RSS Amplifier

Com carinho, Anna. · Jun 6, 2026

O que faz a gente querer escapar para um jogo ou uma série?

0
Sign in to vote or save

Anna Gaudêncio · Com carinho, Anna.

Estética cozy, me peguei pensando sobre isso essa semana depois do lançamento do jogo Paralives. Isso porque sou uma pessoa que tende a ter hiper-focos, principalmente quando envolve dois ingredientes: algo novo e que seja útil pra mim. Nesse caso, a utilidade é me tragar pra outro mundo, onde eu possa criar histórias ou ambientes aconchegantes. Eu não sou uma fiel adepta a jogos, mas The Sims me conquistou desde a adolescência, então quando surgiu o Paralives, senti que era feito pra mim também.

Porém, comecei a associar Paralives, que é esperado há muito tempo pela comunidade insatisfeita com The Sims, com minha mania de preferir sempre assistir as mesmas coisas no lugar de arriscar algo novo. Acontece que esses dois fatores têm algo em comum: a estética.

Aparentemente sim, e já existem estudos que dão sentido ao nosso sentimento de que “o mundo anda muito pesado e, pra isso, buscamos escapar dele e nos aconchegar em um local seguro”.

Em 2024, uma pesquisa da Gallup, feita em 144 países, mostrou que mais pessoas no mundo estão experimentando emoções negativas do que há uma década: 39% dos adultos disseram ter se preocupado muito no dia anterior, e 37% relataram ter se sentido estressados. Já o relatório da Ipsos World Mental Health Day de 2024 mostrou que mais de três em cada cinco pessoas — 62% em média em 31 países — disseram ter se sentido estressadas a ponto de impactar sua vida cotidiana pelo menos uma vez. Mulheres jovens são as mais afetadas: 66% das mulheres relatam estresse contra 58% dos homens, e mulheres da Geração Z são consistentemente as mais vulneráveis.

Se levarmos em consideração que aconchego tem a ver com acolhimento, amparo e conforto, podemos entender que é basicamente o oposto do sentimento cotidiano apontado anteriormente. Então, parece um caminho fácil buscar escape. Concorda?

Traduzindo: estamos coletivamente mais estressados do que em qualquer outro momento das últimas duas décadas. E quando isso acontece, a gente corre pra algum lugar que pareça um lar. Talvez seja por isso que é mais fácil voltar a um local conhecido do que buscar um novo.

Segundo a psicóloga e pesquisadora Tanya Percy Vasunia:

“Reassistir filmes e séries serve como um alívio em momentos de incerteza — é como reencontrar amigos. Quando você sabe o que vai acontecer, é extremamente relaxante. Usar seus programas de TV favoritos como um meio de escape é um exercício de relaxamento, porque esses personagens estão próximos de você.”

Já o psicólogo Barry Schwartz explica no livro O Paradoxo da Escolha (The Paradox of Choice) que aquele mar de opções quando abrimos um stream acaba causando ansiedade: “quanto mais opções são oferecidas, menos as pessoas ficam satisfeitas com suas escolhas, gerando ansiedade”.

Particularmente, não queria necessariamente voltar ao tempo das locadoras, mas faço parte do grupo de pessoas que, no final do dia, prefere não pensar muito no que vai fazer pra relaxar. Só quero sentir o acolhimento do aconchego.

Entendendo nossa necessidade, qual o mecanismo por trás desses jogos e conteúdos? Por que essa tal estética cozy funciona tão bem pra nós?

Não sei se você já notou, mas dá uma olhada na coloração de cenas de Gilmore Girls, uma feita pra TV e outra pra Netflix, mesmo ambiente, paletas completamente diferentes.

Da série Gilmore Girls: Lorelay e Rory no mesmo ambiente, mas em tempos diferentes. Primeira imagem foi feita pra TV e a segunda pra Netflix.

Perceba que não é bem sobre qualidade, mas sobre textura e luz. A versão original tem mais cores, mais textura e uma luz mais baixa. Já a segunda é mais branca e, de certa forma, “limpa”. Mesmo assim, é possível ver uma tentativa de reproduzir a estética de aconchego característica de Gilmore Girls — já que essa é uma série que claramente buscamos como um reencontro com velhas amigas da cidade pequena onde crescemos juntas.

Isso acontece porque a estética cozy quase nunca usa luz fria e direta. Você não vai encontrar aquela luz branca de escritório ou de sala de espera que te faz sentir que deveria estar produzindo alguma coisa. O que você encontra é luz quente, baixa, lateral, a mesma luz da vela, de fim de tarde que lembra nossa mente que é hora de desacelerar.

Olha como a mini série Gilmore Girls: Um ano pra recorda, ainda tenta repetir a mesma estética de aconchego com as cores e iluminação.

