RSS Amplifier

Emaranhado · Jun 5, 2025

Espécies e necroses companheiras

0
Sign in to vote or save

Ana Fiori · Emaranhado

Tenho por hábito, herdado de minha avó, abrir todas as janelas de casa assim que acordo, e fechá-las ao anoitecer, à exceção da janela do cômodo no qual estou (a sala ou o escritório), se os mosquitos - aqui no Acre, os carapanãs - assim o permitem. Verdade seja dita, os carapanãs são menos notívagos do que eu, e se sentem convidados a qualquer hora do dia. O otorrinolaringologista que me atende perguntou se eu tinha animais domésticos. Fiapo de Manga Fiori, meu cachorro viralata estopinha acreano, hoje goza dos prazeres do frio sulriograndense com minha mãe. Virou filho de vó e desse destino não há escapatória.

Minhas espécies companheiras aqui dentro do apartamento são quase todas invertebradas: artrópodes, anelídeos e algumas lagartixas, para representar os répteis. Os artrópodes acabam tendo tratamentos diversos: eu raramente mato aranhas, mas às vezes elas são pegas pelo aspirador; formigas e baratas recebem menos consideração, seja de mim, seja das lagartixas; os ácaros foram recentemente alvo de uma tecnologia de limpeza de estofados que lembra os Caça-Fantasmas, com direito a vídeo no instagram testificando a cor tenebrosa da água pós higienização. O otorrino me pediu para fazer o teste de alergia a estas espécies companheiras todas. Vou fazer, vai quase certamente dar positivo, não sou exatamente a pessoa mais bem equipada em termos de aparelho respiratório.

E ontem, ao realizar o protocolo crepuscular de fechar a janela, vi os primeiros rastros de queimada da temporada, trazidos pelo vendo. Pequenas tiras pretas no chão. E estamos no início de junho. Não é nem tempo de estiagem ainda. Fuligem que é necrose companheira do Projeto de Lei 2159/2021, também conhecido como PL da Devastação, ou “a boiada das boiadas”, recentemente aprovado no Senado e que volta para votação na Câmara, após modificações, onde também será aprovado com larga facilidade, para um veto parcial e tíbio de Lula, que será derrubado, em algum momento depois da COP30.

A cobertura do Sumaúma sobre o Pl da Devastação está muito boa. Nesse link, há uma explicação didática das mudanças do Licenciamento Ambiental estipuladas pelo PL. Entre as mudanças, está a retirada de uma lista mínima do que deve passar por licenciamento, transferindo esta discricionariedade para estados e municípios (vai vendo…), cria uma Licença por Adesão e Compromisso que é na prática um autolicenciamento declarado pelo empreendedor, que se compromete (cof cof cof) a cumprir as exigências ambientais e dispensa licenciamento para atividades agrossilvipastoris. Reduz também a participação de órgãos colegiados e órgãos técnicos. Para a região da Amazônia, há dois projetos críticos em curso: a exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas, no Pará, e o asfalto da BR 319, que liga Manaus a Porto Velho, sem políticas de governança que previnam o desmatamento e a grilagem desenfreados. O portal Sumaúma fez uma reportagem em março sobre o financiamento público da devastação na “Zona de Desenvolvimento Sustentável” Amacro - Amazonas (sul), Acre e Rondônia. Eis o caminho da fuligem.

Os artrópodes na floresta são investigados, pela equipe de pesquisa do Laboratório de Entomologia da Ufac, como indicadores de desmatamento. Levei minha turma de Teoria Antropológica 3 lá no início do ano, para conhecer o trabalho com formigas e abelhas. Trabalho de taxonomia, análise ecológica de interação formiga-planta, estudos de população, muitas outras coisas que não deu tempo de sabermos naquele dia. Minha amiga que trabalha no laboratório fez rifa para poder levar os alunos dela para participar da coleta de espécimes em um campo mais longe de Rio Branco. Meus alunos, em seus relatos etnográficos, fizeram questão de ressaltar o cheiro de naftalina do laboratório, utilizado para manter baratas e formigas vivas longe do espaço, porque elas podem comer os espécimes catalogados se adentrarem o laboratório. O otorrinolaringologista tinha me sugerido colocar naftalina pela casa também, para evitar a invasão artóprode. Mas o cheiro da naftalina também vai acionar a minha rinite.

Eu vou continuar lutando para respirar por aqui, e em breve todo a região vai lutar para respirar nos meses de queimada; e o mundo inteiro luta para respirar, para ter água potável, para sobreviver aos desastres climáticos; enquanto nossos parlamentares lutam por emendas e cargos estratégicos em comissões; a equipe do governo Lula luta entre si para enquadrar a próxima cagada política; Marina Silva luta quase sozinha no Ministério do Meio Ambiente enquanto oligarcas amazônicos boçais e ressentidos a desrespeitam e ganham prestígio em seus cortes para redes sociais; e os artrópodes seguem seu rumo, em suas lutas diárias. Uns, como as abelhas, extremamente ameaçados, outros, como as baratas, na paciência e perseverança que lhes cabe como testemunhas do fim. Certa manhã, ao despertar de sonos inquietos, o planeta Terra encontrou-se em sua órbita metamorfoseado em um inseto mostruoso. Bem, talvez não monstruoso.

No posts

Read the original on anafiori.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.