oi. tudo bem? respira. porque talvez esse texto te engatilhe.
o patriarcado cria uma estrutura onde condiciona a existência feminina a dois papéis: casamento e maternidade. mesmo que você não queira se casar ou ser mãe, você está performando esses papéis. quando você estrutura a sua vida em torno de agradar homens e quando se comporta de maneira excessivamente empática e acolhedora (maternal), você está performando o que esperam de você. se desfazer desse condicionamento é um processo longo e duro. mas é isso, você está aqui, e você quer sair dessa mentalidade. você quer tentar.
existem mulheres que BUSCAM ativamente a maternidade e o casamento pelo desejo de pertencer ao script. não porque desejam genuinamente (não sei se existe desejo genuíno por casar e ter filhos, talvez por ter filhos sim, mas por casar, não sei. como você pode desejar algo antes mesmo de conhecer a pessoa? como se casamento fosse uma vaga de emprego que quer preencher?), mas porque querem fugir do tempo livre.
tempo livre. essas mulheres sentem pânico quando não estão funcionando, resolvendo, gerenciando a vida de outras pessoas. quem sou eu pra além do servir? essas mulheres não sabem lidar com a solidão. solidão, para elas, significa: talvez eu queira um namorado, talvez eu queira ter filhos. os sonhos que a mente sugere são estes. tempo livre significa lidar com você, suas sombras, seus medos, seu vazio. essas mulheres sentem pânico da parte humana que as habita.
o vazio. essas mulheres não sabem abraçar e acolher o próprio vazio. essas mulheres não entenderam que são humanas e que sentimentos desconfortáveis e perder o sentido da vida de vez em quando faz parte do que é ser um ser humano. elas acreditam que um filho e um marido (trabalho, trabalho, trabalho), é o que vai lhes livrar de pensarem em si mesmas.
conheço uma mulher assim. belíssima, vaidosa, cheia de personalidade. a primeira impressão é de poder, autoestima. a segunda, insegurança extrema. essa mulher teve um filho com o marido que é um parceiro inútil. eles não moram juntos porque a convivência não funciona. ela tem alguns sonhos e compartilha muito suas frustrações sobre não poder realizá-los. quer estudar porque o salário atual é muito baixo, quer fazer a carteira de motorista porque é dependente de todo mundo. ela não consegue fazer tudo agora agora porque o filho é pequeno né? okey, vamos esperar. anos depois, assim que o filho começou a crescer, o que apareceu? o desejo pelo segundo filho. esse script é muitíssimo bem explicado no livro o complexo de cinderela. mulheres fogem da própria vida, do desconforto de tentarem algo novo. fogem da própria autonomia através do casamento e da maternidade. ah, e essa mulher não é mimada, okey? ela veio de uma família grande, já cuidou dos pais doentes, já superou mil coisas. mas a experiência não lhe deu confiança para ser livre. não, não deu porque a mentalidade ainda é de cinderela.
postei sobre esse assunto no instagram (@venusexilada) e uma seguidora me trouxe um relato muito parecido:
para essas mulheres, ser livre é mais assustador do que ser escrava.
essa mulher tem medo de tudo. ela pode falar alto, mas tem medo de tudo. eu poderia dizer tudo o que sei pra ela, mas a nossa mentalidade, nossas crenças, são estruturas rígidas que só podem ser destruídas de dentro pra fora. você não consegue salvar ninguém e nem tem o direito de forçar uma pessoa a pensar como você. cada uma tem a sua jornada, por isso, costumo dizer que não vale a pena forçar a barra com essas mulheres. deixem elas viverem e aprenderem. a consciência precisa vir naturalmente.
não vou trazer uma explicação de vítima aqui. não, não tenho pena delas. a socialização é fortíssima mas também acredito que dentro de cada uma existe a possibilidade de mudança. se eu fosse justificar todas as pessoas com mentalidades oprimidas com teorias políticas, deixaria de trazer o mínimo de autonomia pra elas. existem milhares de mulheres rompendo a socialização todos os dias. não somos vítimas. pare de enxergar mulheres com esse sentimento de pena. ofereça suporte, caso ela precise, mas não tente transformá-la a força. ouço histórias todos os dias de mulheres atoladas de problemas que só conseguiram sair da lama por conta da mudança de mentalidade.
autonomia. não é possível transferir autonomia por osmose. a mulher precisa descobrir o prazer de ser livre (que pode ser assustador) sozinha. podem existir veículos (como o meu trabalho, por exemplo), mas ainda existe uma jornada emocional e espiritual muito solitária que engloba tudo isso.
mulheres assim enxergam a vida de forma quadrada. não tenho um olhar de arrogância sobre elas, mas também não tenho de pena. prefiro me afastar porque essas mulheres projetam o próprio medo em você. essa mulher, que comentei acima, vivia me sabotando, trazendo perspectivas negativas sobre mudança pessoais. depois de um tempo ela me apoiava, mas a primeira reação dela era sempre me estimular a ficar igual. na minha zona de conforto, na minha caixa.
talvez esse texto te engatilhe porque cheguei a um ponto onde não consigo mais enxergar mulheres como vítimas do sistema o tempo todo. muitas mulheres ativamente colaboram com a própria opressão. muitas, obviamente, não tiveram escolhas. nossas mães e avós não tinham as referências que temos hoje. hoje em dia podemos compreender o sistema por trás disso tudo, mas a nível pragmático, precisamos reconhecer que temos sim a capacidade de mudar.
eu quero trabalhar e escrever pelas que tem coragem de sentir o desconforto da própria liberdade, afinal, ela é maravilhosa.
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