E isso não acontece por acaso. Estudos de neurociência mostram que luz quente ativa respostas emocionais positivas no cérebro, nos levando àquela sensação de relaxamento, intimidade e segurança. Já a luz fria e alta ativa alerta e concentração. Resumindo: se acalca e relaxa versus vai trabalhar.

Resumindo em imagens: Cores quentes = se acalca e relaxa | Cores frias = vai trabalhar b*
Fonte da imagem: https://screenrant.com/relaxing-cozy-games-2024/

Repara no seguinte: em jogos cozy, os personagens são redondos. Sem queixo pontiagudo, sem ângulos agressivos. As casas são compactas. As árvores são fofas. Mesmo os objetos têm bordas suaves.

Isso também não é coincidência. Existe um fenômeno estudado há quase cem anos em psicologia cognitiva chamado efeito Bouba-Kiki: quando você mostra pra pessoas de culturas completamente diferentes uma forma angular e uma forma arredondada, a quase unanimidade associa a forma arredondada a palavras suaves e a angular a palavras cortantes. A preferência por formas curvas sobre angulares é, na prática, universal — e estudos de neurociência com fMRI já mapearam que formas angulares ativam mais a nossa amígdala, a região do cérebro ligada à resposta de ameaça e medo.

Traduzindo: redondo é seguro. Redondo é “pode relaxar aqui”. E quem projeta jogos cozy sabe disso — mesmo que nunca tenha lido um paper de neurociência na vida.

Sabe aquela história de que o diabo mora nos detalhes? No mundinho cozy, aquela xícara de chá na mesa que guarda um segredo, a janela com chuva de fundo ou o gato ronronando no canto da tela são elementos que, mesmo sem função ativa, fazem o mundo parecer completo, habitado e sem tanta pressa pra acontecer.

O meu aplicativo de pomodoro mais usado ultimamente é o app Cat on Chair, que tem justamente um sonzinho de chuva um de ronronado de gato.

O som é praticamente um personagem à parte, importantíssimo pra experiência do usuário. Não só a trilha sonora, mas todos os efeitos de ASMR fazem com que você seja tragado pra um ambiente diferente. Estudos de neuroimagem publicados no Frontiers in Neuroscience mostraram que esse tipo de estímulo ativa o nucleus accumbens, região ligada à recompensa e ao prazer. Cada barulhinho gostosinho é uma micro-recompensa. O mundo está em ordem. Você está exatamente onde deveria estar e pode abaixar a guarda pra relaxar.

Mas esse mecanismo não ficou só nos jogos. Hollywood percebeu faz tempo que nostalgia é o atalho mais eficiente pra criar sensação de segurança sem precisar construir do zero — você já tem vínculo emocional com aquele universo, eles só acionam o gatilho. É por isso que os últimos anos foram dominados por remakes, reboots e continuações. Chego sim a pensar que é uma certa falta de criatividade. Mas acho que já ficou claro pra eles que o familiar vende, e vende bem.

Ao mesmo tempo, tem algo que me intriga: a indústria reconhece que buscamos conteúdos familiares pra desacelerar, mas também assistimos críticos falando como os filmes e séries estão sendo feitos focando na nossa desatenção — ou seja, existe um movimento enorme de conteúdo feito pra segunda tela. Uma das críticas que mais ouvi sobre o filme O Morro dos Ventos Uivantes (que ainda não me dei o trabalho de assistir — porque será?) foi que ele foi feito pra servir de corte no TikTok. Ou que os roteiros estão vindo com falas repetitivas pra que as pessoas entendam o que está acontecendo enquanto rolam o celular.

São duas forças opostas na mesma pessoa, inclusive em mim. Às vezes quero me perder no Paralives por três horas. Às vezes boto Friends pra rodar enquanto trabalho só pra ter algo aleatório no fundo e não ficar em silêncio. E acho que as duas coisas dizem a mesma coisa: a gente está exausta de processar mais uma coisa. A diferença é que o cozy foi construído pra acolher e o conteúdo de segunda tela só pede pra ocupar espaço.

A cada dia fica mais claro pra mim que criar pra telas é sobre despertar sentimentos que podem ser embalados e servidos em momentos específicos. Entender a receita — luz quente, formas arredondadas, som que não interrompe, detalhe que não tem pressa — é o que constrói mundos inteiros em cima disso e dá vida e significado a um produto.

E aqui é onde eu paro de ser designer fazendo inventário e volto a ser só uma pessoa que adiou o texto da semana por causa de um jogo: mesmo sabendo como a engrenagem funciona, ainda me deixo levar por ela. Seja pra visitar minhas velhas amigas em Stars Hollow ou imaginar como seria um mundo descomplicado e seguro em The Sims ou Paralives.

Pra quem não tinha muito o que dizer essa semana, acabei escrevendo muito. Obrigada por mais um momento juntas(os).

Read the original on annagaudencio.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.