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O Substack de Antonio Risério · Dec 26, 2025

O JOGO SUJO DA ESQUERDA PARTIDOCRATA - intervenção em debate no Instituto Goethe.

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Antonio Risério · O Substack de Antonio Risério

A esquerda detesta o dissenso, a contestação de suas “verdades”, especialmente quando a crítica vem do campo da própria esquerda. Fazem de tudo para evitar, neutralizar a discussão do assunto, apelando para expedientes rasteiros e muitas vezes “psicológicos”. Como dizer que a crítica é fruto de algum “ressentimento”, por exemplo. Mas não só. Ainda nesse campo pseudopsi, se apressam a tentar neutralizar qualquer ruptura político-ideológica tratando-a não pelo que ela é, mas como “traição”. Em “Raízes do Brasil”, Sérgio Buarque já falava dessa gente que só consegue pensar em termos de família, de clã, em vez de discutir as coisas em termos políticos e ideológicos. Uma dissidência político-ideológica deve ser encarada como tal e não na base do moralismo rastaquera da virtuosa família traída. Até me lembro da maldição de Sartre, em “As Palavras”, quando ele diz que família é como sarampo: a gente tem uma vez e não esquece nunca. Só que eu, eu mesmo, nunca pertenci à família petista. Fui um aliado conjuntural, enquanto isso foi possível. Mas há muito deixou de ser. Em todo caso, ao tempo em que me ataca, essa turma não tem problema algum em abraçar o companheiro Alckmin, o companheiro Geddel e outros companheiros do mesmo gênero.

Outro truque para neutralizar a discussão, truque que a esquerda petista herdou do fascismo stalinista e transmitiu à esquerda identitarista, é dizer que o crítico de esquerda já não é de esquerda, converteu-se |à direita, ao “bolsonarismo” e então a militância espalha isso, na base do jogo sujo. Por isso mesmo, sublinho sempre que permaneço no campo da esquerda, mas da esquerda democrática, hoje reduzidíssima. Deixei qualquer projeto autoritário para trás, desde que me afastei da organização comunista clandestina Política Operária (Polop), em 1970 – e a Polop deu quadros e mais quadros ao PT, incluindo a senhora Dilma Rousseff. A esquerda autoritária, petista-identitarista, não suporta isso, nem as minhas críticas, que partem de uma leitura histórico-social das realidades brasileiras e de uma posição política mais ou menos na linha da verdadeira socialdemocracia, enquanto versão socialmente responsável do Iluminismo, colocando a esfera pública acima da particular (coisa que o PT não faz, como se viu agora com Lula dando uma mãozinha à JBS), mas ao mesmo tempo acreditando que um setor econômico privado forte, numa sociedade mais igualitária, é um caminho para evitar a excessiva concentração de poder no setor público. E é em nome da democracia, do universalismo iluminista e do internacionalismo socialista que combato o autoritarismo e o tribalismo.

Uma terceira jogada é a seguinte. Se você discorda da ideologia e da prática da esquerda racialista no combate ao racismo, o modo de neutralizar a discussão é acusá-lo de racista. É uma estupidez, mas também uma esperteza. Façamos uma comparação. Se você discorda de um determinado discurso sobre a fome, isso significa que você é contra aquele discurso. Só. Não quer dizer, de modo algum, que, por ser contra aquele discurso, você é a favor da fome. Mas a “lógica” do identitarismo racialista é essa. Eles querem que todo mundo acredite que, quem discurso do discurso racial deles, não é simplesmente contrário àquele discurso – mas, sim, a favor do racismo. É uma estupidez. Mas muito esperta e eficaz, como disse, porque inibe ou neutraliza vozes discordantes, que é tudo que o fascismo petista-identitarista quer. Daí o uso dessas palavras mágicas, como racista ou homofóbico, para calar adversários. Mesmo porque essa militância, em sua prática discursiva, não sabe argumentar. Substituíram o argumento pelo insulto. A resposta ao dissenso é xingar. Costumo dizer que xingar é o que faz o militante identipetista ter a ilusão de transcender a própria pequenez, como “o anão que se acha alto quando cospe longe”, para lembrar a frase de Prosper Merimée em “Carmen”.

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