tal imaginário se possa gerar na mente menos atenta aos valores — isto é, às ideias — do Cristianismo (vamos deixar o Judaísmo descansado, por hoje). É que muitos cristãos não se comportaram de acordo com os seus valores, traindo, vez após vez, aquele a quem chamam Senhor.
Porém, os valores cristãos não são, necessariamente, os valores apregoados e vividos pelos cristãos, mas sim os valores ensinados e vividos pelo próprio Cristo. Apesar de a vida dos cristãos poder ser a única Bíblia que muitos vão ler, se quisermos ser justos quando nos referimos aos tais valores, temos de fazê-lo com base na vida e nos ensinos do Cristo.
Analisemos pois esses temas associados ao Cristianismo e vejamos se esse discurso pejorativo é sustentável.
A culpa é um sentimento universal, faz parte da natureza humana, está lá para nos dizer quando fazemos alguma coisa errada. Existe em todos os povos e culturas. Curiosamente, o Cristianismo apresenta-nos um Deus que nos perdoou todos os pecados, gratuitamente, não sendo necessário qualquer sacrifício ou pagamento para alcançar esse perdão. A experiência de conversão de muitos cristãos é, precisamente, o de sentirem-se libertos de um grande fardo de culpa que carregavam, tal como na imagem do Peregrino, de John Bunyan.
Deus estava em Cristo, reconciliando consigo mesmo o mundo, não levando em conta as transgressões dos seres humanos.
2 Coríntios 5:19
Ao contrário do Platonismo grego, que dizia que a matéria era uma coisa inferior e que o espírito, sim, era elevado; e das religiões orientais, que afirmam que o mundo material é Maya (ilusão), o Cristianismo afirma o corpo em todo o seu esplendor. Jesus encarnou num corpo, viveu na Terra como homem e, após a morte, ressurge num corpo. A criação do mundo material, no mito do Génesis, é um ato de amor e criatividade, em vez de um subproduto de conflito, como outros mitos cosmogónicos da mesma época afirmavam.
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus(…) E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade.
João 1: 1 e 14
De acordo com a Bíblia, o sexo é ideia de Deus, criador, e ocorre antes da Queda. Há um livro inteiro de literatura romântico-erótica na Bíblia: Cantares de Salomão. É verdade que Agostinho de Hipona, teólogo do século IV, génio de fé sincera, mas atormentado por uma libido exacerbada, como ele próprio narra nas suas Confissões, influenciou bastante o pensamento ocidental a respeito do sexo. No entanto, na Bíblia, o sexo é celebrado. Os mandamentos a respeito do mesmo visam a proteção de uma coisa preciosa e não a restrição do prazer, pelo contrário.
Beija-me com os teus doces lábios;
que as tuas carícias são mais deliciosas que o vinho.
Os teus perfumes cheiram tão bem!
O som do teu nome é agradável perfume.
Por isso, as mulheres gostam de ti.
Leva-me contigo! Vamos depressa!
Leva-me para os teus aposentos, ó meu rei.
Vamos alegrar-nos eu e tu, e ser felizes;
celebraremos o teu amor mais suave do que o vinho.Cantares de Salomão 1: 2-4
Na cultura judaica do século I, a mulher era considerada propriedade e, na cultura greco-romana, que glorificava o poder e desprezava a fraqueza, a mulher tinha um papel subalterno.
Em contraste, Jesus tem discípulas, que permite que aprendam, como os homens, a seus pés. No Reino de Deus, não há distinções de valor entre homens e mulheres, há igrejas lideradas por mulheres e todas podem orar e falar a palavra de Deus nas comunidades.
Não há diferença entre judeus e não-judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homem e mulher. Agora constituem um todo em união com Cristo Jesus.
Gálatas 3:23
Quais são então os valores judaico-cristãos? São, como descreve o historiador Tom Holland, aqueles onde estamos assentados, que damos por garantidos sem saber que foram construções do Cristianismo. Entre muitos outros, está a valorização do fraco, do necessitado e do que está em sofrimento; o valor de todos os humanos, sem exceção, serem feitos à imagem e semelhança de Deus e, por isso, deverem ser amados; o valor de que só se alcança a paz através do perdão… E muito mais.
A mim parece-me que o problema não são os valores judaico-cristãos.

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