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In.pulso · Aug 5, 2026

Por que um conflito de 20 minutos ocupa a minha semana inteira?

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Uma elaboração não para fugir, nem para resolver, apenas pra permanecer tempo suficiente para algo novo poder nascer.

Foto no jardim do Espaço In.pulso - Créditos @tatyboruk

Tenho a sensação de que o In.pulso está se transformando. Talvez este deixe de ser um lugar onde publico conclusões que partem de conceitos e passe a ser um lugar onde compartilho processos de elaboração. Este texto nasceu assim, de um conflito que vivi. Não escrevo para desabafar, nem tenho a pretensão de ensinar alguma coisa. Quero usar este espaço como um laboratório, uma tentativa de olhar para uma experiência da minha própria vida e perguntar:

O que ela está tentando me ensinar?

E talvez convidar você a fazer o mesmo com a sua.

Nesta semana percebi quanto tempo e energia uma relação pode ocupar dentro de nós quando não conseguimos encontrar segurança. Curiosamente, o conflito em si durou pouco. Na verdade, o conflito ocupou uma hora e meia da minha vida. Mas a conversa terminou e ele continuou acontecendo dentro de mim..

Dormi mal, trabalhei mal no dia seguinte, caminhei carregando algumas falas que se repetiam na minha mente, lavei louça pensando nisso. O diálogo - que nem foi tão diálogo assim - já tinha acabado, mas meu corpo e minha mente pareciam não saber disso.

Fiquei pensando em quantas vezes isso me aconteceu. Um pequeno desencontro consegue sequestrar nossa atenção por dias. Minha criatividade diminuiu, a produtividade caiu, ficou difícil me manter presente. Me perguntei se isso era fraqueza. Hoje acho que não. Compreendi que era só uma parte muito antiga dentro de mim tentando resolver algo com estratégias desatualizadas que acreditava funcionar e com um senso de urgência, como se o mundo fosse acabar se não resolvesse isso agora.

Por sorte, era dia da sessão de pulso com minha parceira de prática do In.pulso LAB. Nós nos encontramos semanalmente para fazer a prática e tem sido curioso como nós duas chegamos com questões parecidas. Relacionamentos diferentes, histórias diferentes, mas um tema em comum de conflito ocupando um espaço enorme dentro de nós e nos impedindo de nos concentrarmos em nossas tarefas.

No meio da conversa aconteceu uma coisa que no passado era estranha e hoje eu acho muito bonita. Nós choramos. Quando terminamos, uma de nós disse:

“Melhor chorar aqui do que depois na frente da pessoa com quem estou em conflito.”

Sorri quando ouvi isso. Não porque seja um problema chorar na frente de outra pessoa. Mas porque percebi que não era exatamente sobre chorar, e sim sobre criar um espaço suficientemente seguro para que o sistema nervoso pudesse descarregar aquilo que estávamos carregando sozinhas.

Depois disso, voltar para a relação ficou diferente, mais leve, tinha mais lucidez e presença.

Tenho aprendido a valorizar cada amizade, cada pessoa que cria e sustenta este espaço de presença, com permissão para os sentimentos sem julgamento.

Estou começando a compreender e aceitar que nem todo acolhimento virá da pessoa de quem mais gostaríamos de recebê-lo. E isso não significa que a pessoa falhou ou que há algo de errado com ela, nem conosco. Entendendo que somos seres profundamente relacionais, me recordo de uma frase que ouvi em uma aula e que mudou minha forma de ver as relações: são os nossos sistemas nervosos que se relacionam. Partes de nós se ativam, outras se acalmam, algumas anestesiam, outras querem lutar ou fugir.

É libertador o quanto uma amiga de alma conseguiu me ajudar a organizar por dentro aquilo que depois consegui levar de forma mais limpa para interagir em uma relação importante. Isso às vezes acontece também em ambiente terapêutico. A presença da outra pessoa afeta a qualidade da minha presença de tal forma, que acesso algo que transcende a mim mesma e transformo tensão em criatividade.

Estou estudando sobre conflitos também na formação que estou fazendo como extensão da minha abordagem terapêutica. Me chamou atenção quando a facilitadora trocou a pergunta:

“Como controlo minhas reações?”

por algo muito mais compassivo.

Quem eu me tornei quando não me sentia segura?

Essa pergunta mudou completamente a direção da minha atenção e curiosidade. Parei de procurar defeitos e comecei a procurar proteção ou a compreender como meu sistema nervoso tentava me proteger naquela interação de conflito. Talvez minhas reações não sejam falhas de caráter ou algum distúrbio de personalidade, ou - Oh! Meu Deus! - a loucura da perimenopausa. Talvez sejam estratégias que um dia fizeram muito sentido. Tem uma parte de mim que ainda acredita que perder conexão é perigoso.

Então um silêncio pesa mais do que deveria...

Um limite como um “não” parece rejeição...

Um desencontro parece abandono...

Preciso de uma pausa para respirar aqui… porque tudo isso dói.

