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e-mails, não enviados. · Jul 11, 2026

#8 “Porque eu deveria me importar com o que está acontecendo no Afeganistão? afinal, eu nem sou de lá.” — Como oque acontece lá, interfere no resto do mundo.

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Eu sei que para muita gente o que está acontecendo no Afeganistão é um assunto totalmente desconhecido. Talvez você até já tenha cruzado com algum vídeo sobre isso no TikTok, mas passou direto sem prestar muita atenção. Sendo bem sincera, eu mesma só fui entender a gravidade da situação depois que uma das minhas influenciadoras favoritas falou a respeito.

Naquele momento, me deu um estalo. Percebi o quanto eu estava por fora de coisas cruciais que acontecem no mundo. Depois desse post, decidi não ficar mais na ignorância: fui pesquisar, ler notícias e tentar entender o contexto histórico da situação. Sei que a política internacional parece um bicho de sete cabeças e que a nossa rotina já é uma correria, mas fechar os olhos não muda a realidade. Por isso, quis trazer esse assunto para cá, para que a gente possa entender e conversar sobre isso juntos, de um jeito simples e direto.

Para resumir o que está rolando sem entrar em termos políticos impossíveis de entender: o Afeganistão hoje é governado por um grupo extremista chamado Talibã. Eles já tinham controlado o país nos anos 90, foram tirados do poder e, em 2021, conseguiram voltar com tudo assim que as tropas americanas saíram de lá.

O grande problema disso tudo, e o que mais me chocou : é a forma como eles governam. Eles impõem uma interpretação radical da lei islâmica que tira praticamente todos os direitos fundamentais das pessoas, transformando o país em um dos lugares mais restritivos do mundo.

E quem mais sofre com esse apagão de liberdade são as mulheres e meninas. Para vocês terem uma ideia, elas foram proibidas de estudar além do ensino primário (ou seja, nada de faculdade ou escola depois dos 11/12 anos), não podem trabalhar na maioria das profissões e nem sequer podem sair de casa sozinhas sem um acompanhante homem da família. Recentemente, as regras ficaram ainda mais absurdas: elas foram proibidas até de falar ou cantar em público, porque a voz da mulher passou a ser considerada algo que precisa ser “escondido”. É como se elas tivessem sido completamente apagadas da sociedade.

Além de toda essa crise terrível de direitos humanos, o país enfrenta uma pobreza extrema. Como o resto do mundo cortou relações e ajuda financeira com o governo do Talibã, a economia quebrou, falta comida, falta emprego e a população comum está pagando uma conta caríssima.

É uma situação pesada, eu sei. A gente percebe que falar sobre isso e manter os olhos atentos é o mínimo que podemos fazer para que a história dessas pessoas não seja esquecida.

Mas aí você pode se perguntar: “Por que eu deveria me importar com o que está acontecendo no Afeganistão? Afinal, eu moro no Brasil, estou super longe e nem sou de lá.”

É um pensamento super normal, a nossa vida já é cheia de boletos e problemas para resolver. Mas a verdade é que o que acontece lá bate na nossa porta aqui, de várias formas.

Em primeiro lugar, existe a questão da segurança global. Quando um grupo extremista controla um país inteiro, aquele lugar corre o risco de virar um “quartel-general” livre para planejar ataques e espalhar radicalismo pelo mundo. A história já mostrou que o extremismo não fica preso dentro de fronteiras; ele viaja, recruta pessoas pela internet e afeta a segurança de todos nós, independentemente de onde a gente morar.

Em segundo lugar, existe o efeito dominó nos direitos humanos. Quando o mundo assiste, em silêncio, a um governo apagar os direitos de todas as mulheres de um país, abre-se um precedente perigoso. Isso envia um sinal para outros regimes autoritários ao redor do planeta de que eles também podem fazer o que quiserem com suas populações sem sofrer grandes consequências. Se a liberdade retrocede lá, a ideia de liberdade enfraquece no mundo todo.

Por fim, tem o lado da crise humanitária e dos refugiados. Milhões de afegãos são obrigados a abandonar tudo para salvar suas vidas. Essas pessoas não somem; elas buscam refúgio em outros países. O próprio Brasil tem recebido milhares de refugiados afegãos nos últimos anos, pessoas que chegam aos nossos aeroportos só com a roupa do corpo e traumas gigantescos. Isso mexe com a economia, com as políticas públicas e com a nossa própria comunidade que os acolhe.

