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Vênus Exilada by Ana Abel · Aug 14, 2026

maternidade e casamento como fuga de si mesma

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Ana Abel · Vênus Exilada by Ana Abel

oi. tudo bem? respira. porque talvez esse texto te engatilhe.

o patriarcado cria uma estrutura onde condiciona a existência feminina a dois papéis: casamento e maternidade. mesmo que você não queira se casar ou ser mãe, você está performando esses papéis. quando você estrutura a sua vida em torno de agradar homens e quando se comporta de maneira excessivamente empática e acolhedora (maternal), você está performando o que esperam de você. se desfazer desse condicionamento é um processo longo e duro. mas é isso, você está aqui, e você quer sair dessa mentalidade. você quer tentar.

existem mulheres que BUSCAM ativamente a maternidade e o casamento pelo desejo de pertencer ao script. não porque desejam genuinamente (não sei se existe desejo genuíno por casar e ter filhos, talvez por ter filhos sim, mas por casar, não sei. como você pode desejar algo antes mesmo de conhecer a pessoa? como se casamento fosse uma vaga de emprego que quer preencher?), mas porque querem fugir do tempo livre.

tempo livre. essas mulheres sentem pânico quando não estão funcionando, resolvendo, gerenciando a vida de outras pessoas. quem sou eu pra além do servir? essas mulheres não sabem lidar com a solidão. solidão, para elas, significa: talvez eu queira um namorado, talvez eu queira ter filhos. os sonhos que a mente sugere são estes. tempo livre significa lidar com você, suas sombras, seus medos, seu vazio. essas mulheres sentem pânico da parte humana que as habita.

relato anônimo de uma seguidora

o vazio. essas mulheres não sabem abraçar e acolher o próprio vazio. essas mulheres não entenderam que são humanas e que sentimentos desconfortáveis e perder o sentido da vida de vez em quando faz parte do que é ser um ser humano. elas acreditam que um filho e um marido (trabalho, trabalho, trabalho), é o que vai lhes livrar de pensarem em si mesmas.

conheço uma mulher assim. belíssima, vaidosa, cheia de personalidade. a primeira impressão é de poder, autoestima. a segunda, insegurança extrema. essa mulher teve um filho com o marido que é um parceiro inútil. eles não moram juntos porque a convivência não funciona. ela tem alguns sonhos e compartilha muito suas frustrações sobre não poder realizá-los. quer estudar porque o salário atual é muito baixo, quer fazer a carteira de motorista porque é dependente de todo mundo. ela não consegue fazer tudo agora agora porque o filho é pequeno né? okey, vamos esperar. anos depois, assim que o filho começou a crescer, o que apareceu? o desejo pelo segundo filho. esse script é muitíssimo bem explicado no livro o complexo de cinderela. mulheres fogem da própria vida, do desconforto de tentarem algo novo. fogem da própria autonomia através do casamento e da maternidade. ah, e essa mulher não é mimada, okey? ela veio de uma família grande, já cuidou dos pais doentes, já superou mil coisas. mas a experiência não lhe deu confiança para ser livre. não, não deu porque a mentalidade ainda é de cinderela.

postei sobre esse assunto no instagram (@venusexilada) e uma seguidora me trouxe um relato muito parecido:

para essas mulheres, ser livre é mais assustador do que ser escrava.

essa mulher tem medo de tudo. ela pode falar alto, mas tem medo de tudo. eu poderia dizer tudo o que sei pra ela, mas a nossa mentalidade, nossas crenças, são estruturas rígidas que só podem ser destruídas de dentro pra fora. você não consegue salvar ninguém e nem tem o direito de forçar uma pessoa a pensar como você. cada uma tem a sua jornada, por isso, costumo dizer que não vale a pena forçar a barra com essas mulheres. deixem elas viverem e aprenderem. a consciência precisa vir naturalmente.

não vou trazer uma explicação de vítima aqui. não, não tenho pena delas. a socialização é fortíssima mas também acredito que dentro de cada uma existe a possibilidade de mudança. se eu fosse justificar todas as pessoas com mentalidades oprimidas com teorias políticas, deixaria de trazer o mínimo de autonomia pra elas. existem milhares de mulheres rompendo a socialização todos os dias. não somos vítimas. pare de enxergar mulheres com esse sentimento de pena. ofereça suporte, caso ela precise, mas não tente transformá-la a força. ouço histórias todos os dias de mulheres atoladas de problemas que só conseguiram sair da lama por conta da mudança de mentalidade.

autonomia. não é possível transferir autonomia por osmose. a mulher precisa descobrir o prazer de ser livre (que pode ser assustador) sozinha. podem existir veículos (como o meu trabalho, por exemplo), mas ainda existe uma jornada emocional e espiritual muito solitária que engloba tudo isso.

mulheres assim enxergam a vida de forma quadrada. não tenho um olhar de arrogância sobre elas, mas também não tenho de pena. prefiro me afastar porque essas mulheres projetam o próprio medo em você. essa mulher, que comentei acima, vivia me sabotando, trazendo perspectivas negativas sobre mudança pessoais. depois de um tempo ela me apoiava, mas a primeira reação dela era sempre me estimular a ficar igual. na minha zona de conforto, na minha caixa.

talvez esse texto te engatilhe porque cheguei a um ponto onde não consigo mais enxergar mulheres como vítimas do sistema o tempo todo. muitas mulheres ativamente colaboram com a própria opressão. muitas, obviamente, não tiveram escolhas. nossas mães e avós não tinham as referências que temos hoje. hoje em dia podemos compreender o sistema por trás disso tudo, mas a nível pragmático, precisamos reconhecer que temos sim a capacidade de mudar.

eu quero trabalhar e escrever pelas que tem coragem de sentir o desconforto da própria liberdade, afinal, ela é maravilhosa.

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Read the original on anaabel.substack.com

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