Tempo é dinheiro, dizem. Mas o tempo é mais valioso do que dinheiro, que o digam os velhos ricos. O tempo não pode ser comprado e, investido, não rende. Na verdade, o tempo só pode ser encurtado, quais grãos de areia a vazar numa ampulheta.
Mesmo os obcecados com a longevidade, cuja alimentação, atividade física e sono são escrupulosamente monitorizados, só conseguirão, na melhor das hipóteses, não encurtar mais rapidamente o seu tempo biológico.
É que os telómeros (uma estrutura presente nos nossos cromossomas), quais guardiões da mortalidade, asseguram-se de que, uma vez gasto o pavio da vida, gasto está. A cada replicação celular, estes telómeros vão ficando irremediavelmente encurtados.
Mas todo o esforço religioso por estender os dias de vida custa a vida dos dias. É que o tempo não é só krónos, é também kairós — esse tempo que se preenche de delícias. Esses momentos que queremos eternizar. Mais recentemente, o que me suscita tais momentos é a contemplação da alegria simples dos meus filhos… até eles me partirem qualquer coisa. Esse kairós é fugidio.
Mas geralmente esse kairós precisa de “espaço” no tempo. A pressa, a preocupação, o frenesi mental e as armas de distração massiva minam a nossa capacidade contemplativa.
O tempo que não é pautado por ritmos e rituais torna-se um fluxo ininterrupto improcessável.
Ao querermos otimizar tanto o nosso tempo, removemos o tempo de “não fazer nada”, de onde brota tanta iluminação e criatividade. A “compulsão para produzir” torna-nos estéreis da vida que realmente interessa.
A quietude, o silêncio e a solitude são santuários que precisamos de erguer e proteger. Mas é tão difícil!
Sinto que vivemos num estado de expropriação. Estamos expropriados do tempo.
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