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e-mails, não enviados. · Jul 5, 2026

#7 A internet está acabando com os relacionamentos?

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Sento para rolar o feed e, em cinco minutos, sinto que meu relacionamento é insuficiente, minha casa é bagunçada e meu parceiro não faz surpresas com pétalas de rosa o suficiente.

O impacto das redes sociais nos nossos afetos virou um jogo de comparação entre o meu bastidor e o palco do vizinho.

Hoje, parece que um relacionamento só é “real” se for validado por uma tela. Criamos a necessidade de performar felicidade. O jantar não é mais sobre o sabor da comida ou a conversa à mesa; é sobre o ângulo da foto.

Essa necessidade de exibição gera uma pressão invisível: a de que o amor precisa ser instagramável. Se não há posts, as pessoas perguntam se terminamos. Se há posts demais, dizem que estamos compensando algo. Não há para onde fugir.

As redes sociais nos vendem uma versão editada da realidade que destrói nossa paciência com o cotidiano.

Quando a gente se alimenta de expectativas irreais, passamos a olhar para o nosso parceiro (que é humano, falho e real) e sentir uma frustração injusta. O algoritmo não mostra a cara inchada de sono ou o mau humor matinal; ele mostra o recorte do ápice. E a gente, ingenuamente, tenta medir nossa vida inteira por esses 15 segundos de glória alheia.

Outro ponto perigoso é a ilusão de que sempre existe algo “melhor” a um clique de distância. As redes sociais transformaram pessoas em catálogos.

“A grama do vizinho parece mais verde porque é filtrada, mas a gente esquece que grama de plástico não precisa de cuidado.”

Essa facilidade de acesso gera relacionamentos descartáveis. Na primeira dificuldade real, em vez de consertar, a gente volta para a vitrine das redes sociais em busca de uma nova dopamina, de uma nova validação.

“regra dos três meses”

“regra dos seis meses”

“ghost” “lovebomb”

“não responder na hora”

“não mandar muita mensagem”

Se a gente quer que o amor sobreviva aos tempos de hoje, o segredo é desconectar para reconectar. É entender que o que sustenta uma relação não é o que vai para os Stories, mas o que acontece quando o celular está carregando em outro cômodo.

Precisamos parar de exigir que a nossa realidade tenha o filtro da ficção. O amor real é cheio de imperfeições, e é justamente nelas que mora a verdade que filtro nenhum consegue replicar.

Essa busca por validação externa cria um terceiro elemento invisível na relação: a audiência. Passamos a agir como se houvesse uma placa constante julgando a qualidade do nosso afeto. O perigo disso é que, aos poucos, deixamos de nutrir uma intimidação real para alimentar a "marca" do casal. Quando a prioridade é convencer o mundo de que somos felizes, sobra tempo e energia para realmente sermos felizes entre quatro paredes? O amor, que deveria ser um refúgio de paz, acaba se tornando mais uma tarefa de produtividade em nossa lista de obrigações digitais.

Além disso, a hiper-exposição rouba o que o amor tem de mais precioso: o segredo. Antigamente, os códigos de um casal pertenciam apenas aos dois; hoje, as piadas internas viram legendas e os momentos de vulnerabilidade são monetizados em busca de curtidas. Ao transformarmos o privado em público, perdemos a fronteira do que é sagrado. O "nós" deixa de ser um espaço protegido para se tornar um conteúdo de entretenimento para conhecidos e desconhecidos, diluindo a profundidade dos laços que só se fortalecem no silêncio do que não foi postado

No fim das contas, escolher o parceiro real, com seus dias cinzas, suas manias irritantes e seu apoio silencioso , é o maior ato de rebeldia contra um sistema que lucra com a nossa insatisfação. Precisamos reaprender a valorizar o "ordinário": o café da manhã em silêncio, o apoio na hora da doença, a resolução de um conflito bobo na cozinha. São esses momentos, desprovidos de trilha sonora ou edição perfeita, que constroem a base de uma história que dura. Afinal, a vida acontece nos intervalos entre um post e outro, e é lá que o amor realmente respira.

Read the original on anneliesericci.substack.com

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