A primeira vez que tive a oportunidade de escrever sobre a obra de Frederick Wiseman foi quando La Danse, seu filme sobre o Balé da Ópera de Paris, foi exibido em São Paulo, em 2009. Não fiquei muito satisfeito com o texto, mas acho que ele consegue abordar um pouco do fascínio que envolve filmar apresentações e seus ensaios. Há alguns anos, ao escrever para este espaço sobre The Company, de Robert Altman, um ótimo filme de ficção sobre uma companhia de balé, acredito ter conseguido abordar o tema de forma mais adequada; o fato de estes filmes de ficção e não-ficção compartilharem tanto em termos de abordagem a ponto de eu poder relacioná-los facilmente diz algo sobre como Wiseman se relaciona com as artes.
Entre 1995 e 2011, Wiseman realizou uma série de filmes dedicados a diversas formas de performance artística. Houve Ballet (1995), sobre uma companhia americana, seguido, 14 anos depois, por sua contraparte francesa em La Danse. Um filme sobre a venerável companhia teatral La Comédie Française (1996), Boxing Gym (2010), que se volta para o esporte, mas parece fazer parte da mesma linha, e meu favorito, Crazy Horse (2011), que aborda uma casa de dança erótica de luxo em Paris. Esses filmes foram lançados em blocos: dois em meados dos anos 90, três por volta de 2010, e estão claramente em diálogo uns com os outros. Como de costume, Wiseman considera sua filmografia como uma grande obra com múltiplas partes. As proximidades e distâncias entre elas fazem parte de seu significado. A maioria deles aborda intensamente o trabalho envolvido na criação artística, com muitos ensaios e repetições; temos uma boa noção da preparação necessária para a arte; há também a relação entre a câmera e os corpos em ação, a maneira como esses filmes exploram os limites de uma ficção que surge a partir desta observação. Há um desejo de prolongar o momento e garantir que todo esse trabalho possa permanecer como cinema.
Se Crazy Horse me parece o melhor desses filmes, uma das razões é que o clube parece ter dado a Wiseman mais liberdade para trabalhar e filmar suas apresentações. Os dois filmes dos anos 90 sofrem um pouco com isso, como se ele estivesse fazendo o possível para filmar as dançarinas e os atores, mas estivesse de mãos atadas pelas próprias companhias. O Crazy Horse se considera mais do que um clube de strip-tease, e os responsáveis pelo local claramente veem a presença de um famoso documentarista fazendo um filme sobre eles como uma forma de legitimação; até por conta disso, Wiseman recebeu bastante liberdade.
Outra semelhança recorrente que deve se destacar quando esses filmes são elencados é que, para a obra de alguém reconhecido como um dos mais importantes cineastas americanos, a maioria desses filmes sobre artes e espetáculos se passa na França; se quisermos, é possível acrescentar a essa lista National Gallery, de 2014, sobre o museu londrino, ou, nessa mesma linha, a alta gastronomia de Menus-Plaisirs – Les Troisgros (2023). Até mesmo Ballet tem um bloco em que acompanha a turnê europeia da companhia. Há muito nesses filmes sobre as estruturas dessas companhias e as negociações que ocorrem dentro delas; esses filmes não são simples celebrações, mas Wiseman é apaixonado pelos artistas e admira seu trabalho, e seu cinema parece se sentir mais à vontade ao abordar realização artística quando se move para a Europa. Há razões práticas para isso. Wiseman morou na Europa durante a maior parte de suas últimas décadas, e seu interesse em fazer filmes sobre artes ficou muito maior no final de sua carreira, então é possível que isso fizesse mais sentido, mas ele também continuou indo aos EUA para filmar durante esses anos, e é provável que se sentisse mais à vontade filmando a relação europeia com os projetos artísticos e criativos. Ele já havia feito um filme bem americano sobre performance no passado, Model (1980), que é um de seus filmes mais violentos e negativos. Há momentos em que a relação entre dançarinos/atores e seus superiores lembra Model nesses filmes, mas o fato de Wiseman parecer valorizar o que eles estão fazendo e de as pessoas envolvidas considerarem isso mais do que apenas um trabalho confere ao filme um sentido maior.
Essa distância entre as percepções americanas e europeias sobre a arte é um dos temas implícitos nesses filmes. O que mais se destaca em Le Comédie Française é a tradição; a companhia é uma instituição célebre na França, que tem muito orgulho de si mesma, e isso se torna parte integrante das próprias apresentações. Atuar nessa companhia é uma honra; há nisso um valor que vai além das questões de capital. De certa forma, é o oposto do já discutido The Garden, em que o valor do local gira todo em torno do lado financeiro. A natureza tipicamente francesa de tudo é uma das partes mais divertidas de Crazy Horse. O clube acaba de contratar um coreógrafo renomado para montar um novo espetáculo; ele é ao mesmo tempo muito pragmático quanto à natureza sexual do espetáculo e leva isso muito a sério. É uma revista de bundas, mas que se justifica e se celebra. Há uma forma de obscenidade elevada envolvida que Wiseman apresenta com certa distância, mas pouco julgamento. O fato de que dançarinas, coreógrafos e a administração considerem o que fazem respeitável vem em primeiro lugar. Há uma comédia absurda em parte disso, mas também alguma admiração pelo empenho deles. Wiseman podia morar na França, mas Crazy Horse é, em grande parte, um filme de um estrangeiro; ele demonstra curiosidade pelo mundo que retrata e fascínio pelo que mostra. Não há nenhum traço do pudor americano, mas o filme olha para a cara de pau dos franceses em relação ao sexo com uma ironia antropológica.