Pensa comigo: se você hoje em dia assiste a um filme, lê o livro que quiser, estuda, trabalha ou faz faculdade, isso não aconteceu por mágica. É porque, no passado, alguém marchou, bateu o pé e lutou muito para que você tivesse essas possibilidades. Direitos fundamentais não nascem com a gente; eles são conquistados.

No Afeganistão, as mulheres hoje não conseguem sequer sonhar com nada disso. Elas não têm essa escolha, simplesmente porque não têm direitos. Elas foram trancadas dentro de suas próprias casas e silenciadas.

É por isso que, quando você nasce mulher, tudo acaba sendo política. Desde a roupa que você veste até o livro que você abre, cada pequena liberdade que a gente desfruta sem nem pensar no dia a dia é o resultado de uma estrutura política que nos permite existir. Olhar para o Afeganistão é lembrar que o que temos hoje é precioso demais para ser ignorado — e que a luta pelo direito de ser humana e livre nunca pode ser deixada de lado.

Então, se depois de tudo isso você ainda acha que esse assunto é uma besteira, ou que não tem nada a ver com a sua vida, é bom abrir o olho. A história já cansou de nos mostrar que a liberdade não é um direito permanente; ela é conquistada e mantida todos os dias.

Quando a gente escolhe ignorar e normalizar o absurdo acontecendo com o outro, abrimos espaço para que, aos poucos, o retrocesso bata à nossa própria porta. Se você acha que está blindada na sua bolha, se prepare: ao passar dos anos, sem perceber, pode ser você a assistir aos seus próprios direitos sumindo um por um.

Direitos humanos não são garantidos para sempre. E a omissão de hoje é o silêncio que nos apaga amanhã.

Aqui alguns outros textos no substacks para você ler sobre o assunto :

Quer um exemplo de como esse apagamento acontece na prática, um passo de cada vez? O Talibã oficializou uma lei de “moralidade” que beira o inacreditável: as mulheres foram proibidas de falar em público.

Não é força de expressão. A lei deixa claro que a voz da mulher é considerada algo íntimo e uma “tentação”, portanto, elas não podem cantar, recitar e nem sequer falar alto o suficiente para que um homem que não seja da família as escute na rua. Para piorar, novas restrições proibiram as mulheres até de conversarem entre si em público, impedindo que se reúnam em grupos para ir ao mercado ou à padaria.

Pensa no peso disso. Elas já não podiam estudar, não podiam trabalhar, não podiam andar sozinhas. Agora, não podem nem emitir som. É o silenciamento literal e absoluto de metade da população de um país.

Quando eu digo que tudo vira política quando você é mulher, é sobre isso. A nossa voz é a nossa primeira e maior ferramenta de defesa. Tirar a voz de uma mulher é garantir que ela nunca mais possa gritar por socorro, denunciar um abuso ou exigir seus direitos. É transformá-la em um fantasma dentro da própria casa. É por isso que assistir a isso calada não é uma opção. Se a gente não usar a nossa voz por elas hoje, quem vai usar a voz por nós amanhã?

O vídeo do canal oficial do G1 no YouTube detalha os decretos do Talibã que impõem esse controle rígido sobre a conduta social e o silenciamento das afegãs, ajudando a compreender a gravidade das punições e leis aplicadas no país: Reportagem do G1 sobre o silenciamento das mulheres no Afeganistão.

O que mais me assusta no meio de tudo isso é ver que o mundo parece estar cansando do assunto. No começo, quando o Talibã assumiu em 2021, todo mundo postava, comentava e fingia que se importava. Hoje, em 2026, essas leis absurdas de silenciamento continuam sendo aprovadas e a reação geral é o silêncio. A gente se acostumou com o absurdo do outro lado do mundo.

Mas a história deixa um aviso muito claro para nós: regimes extremistas não param por conta própria. Eles testam os limites. Eles olham para o mundo, veem que ninguém está fazendo nada, e avançam mais um passo. Hoje é a proibição de falar em público no Afeganistão; amanhã, são discursos de ódio ganhando força em outros países, leis retirando direitos reprodutivos aqui e ali, e a liberdade sendo sufocada aos pouquinhos, debaixo do nosso nariz.

Por isso, se você chegou até o final desse texto, não deixe essa informação morrer aqui. Comente, compartilhe, converse com uma amiga. A internet tem o poder de furar bolhas, e a nossa indignação ainda é uma arma contra o esquecimento.

Não permita que o silêncio delas vire o seu também. Use a sua voz enquanto você ainda tem o direito de fazer isso.

Aqui nesse link você encontra o meu clube de escrita, comunidade no whatsapp, com ideia de incentivar mais você a escrever e compartilhar seus textos do subs : Clube criativo

Read the original on anneliesericci.substack.com

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