Depois de passar a maior parte das minhas férias estudando para um concurso no qual eu nem passei da primeira fase (mesmo assim, obrigada, Santos, pelo mês de acolhida), voltei para Rio Branco para trabalhar em uns artigos parados e organizar algumas coisas da vida. Vim com aquela atitude de paz e resolução, de quem deu o melhor de si e aceita a derrota como um resultado justo. A dignidade da missão cumprida, e o retorno às responsabilidades do cotidiano.
Menos de 24 horas em terras acreanas, começo a sentir aquela dor aguda na garganta que anuncia meu desengano. A terceira amigdalite em seis meses. Quinto dia de medicação já, minha garganta continua ruim, tosse, dor de cabeça, náusea (essas últimas talvez sejam mais efeito colateral do antiinflamatório ou do antibiótico do que da infecção mesmo) e nada de eu conseguir trabalhar. Ao menos, agora, de férias, não preciso suspender as aulas. Escrevo essa publicação aqui no substack, empacade que estou até para escrever um resumo pra GT. O espírito resoluto já era.
Daqui pouco mais de duas semanas vai ter cerimônia de colação de grau e me convidaram para ser paraninfa. Primeira vez que isso acontece. Em 2023 eu fui patronesse, ou seja, aquela criatura que sai da varinha mágica do Harry Potter, individualizada para cada bruxo. Ano passado deram meu nome para a turma de formandes, ainda que eu estivesse ausente da cerimônia, no afastamento do pós doutorado. Esse ano, como paraninfa, eu tenho que fazer um discurso para a turma e demais presentes, incluindo a mesa de notáveis da universidade.
O aluno que está responsável pela organização me passou as informações hoje. Ele me perguntou se eu desejo que usem pronome neutro para se dirigir a mim na cerimônia. “Eu quero ver acertarem o pronome neutro” respondi. É um bom exercício. Como docente, vou valorizar essa oportunidade de aprendizado da burocracia do cerimonial acadêmico.
Eu preciso enviar meu discurso para o cerimonial até semana que vem, uma página e meia no máximo, em letra arial, fonte 12, espaçamento 1,15. Eu ri. Meu aluno riu. Estão cobrando ABNT para o discurso de formatura, ele me disse. “Vou fazer em comic sans” respondi. Eu nem fiz formatura quando colei grau na graduação. Fiz um discurso (um poema, na verdade) quando terminei a 4ª série. Acho que foi a última vez. Meu orientador de doutorado, José Guilherme Magnani, costuma contar que fugiu da perseguição política da ditadura logo após fazer o discurso da formatura, exilando-se no Chile e depois na Argentina. Um discurso inflamado, conta ele. Ainda esse ano vai sair a entrevista com essa história.
O que quer que eu vá escrever, provavelmente vai ser mais protocolar mesmo. Diz o verbete da wikipedia que, no discurso, o paraninfo oferece um último conselho à turma. Quem sou eu para aconselhar alguém? Recentemente, eu disse para um grupo de alunos que, pelo menos, eles não podem me acusar de ser um bom exemplo para eles. Se eu fosse, talvez não tivesse recebido o convite.
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