“Anna (Wintour) foi a primeira da área a ser considerada dura. E ela nem era dura se você observar o que acontece no mercado financeiro ou na tecnologia. Apenas estipulou um exemplo diferente no mundo criativo, um exemplo de profissionalismo.”
A frase foi dita por Marina Larroudé, brasileira que é ex-funcionária da Condé Nast americana – e, por tabela, de Wintour – em entrevista ao podcast de Amy Odell. O tema é sempre polêmico, mais ainda nos dias de hoje, em que o nível de exigência médio já pode causar controvérsias e cancelamentos; tempos nos quais fica difícil separar o que é uma exigência profissional de um comportamento gratuitamente tóxico. Ao mesmo tempo, ao ouvir Marina, não pude deixar de pensar nos anos em que eu mesma trabalhei, no Brasil, no mesmo mercado editorial.
Ao longo de uns sete anos, passei por três chefes reconhecidamente exigentes (uma delas, até polêmica) na área. Destas que geram histórias contadas por todos que por elas passaram. Eu tive que dormir com Nextel dentro do travesseiro, eu fiz plantões em semanas de moda com o espírito de urgência de quem tem um parto delicado para comandar a qualquer momento, eu levei até broncas injustas por erros alheios.
Uma delas era reconhecida pela equipe pela intolerância a erros de qualquer grandeza e por não podermos pedir para ela repetir alguma ordem ou notícia a ser escrita – todo mundo saiu dali com altas habilidades de taquigrafia, além de um senso coletivo no qual cinco pessoas escutavam o telefonema no viva-voz simultaneamente, cada uma anotando um trecho ou frase, para nada ser perdido ou mal compreendido. Outra, é verdade, era especialmente crítica na edição dos textos. A terceira? Fazia muito funcionário sênior ter medo de ir à sua sala para mostrar algum texto ou o “boneco” da revista (como chamávamos a pasta plástica que compilava todas as páginas do mês para aprovação). Talvez por nunca ter tido “medo de gente”, eu pessoalmente não posso dizer que me senti desrespeitada em nenhum momento. Porém posso afirmar sem medo que fiz três MBAs: em agilidade, em escrita, em estética, respectivas especialidades das mulheres citadas.
Nos meus anos de moda e lifestyle, eu me lembro, sim, de ter ido para o banheiro chorar uma(s) vez(es): quando trabalhei para um homem, nunca apontado dentro nem fora do mercado como uma pessoa difícil, do qual saí sem carregar nenhum ensinamento relevante que tenha resistido a todos estes tempos.
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Muita gente costuma(va) chegar à área editorial de moda com altas expectativas de glamour e pouca ideia do nível real de ralação que pode estar por trás de cobrir notícias em tempo real ou transformar desfiles em textos que não se limitem a “descrição para quem não enxerga” à la “a modelo desfilou com um vestido de tecido fluido vermelho e maquiagem em tons terrosos”. Lembro de histórias (hoje) engraçadas, como o jovem estagiário recém-chegado que usava os convites não usados pela chefe principal na São Paulo Fashion Week para fugir do trabalho para as primeiras filas dos desfiles sem sua editora saber seu paradeiro. E que, ao ser questionado, pediu demissão dizendo que estava muito decepcionado, porque sempre achara que trabalhar com moda era mais glamouroso do que ser chamado na sala de imprensa para... trabalhar! Exigir profissionalismo no meio já era desafiador 20 anos atrás.
Corta de volta para a observação de Marina sobre Anna Wintour e toda a caricatura que fizeram da “diaba” (que, vale pontuar, acabou, sim, inspirando muita gente de talento mediano a copiar só o lado negativo da coisa). Será que sua fama seria igualzinha se ela fosse… homem? Por que os executivos do mercado financeiro e os meninos crescidos das startups de tecnologia ganham filmes exaltando, antes de tudo, seu brilhantismo, sua excelência, seus resultados superiores?
Jamais defenderia comportamentos tóxicos ou maldades. Por outro lado, é preciso avaliarmos pares com a mesma régua: o que é motivo para cancelamento e o que é profissionalismo? O que é exigência desproporcional, o que é caricatura hollywoodiana e o que é… gênero? Na semana do Dia Internacional da Mulher, a frase de Marina Larroudé acendeu lembranças e reflexões em mim. A fortaleza e a vilania podem estar separados apenas por quem está à frente de uma mesma exigência.
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