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Vênus Exilada by Ana Abel · Jul 28, 2026

o erótico que existe em explorar o medo

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Ana Abel · Vênus Exilada by Ana Abel

o pior ano da minha vida adulta foi 2023. eu imigrei em 2022 com meu ex namorado e a relação já estava meio estranha desde o começo da vida nova naquele país. ao longo do ano comecei a ter pensamentos do tipo “acho que a gente não se ama mais” ou “o que aconteceria comigo se terminássemos”, e sensações aterrorizantes invadiam meu corpo. até hoje lembro do frio que senti nos meus ossos quando pensei nisso pela primeira vez.

comecei a pensar mais e mais no fim (é bem comum mulheres viverem o luto do término durante a relação). comecei a elaborar o luto. comecei a pensar sobre o medo de ficar sozinha. comecei a criar uma certa tolerância a esse medo enquanto ainda estava com ele. uns meses depois, terminamos, numa sexta-feira qualquer. naquele dia tive uma crise de pânico horrível. peguei o metrô pra encontrar uma amiga e congelei no meio do caminho. não conseguia me mover. não conseguia falar. liguei pra ela e não saia uma palavra. chorei numa estação qualquer da linha verde em Lisboa. a vida na minha frente parecia ter se dobrado no meio e eu não enxergava mais nada. liguei para meu ex e ele não quis me atender. sozinha. sozinha. então, eu sei como é ser engolida pelo medo. é aterrorizante. parece que o seu corpo não sabe mais ser uma pessoa.

eu vivi o medo e o terror da solidão por um ano inteiro em outro país com um emprego horrível e poucos amigos (que por acaso tinham horários rotativos e era muito difícil conseguir vê-los). a pessoa que mais me ouvia era a minha professora de inglês. foi uma morte do ego absurda, longa e dura. me senti dissociada por um longo tempo.

depois daquele ano eu não sou mais a mesma pessoa. quando você perde o sentido da vida por muito tempo nada mais te assusta. eu sei que nem todo mundo consegue fazer o caminho de volta porque é difícil mesmo (talvez por isso eu seja tão obcecada em inspirar mulheres a saírem do fundo do poço). existe algo dentro de nós que quer viver e eu sei que isso é mais forte do que qualquer coisa, mas pra suportar a vida e amá-la intensamente você precisa ter uma boa relação com o medo e o vazio.

explorando o erótico do medo

quando você domina o medo entende que o objetivo não é não senti-lo, mas entender que é um sentimento absolutamente normal e humano. não ter medo do medo é entender que seu corpo aguenta. seu corpo sabe. seu corpo é capaz. acreditar no poder do corpo se chama autoconfiança. eu confio que esse organismo que me mantém viva vai fazer meu ser se movimentar em direção a luz, beleza e criatividade, porque afinal, eu sou só uma planta com hiperatividade mental.

o medo é um sentimento assustadoramente físico. quase consigo visualizar meu sistema nervoso se enroscando como uma tripa seca quando começo a senti-lo. o nosso corpo tão animal e tão frágil se treme quando vamos viver alguma experiência que nunca tivemos antes como se fosse sempre um caso de vida ou morte. somos tão humanos e tão normais. acho lindo de ver.

existe um livro chamado “quando tudo se desfaz” escrito por uma monja chamada pema chodron, nele, ela explica que o nosso medo nunca é do evento, mas do próprio sentimento do medo. o nosso medo real é o de não suportar a vida, de não saber lidar. eu nunca esqueci esse insight. confiar em si mesma é sempre a resposta pra tudo.

me irrita quando seres humanos vivem numa caixinha acreditando que a dor deles é superior e única. eu gosto de abraçar o paradoxo da ordinariedade dos meus sentimentos e da minha experiência humana (não sou especial) ao mesmo tempo que admiro tanto cada pedaço desse processo todo porque sou uma pessoa e gosto de existir.

o medo não deveria te paralisar. o medo é uma experiência tão humana e tão animal. toda vez que começo a sentir medo, me separo de mim por alguns segundos e penso: ana, seu sistema nervoso está tentando te proteger porque ele acredita que entrar em conflito agora vai te colocar em risco. você está segura. o medo vai passar assim que você descobrir que o seu colega de trabalho não vai te esfaquear só porque você criticou o atraso dele da hora do almoço. vai, tenta. no máximo vai receber uma cara feia.

são nesses pequenos enfrentamentos e na criação de confiança sobre o seu corpo que o medo deixa de ser assustador. ele talvez não mude de intensidade, mas vai perder o poder sobre você. emoções são necessidades humanas, são respostas inteligentes e sintetizadas do nosso corpo que visam nos proteger baseadas no nosso histórico de vida. mas é só isso. emoções não precisam definir sua história.

e porque eu chamo tudo isso de erótico? porque é absolutamente prazeroso descobrir o poder que existe em você depois que o medo passa. é absolutamente prazeroso se sentir viva e capaz. a relação mais importante da sua vida é a sua consigo mesma. não desperdice a oportunidade de estreitar os laços com seu corpo. ele quer que você o encante, seduza e admire. atravessar o medo é expandir, e pra isso, é preciso desromantizá-lo.

seu corpo sabe suportar a vida. experimente.

obrigada por me ler. se quiser acompanhar meus vídeos e insights mais de perto, me segue no instagram venusexilada. também tenho um podcast (mais íntimo, com episódios longos) onde falo sobre amor romântico, espiritualidade, astrologia e filosofo sobre a vida, disponível no youtube também. e se quiser se consultar comigo, link aqui.

Read the original on anaabel.substack.com

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