Visão para a floresta - Espaço In.pulso - Créditos @tatyboruk

E nada disso é o caso. Essas percepções são distorcidas. Mas porque foi assim que meu corpo aprendeu a interpretar determinadas situações, ele continua reagindo como se algo estivesse em risco, então, me protege reagindo de um jeito até infantil quando tem muita tensão na interação.

Há poucos dias ouvi uma conversa entre Thomas Hübl1, meu professor de trauma coletivo, e Michael Meade, que colocou mais uma peça nesse quebra-cabeça.

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Michael dizia que a maturidade de uma pessoa talvez seja medida pela quantidade de tensão que ela consegue sustentar. Achei essa ideia profundamente bonita e, para mim, soou verdadeira. Quando somos crianças, não conseguimos sustentar muita tensão. Lembrei dos meus pais discutindo, minha mãe gritando e eu, no meu quarto, escutando. A criança não tem recursos para permanecer presente. Ela desconecta. O corpo entra em modo de sobrevivência. Eu pensava:

Preciso escolher um lado? Será que tem alguma coisa a ver comigo? Fiz alguma coisa errada? Será que ela vai mandar o meu pai embora?

Mas crescer a partir de um conflito talvez seja descobrir que já não somos mais aquela criança e que não precisamos mais reagir aos medos que ela um dia experimentou. A tensão continua existindo, o conflito também. E haja conflito ao longo de nossa existência humana! A diferença agora é que, aos poucos, fui descobrindo a capacidade de permanecer presente sem precisar resolver tudo imediatamente.

Thomas Hübl acrescenta uma ideia que também ficou comigo: Enquanto consigo hospedar a tensão dentro de mim, sem imediatamente colocá-la sobre o outro, algo diferente pode acontecer. Michael Meade diz que é justamente aí que a criatividade nasce. Não a criatividade no sentido artístico, mas a possibilidade de surgir uma terceira resposta, sem a necessidade de polarizar entre o certo e o errado. Não é uma resposta minha nem da outra pessoa, mas uma resposta que só aparece quando ninguém precisa vencer.

E daí, nas minhas elaborações surgiu outra pergunta:

E quando uma necessidade minha passa a parecer responsabilidade do outro?

Não encontrei ainda uma resposta, mas acho que nem preciso dela agora. Por enquanto, é suficiente perceber que existem necessidades que posso comunicar. O outro continua livre para dizer “sim” e igualmente livre para dizer “não”. Meu trabalho não é controlar essa resposta. É aprender a não me abandonar enquanto ela acontece.

Michael Maede cita ainda um poeta zen que escreveu algo parecido com isso - e que ficou na minha cabeça:

“Você não pode deixar de ser quem você é e de estar exatamente onde está.”

Essa frase, estranhamente, parece misturar permissão e perdão. Ela me ajuda a lembrar que, neste exato momento, sou apenas uma pessoa aprendendo.

Estou aprendendo a amar de uma forma diferente a cada dia - e isso gera tensão, pois experimento o desconhecido. E estou aprendendo a sustentar tensão conforme aprendo a amar.

Será esse o caminho de volta para o coração?

Tentar eliminar ou evitar os conflitos já sei que não me levou pra lá. Então, que seja esta experiência a mais nova tentativa de, pouco a pouco, aumentar a capacidade de permanecer presente quando os conflitos chegam.

Se este texto fez sentido para você, no próximo envio quero compartilhar um exercício simples que aprendi nesta formação que estou fazendo.

Ele tem me ajudado a olhar para conflitos importantes sem perguntar apenas “o que o outro fez comigo?”, mas também “quem eu me torno quando não me sinto segura?”.

Talvez essas perguntas também encontrem um lugar dentro da sua história com conflitos e sejam o caminho de volta para o coração. Pois não vale a pena deixar de sentir tudo o que um conflito provoca, por mais desconfortável que seja. Isso é perder a conexão. E daí, como em uma guerra, se seguimos interagindo a partir da desconexão consigo e com o outro, só saem perdedores.

Esses exercícios que quero trazer têm transformado profundamente a maneira como observo meus próprios conflitos. Quero começar a adaptá-los e compartilhá-los com a comunidade do In.pulso. Não porque eu tenha respostas para oferecer, mas porque acredito no poder das perguntas e da investigação. E algumas perguntas ficam mais férteis quando são feitas em um espaço onde alguém te escuta, um espaço íntimo e seguro.

Os primeiros exercícios dessa série serão enviados aos assinantes da comunidade. Assinantes têm acesso direto aos encontros presenciais e online onde praticamos juntos esta forma de sustentar o que emerge a cada momento, sem julgar, sem querer escapar.

Se este texto encontrou alguma ressonância em você, talvez seja um caminho bonito continuarmos essa investigação juntos.

E tem uma pergunta que continua me esperando no caminho:

Quem eu me torno quando não me sinto segura?

In.pulso é uma publicação apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar o meu trabalho, considere tornar-se um assinante gratuito ou pago.

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Reflexões inspiradas na conversa entre Thomas Hübl e Michael Meade no episódio “The Courageous Path of the Heart”, do podcast Point of Relation.

Read on anamunzner.substack.com

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