Quando comecei a escrever este conteúdo sobre ambivalência, intimidade e coragem nos relacionamentos afetivos – que acabou virando seis partes de tão extenso – eu não fazia ideia do que estava por vir.
Naquele momento, meu impulso era compartilhar aprendizados que vinham do meu trabalho terapêutico, das sessões com clientes, das aulas com o professor de terapia familar Terry Real e, claro, da minha própria vida.
Eu não imaginava que, enquanto escrevia, atravessaria cada parte desta série de textos vivenciando na pela até a parte final. Escrevi antes de viver. Agora compartilho o texto mais difícil que já publiquei – depois de atravessar a decisão de ir.
Nos últimos meses, muita coisa aconteceu. Entre desafios e mudanças importantes, a separação foi, sem dúvida, o processo mais doloroso – e ainda é. Foram 23 anos juntos, metade da minha vida. Ainda estou me acostumando a essa nova fase.
Esse movimento consumiu toda minha energia e foi o que me levou a pausar as publicações por aqui.
Por um tempo, mesmo com a Parte 6 já escrita, eu não conseguia publicar. Uma parte de mim se cobrava: “Você assumiu um compromisso com seus assinantes”. Outra dizia: “Calma, as pessoas vão compreender”.
Tenho aprendido, na prática, algo que por muito tempo ficou só na teoria: a autocompaixão não é um luxo, mas a condição para atravessar a dor, acolhendo toda experiência humana, sem se perder nela.
Foi ela que me ajudou a não mergulhar completamente na ansiedade ou no desespero e a manter um mínimo de lucidez para seguir fazendo escolhas coerentes ao que eu sentia e para o que a alma chamava.
Talvez por isso esse texto tenha demorado tanto para sair. Eu o escrevi antes de viver tudo o que ele descreve.
E agora, depois de fechar este ciclo da relação, chegou a hora de publicar e encerrar também o ciclo desta série de 6 publicações.
Tem sido um processo desafiador e importante compartilhar conteúdos que aprendo profissionalmente misturados com meus conteúdos pessoais, pois tudo isso é o que eu mais tenho aplicado ultimamente para encontrar caminhos de cura e libertação para as minhas próprias disfuncionalidades e como isso se reflete na minha relação comigo mesma, com as outras pessoas e com o meu trabalho.
Este texto é sobre aquele momento em que todas as tentativas de resgate da relação parecem não funcionar. Você pede, se posiciona, tenta diferente, seu parceiro talvez embarque junto na proposta de mudança, talvez não... e vem uma vontade de querer desistir. Mas será que é sobre desistir? Ou encarar o que é preciso?
É aqui que entra uma habilidade absolutamente central: a sustentação.
Quando um relacionamento entra no automático da disfuncionalidade e tentamos algo novo, saímos da zona de conforto – e isso é difícil. Se for realmente algo novo, normalmente não vai dar certo de primeira. Pode ser frustrante, principalmente para quem aprendeu desde a infância, como eu, que errar é algo ruim a ser evitado. Mas para dar certo, vai exigir tentar mais de uma vez, aceitar que não deu certo, refinar a estratégia e tentar de novo. E dá para permanecer numa relação desgastada mesmo quando as novas tentativas parecem dar errado? Depende do que cada pessoa está disposta a dar de si e da energia que restou para mais uma tentativa.
Outro dia listei todos os tipos de terapias e terapeutas, cursos e formações, instrutores e mentores que foram pontos de apoio emocional, mental e até espiritual para superarmos os desafios da relação. Foram infinitos aprendizados, alguns mais úteis, outros nem tanto, alguns fáceis de incorporar, outros demandavam mudanças profundas e difíceis.
Diante da primeira, da quinta ou da vigésima resposta frustrante – a depender de quanto tempo você vem tentando algo novo – a tendência é concluir: “Eu tentei. Não deu.” Mas, muitas vezes, ainda não deu porque o movimento precisa ser sustentado por mais tempo.
Sustentar pode soar assim:
“Escuta, estou tentando falar com você. Não sinto que você tenha ouvido o que eu disse. Você poderia prestar atenção?