Vale ressaltar que o apreço de Wiseman pelo teatro o levou a dirigir seis peças entre 1986 e 2012. Seu filme de ficção de 2002, The Last Letter, que não é bem dos melhores, teve origem em uma peça que ele dirigiu primeiro em Boston e, posteriormente, na Comédie Française (onde mais tarde também dirigiu uma montagem de Dias Felizes, de Samuel Beckett). Portanto, esse é um processo criativo que continua próximo a ele. Se Model sugere algumas das tendências mais sombrias da produção cinematográfica, seus filmes sobre artes posteriores abordam o que pode ser conquistado pela colaboração entre diretores e intérpretes. Crazy Horse busca um equilíbrio entre os dois; ocasionalmente, faz uma referência aos aspectos mais exploradores do clube, ao mesmo tempo em que oferece um olhar íntimo sobre o que pode significar montar um espetáculo.
Uma das razões pelas quais adoro Crazy Horse é que esse é o filme em que Wiseman mais se aproxima de fazer um musical. Os filmes anteriores às vezes sugeriam isso, mas a estrutura de Crazy Horse segue de perto o formato de um musical de bastidores teatrais. Vemos o diretor egocêntrico, os artistas e como eles montam um espetáculo. Wiseman apresenta mais momentos completos do que nos filmes anteriores; ele não se contenta apenas com trechos sugestivos das apresentações. O filme com frequência se move do todo para as partes. Há alguma nudez, mas como passamos mais tempo nos preparativos nos bastidores, a maioria das dançarinas não fica totalmente exposta, uma escolha que parece deliberada. A câmera tem mais liberdade do que em outros filmes. As cores chamativas e a iluminação são expressivas do início ao fim. Wiseman é um intermediário entre os diretores do Crazy Horse e nós, mas permite que o que eles veem em seu trabalho transpareça. A apresentação ao som de Toxic, de Britney Spears, por exemplo, pode ser exibida em todo o seu vigor.
A linha que separa o que é visualmente prazeroso do que é simplesmente vulgar é algo que muito interessa ao filme. O Crazy Horse não tem autoconsciência. É uma revista grosseira e pretensiosa. Crazy Horse, o filme, por sua vez, compreende as contradições envolvidas, e seu sucesso está relacionado à forma como consegue encontrar um equilíbrio. É engraçado e irônico, mas compreende o prazer e o trabalho envolvidos no espetáculo. Os musicais de bastidores da década de 1930 aos quais se assemelha são, por si só, bastante vulgares e contraditórios em sua visão do teatro daquela época, ao mesmo tempo comemorativa e crítica. Eu brinquei dizendo que Crazy Horse poderia ter se chamado “Les chasseuses de fortune de 2011,” em referência à série “Gold Diggers” da Warner daqueles anos, e o efeito parece intencional. Esses musicais da Warner têm números incríveis (e muitas vezes muito vulgares) graças ao coreógrafo Busby Berkeley. Philippe Découflé, o principal coreógrafo aqui, é tão vulgar quanto Berkeley, mas também muito mais autocentrado; ele agora possui o título de Comandante da Ordem das Artes e Letras concedido pelo governo francês e já trabalhou para o Cirque du Soleil. O fato de não haver muita diferença entre o Crazy Horse e o Cirque du Soleil é um dos pontos centrais do filme.
Esses filmes admiram as dançarinas, ao mesmo tempo em que observam seu ambiente como predatório e a filosofia de que “o show deve continuar” como algo essencial que a justifica. Crazy Horse aborda essas contradições de forma direta. Uma diferença fundamental é que Crazy Horse, por ser um filme de não ficção, mantém as próprias artistas à distância. O filme se interessa em como o cinema potencializa o espetáculo do Crazy Horse, mas o drama inerente às vidas ali existe mais como uma ideia geral. A última parte do filme mostra um processo de seleção. É uma estratégia importante que recontextualiza o filme que vimos até então e garante que, independentemente de quão expressivos os números possam parecer à primeira vista ou das grandes afirmações do diretor artístico Ali Mahdavi sobre a arte do Crazy Horse, não estamos muito distantes de Model. As dançarinas podem ser habilidosas, mas o lugar as vê, antes de tudo, como partes de corpo. A maioria dessas cenas finais é repugnante, com mulheres tratadas como peças descartáveis para uma ideia de espetáculo que, obviamente, é muito centrada no homem. Os comentários sobre elas que Wiseman destaca são bastante desagradáveis. Isso coloca o filme inteiro sob uma luz diferente, mas o foco dos números anteriores no que elas trazem como espetáculo não se dissipa tanto quanto encontra um lugar mais incômodo. O espetáculo continua, e isso resulta em um ótimo cinema, mas nada disso apaga o moedor de carne que serve de base para ele.
Como uma observação final, pelo que sei, Crazy Horse é o único filme de Wiseman que chegou a ter lançamento comercial no Brasil, lá em 2013. O momento certo teve influência nisso; o início da década passada foi uma época em que a distribuição se arriscou mais, sem parte da calcificação pós-streaming, mas é revelador que, de todos os filmes de Wiseman, justamente este, sobre o sexo como espetáculo, tenha recebido essa chance.
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