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Ao Deus Desconhecido · Apr 24, 2025

Hostilidade e Hospitalidade

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Natanael Gama · Ao Deus Desconhecido

Talvez nos tenha apanhado de surpresa que, quando as sociedades se rebelam contra os autoritarismos, as hierarquias opressoras e as instituições bafientas, depondo os tiranos, o trono não desapareça, mas simplesmente fique livre.

Poderá até ser que se tenha simplesmente libertado o pêndulo, que agora segue a toda a velocidade para o outro lado e que, por sua vez, chegada a hora, também tornará a voltar.

Dantes, só a elite tinha opinião; agora, todos os idiotas são gurus. Dantes, as instituições manipulavam a verdade; agora, temos polos de fabricação de “verdades” contraditórios entre si. Dantes, todos eram obrigados a reverenciar os senhores doutores; agora, a educação é escarnecida.

Precisamos de abandonar essa ideia ingénua de que o progresso ocorre pelo simples fluir do tempo. Não. O progresso ocorre quando, enquanto sociedade, assumimos as rédeas do destino e levamos o mundo para um bom lugar.

Também é particularmente flagrante que haja uma cisão entre educação e formação, como se fossem coisas distintas. Afinal, sempre houve crânios malévolos e um sistema de ensino particularmente vocacionado para gerar mão de obra num mundo hipercompetitivo. Esse mundo nada faz nada para atenuar essa cisão.

As transformações perenes só ocorrem de dentro para fora. Não podemos decretar o fim da estupidez ou anunciar o cessar do ódio. Mesmo que mudemos todo o aparato externo, mudemos a linguagem, alteremos os símbolos da história, propagandeemos uma nova mensagem, mudemos o hino e a bandeira e nos tentemos convencer de que somos uma sociedade avançada, imune às desgraças do passado, quando a raiz não é expurgada, lá volta a erva daninha, novamente, com outra folhagem, mas com a mesma essência.

As medidas de emergência que tomamos não expurgam o mal, pelo contrário, exacerbam-no, mais uma vez porque se quer mudar de fora para dentro o que só pode mudar de dentro para fora.

Como então encetar uma mudança digna? Não tenho respostas definitivas, mas deixo esta pista, que muitos já vão percebendo: teremos de abandonar as trincheiras e sentarmo-nos à mesa, na casa uns dos outros (ou seja, não só recebermos o outro, mas deixarmo-nos ser recebido por ele), e amar antes de ousar doutrinar. Partir o pão em vez de partir para cima.

O apóstolo Paulo, na epístola à igreja de Roma, urge-a a “praticar a hospitalidade”. A palavra hospitalidade é, no original grego, philoxenia (philos + xenos; amor ao estrangeiro, amor ao estranho). O vocábulo xenos é o mesmo que constitui a palavra xenofobia. Hospitalidade é o exato oposto de xenofobia. Hospitalidade é acolher o outro na sua diferença, sem intenções de endoutrinar! Acolhê-lo na sua estranheza. Esse é o único terreno fecundo, onde se pode lançar e receber uma nova semente. É um corajoso salto sem rede, onde nos abrimos também à possibilidade de nós próprios sermos mudados. É um salto sem o qual pode continuar a haver muito discurso, mas nunca diálogo. Quando duas pessoas fazem esse movimento do coração em sinceridade, um portal de transformação configura-se e a verdade pode começar a fazer o seu trabalho, muito possivelmente em ambas as partes.

Read the original on aodeusdesconhecido.substack.com

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