Eu quero tentar novamente. É isso [explique concretamente] que estou buscando na nossa relação. Gostaria de saber a sua posição em relação a isso.”
Sustentar não é insistir de forma agressiva.
É persistir com coerência.
Se você não está feliz, aja como alguém que não está feliz. Não coloque um sorriso no rosto para facilitar as coisas. Não finja que está tudo bem para manter a paz. Não estar feliz não significa gritar, berrar ou fazer escândalo. Significa apenas não se trair ao conseguir comunicar com clareza “não estou feliz” e fazer isso com confiança.
Para persistir com coerência, é preciso alinhar palavra com sentimento e atitude – e isso exige presença emocional.
Foram inúmeras vezes que pensei em desistir e me retraí, dizendo aceitar que nada funcionou. Mas quando me retraí, eu estava guardando ressentimento e rancor. Ir embora com rancor ainda não é uma boa escolha. Provavelmente, vai ser um exercício de paciência confrontar o seu parceiro, tentar muitas vezes a mudança e não ver a coisa funcionar. Isso pode acontecer e é normal uma hora desistir. Nada de errado com isso. Mas se a tentativa foi feita com sustentação suficiente e honesta, não haverá mágoas nem ressentimentos, mas restará o reconhecimento honesto do esforço, mesmo se o resultado for uma separação.
Nos processos de casal que eu conheço – incluindo o meu – recaímos facilmente na justificativa de que algo só dá errado por causa da outra pessoa, ou seja, nutrimos a crença de que não estamos conseguindo avançar porque o outro é o problema. Se este for o seu caso, significa que ainda tem algo a assumir do seu lado de responsabilidade no processo. Quando uma pessoa muda os movimentos de um lado da gangorra, o outro lado muda junto.
Mas pode ser que, mesmo com ambos tentando fazer a mudança, a relação não funcione mais. Ir embora pode ser uma consequência natural e em comum acordo se nada funcionar. Não é sobre desistir da relação, e sim saber a hora certa de deixar ir. Mas resgatando a ideia de que esta série é sobre a decisão de ir ou ficar, quero ponderar alguns pontos importantes antes da decisão de ir.
Se você buscou desenvolver as habilidades necessárias para confrontar seu parceiro sem agredir, comunicou-se com clareza, comportou-se com integridade e, ainda assim, a pessoa do outro lado da gangorra simplesmente não respondeu, não significa que você falhou.
Significa que vocês precisam de ajuda.
Identificamos que precisamos de ajuda quando não conseguimos avançar sozinhos, mesmo utilizando as estratégias mais eficazes que conhecemos.
Muita gente se arrepia ao ouvir a palavra terapia. Mas um bom terapeuta está ali para ajudar a comunicar o que, a dois, se tornou impossível.
Às vezes, é preciso alguém de fora para dizer ao seu parceiro:
“Ouça, ela está te pedindo algo – e você não está ouvindo.
Eu quero apoiá-lo.
Você pode me deixar apoiá-lo? Se não deixar, a relação está caminhando para uma separação. É o que você quer que aconteça?”
Quando falo de ajuda, falo de ter um aliado. Alguém que consiga ouvir você e, ao mesmo tempo, traduzir sua mensagem para a outra pessoa de uma forma que você não consegue sozinha.
No trabalho de Terry Real, existem instrumentos que ajudam a identificar o padrão predominante de cada pessoa na relação1. Quando um dos parceiros está preso em vergonha e baixa autoestima – muitas vezes justamente o mais insatisfeito – há um momento fundamental em que o terapeuta diz:
“Eu entendo você.
Seu parceiro pode não ouvir, mas eu ouço você.”
Isso muda o sistema.
Em um sistema de três pessoas, há recursos que não existem em um sistema de duas pessoas. Um bom terapeuta consegue se comunicar com seu parceiro de maneiras que você não consegue – sem humilhar, sem ameaçar, sem romper.
Se o terapeuta for realmente habilidoso, seu parceiro não vai querer fugir da sessão. Porque, pela primeira vez, algo verdadeiro estará sendo dito com sustentação.
Às vezes eu escuto:
“Meu parceiro não quer fazer terapia.”
Isso é bem comum.
Se o objetivo for separar, a terapia individual pode ser suficiente. Mas se o desejo for transformar a relação, é preciso trazer o outro junto.
E como fazer isso? Assumindo o próprio poder. É a partir da sua convicção que você pode dizer:
“Eu não estou feliz. Precisamos melhorar. Você precisa levar isso a sério. Eu agendei uma sessão com a/o terapeuta na quinta às 10:00. Conto com a sua presença lá. Tentamos de tudo. Sei que você não gosta da ideia, mas estou falando sério que este é o último recurso que proponho. Só queria tentar mais isso antes de dizer que estou pronta para ir.”
Isso não é um ultimato vazio. É um chamado à responsabilidade relacional. Se for feito com firmeza, convicção e não a partir de uma explosão, o outro, em geral, aceita.
Por sorte, tive um parceiro que nunca hesitou em aceitar meus convites para experimentar as mais diversas terapias. É preciso considerar que o que faz a terapia realmente funcionar é a relação terapeuta-cliente, então, se não houver afinidade com a pessoa que te atende ou com a abordagem, mesmo um profissional super qualificado e experiente não vai funcionar para você. Já fomos para a terapia pensando em separar e saímos com um novo plano sobre como restaurar. Isso foi em 2011. Tentamos de novo, de novo e de novo… A relação se moveu para um novo patamar e tivemos uma fase feliz e mais madura. E foi exatamente por termos realizado tantas tentativas honestas que concluí...
A resposta para essa pergunta não surge no início do processo. Ela emerge ao final dele.
Depois que você:
Passou pelo “ódio conjugal” muitas vezes, vivenciou vários ciclos de ruptura e buscou formas de reparar – PARTE 1
Se perdeu de si mesma e da outra pessoa muitas vezes – PARTE 2
Chegou ao fundo da questão e saiu da ambiguidade estável, encarando o que diz respeito só a você, ou seja, assumindo a própria responsabilidade – PARTE 3
Identificou o que pode ser mudado e aceitou o que não pode – PARTE 4
Ousou “balançar o barco” ao invés de ficar na estagnação, dizendo o que precisava ser dito com generosidade e compaixão, mesmo isso representando um risco para a relação – PARTE 5
Sustentou o movimento ao longo do tempo, buscou ajuda quando sozinha não conseguiu avançar, alinhou palavra, atitude e presença, agindo com integridade… cá estamos, PARTE 6.
Daí, algo se esclarece.
Ou a relação começa a se mover.
Ou o limite se torna visível.
Em ambos os casos, a decisão deixa de ser impulsiva ou reativa. Ela passa a ser íntegra.
Ficar, então, não é permanecer por medo ou hábito – é uma escolha consciente.
Ir embora não é fracasso ou desistência – é um gesto de verdade quando não há mais reciprocidade possível.
Como ouvi outro dia de uma pessoa sábia dando conselho à sua sobrinha na separação: “Você sabe que uma relação deu certo quando as duas partes saem muito melhor no término do que quando começaram juntas. Talvez alguns vejam como fracasso, mas se você cresceu e saiu uma pessoa melhor, foi um sucesso.”
Neste contexto, a pergunta “fico ou vou?” deixa de ser torturante. Ela se torna apenas mais uma pergunta quando você sabe que não se abandonou no caminho. Para mim, o melhor indicador de que chegou a hora de ir foi quando a decisão chegou a um ponto em que foi feita sem ressentimento ou rancor. Caso contrário, Terry recomenda voltar lá e encarar o seu parceiro, tentar mais, balançar o barco mais um pouco.
Se você ficar, fica inteira.
Se você for, vai inteira.
E isso define todo o resto.
Este texto tocou algo em você? Se sim, talvez a pergunta do título já esteja fazendo o trabalho a que se propôs.
P.S.: Este texto não substitui terapia. Fica o convite para uma conversa se quiser aprofundar em um processo terapêutico comigo.
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The relationship grid, um instrumento de diagnóstico desenvolvido por Terry Real: https://terryreal.com/the-relationship-grid-explained/

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